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A onda e a solução final do fascismo brasileiro: as eleições 2018

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'Talvez em razão da leniência de parte do Judiciário essa onda crescente de adesão ao fascismo tenha chegado ao segundo turno' / Rede Brasil Atual
Ainda há tempo de evitar que esse longo e tenebroso inverno se abata sobre nós

Em 1º de novembro de 2014, durante uma manifestação contra o Partido dos Trabalhadores (PT) e a favor do impeachment da presidenta Dilma Rousseff, recém-eleita, o então deputado federal eleito Eduardo Bolsonaro (PSL), filho do presidenciável Jair Bolsonaro, parabenizou o Polícia Militar de São Paulo por agir com violência apenas contra quem “não teve educação em casa”.

Na ocasião, Eduardo Bolsonaro gritava “Fora Cuba, fora PT” com uma arma na cintura enquanto manifestantes entravam em uma catarse coletiva com o hino nacional, ameaçavam as pessoas e gritavam enfurecidos: “nossa bandeira jamais será vermelha”, “morram petistas de merda”, “fora comunistas”. Essas imagens foram capas em vários jornais do país, foram transmitidas ao vivo e retransmitidas à exaustão em rede nacional pela TV Globo. O Judiciário brasileiro não se manifestou a respeito.

Nas manifestações de 15 de março de 2015, no Rio de Janeiro, um homem que vestia uma camiseta do Movimento Nacional de Luta por Moradia (MNLN) foi expulso por manifestantes em Copacabana aos gritos de “vai pra Cuba”, “morram, petistas”. Em Brasília, manifestantes carregavam uma faixa com a suástica nazista e pedia: “Fora Paulo Freire!”, “volta ditadura militar”. Enquanto seguiam as transmissões ao vivo das manifestações que os comentaristas da GloboNews qualificavam de “pacíficas” e “frequentadas por gente bonita”, as redes sociais exibiam imagens de ódio como uma foto de bonecos de Lula e Dilma enforcados em um viaduto e da sede do PT em Jundiaí, interior de São Paulo, alvo de um ataque com fogo. O Judiciário brasileiro não se manifestou a respeito e a imprensa continuou alimentando o ódio ao PT.

Por ocasião das manifestações de 16 de agosto de 2015 contra o governo Dilma Rousseff, nas quais as pessoas usaram roupas com as cores da bandeira nacional e gritavam palavras de ordem racistas, xenófobas, preconceituosas e cheias de ódio, na avenida Paulista, em São Paulo, os dizeres dos cartazes variavam entre: “Dilma, sua vaca”, “Haddad, seu bundão”, “Morra, Lula, ladrão”, enquanto a multidão usando as cores da bandeira nacional ia ao delírio ao som do hino nacional e dos gritos “Fora PT”.

No Rio de Janeiro, um estudante de jornalismo chileno fez um vídeo com várias entrevistas, entre elas um senhor que vociferou a ideia que ele fazia de petista: trata-se de um grupo de pessoas que cresceu sem a figura paterna em casa, pois todos eles foram “acertadamente” mortos pela ditadura civil e militar. Assim, sem a “força e o pulso firme” da autoridade paterna em casa, e criados apenas pelas mães, petistas são pessoas “degeneradas”, corruptas por natureza e perigosas; pessoas que devem ser “eliminadas” do país, segundo esse senhor. O Judiciário brasileiro não se manifestou a respeito, a imprensa continuou naturalizando essas afirmações e alimentando o ódio ao PT e 20% da população brasileira apoiou esse tipo de manifestação.

A escalada fascista no Brasil só piorou com a efetivação do golpe/impeachment contra a presidenta Dilma Rousseff (PT), no final de 2016. Quem conseguiu esquecer a cena transmitida em rede nacional do atual presidenciável Jair Bolsonaro (PSL) votando a favor do impeachment da presidenta ao tempo em que homenageou o torturador Brilhante Ustra, que a torturou por mais de dois anos? Quem até hoje não se lembra do presidenciável Jair Bolsonaro xingando a deputada federal Maria do Rosário de “vagabunda” e “feia, que não merece nem ser estuprada”, por ela tê-lo denunciado de incitar a violência contra mulheres e pobres no plenário do Congresso Nacional? Quem consegue fingir que não ouviu Jair Bolsonaro afirmar que a única coisa boa no Maranhão é o Presídio de Pedrinhas e que ele é contra o [programa] Bolsa Família, porque mulheres e meninas engravidam só para receber o “benefício”, contra todas as pesquisas.

Apesar de essas frases e posturas serem tipificados como crimes no Código Penal: o Judiciário brasileiro não se manifestou a respeito, a imprensa continuou naturalizando essas manifestações e alimentando o antipetismo por meio do fascismo, que tem em Jair Bolsonaro seu principal expoente.

Talvez seja em razão da naturalização da violência e do fascismo, por boa parte da imprensa e do Judiciário brasileiro, que durante a campanha presidencial no 1º turno, em um discurso no Acre, Jair Bolsonaro sentiu-se autorizado a "empunhar" um tripé de câmera como arma, simular atirar e gritar para uma multidão enfurecida que, se eleito, varreria os “petralhas” da face da terra.

Um pouco antes, o mesmo Jair Bolsonaro gravou um vídeo segurando um punhado de capim e afirmando que em um futuro governo dele essa seria a alimentação dos petistas.

Procurada a se manifestar diante de tamanha descompostura e violência, a Procuradoria Geral da União, na figura da senhora Rachel Dodge, entendeu que não houve manifestação de violência e incitação ao ódio contra a militância e dirigentes dos Partidos dos Trabalhadores.

Talvez seja em razão da leniência de parte do Judiciário brasileiro que essa onda crescente de adesão ao fascismo, por amplos setores da sociedade brasileira, como a principal força de oposição ao petismo, tenha chegado ao segundo turno das eleições de 2018, com Jair Bolsonaro com 59% das intenções de votos e Fernando Haddad com 41%.

Estamos a 12 dias do resultado final das eleições presidenciais em 2018, muitos de nós estamos perplexos com a possibilidade de o Brasil ser governado pelo fascismo bolsonarista, cujo projeto de país a população desconhece e, em razão das manifestações citadas, resume-se ao ódio ao nordestino, à comunidade LGBT, às mulheres, aos movimentos sociais e ao Estado de Bem-estar social. Desde o lamentável e condenável atentado contra Jair Bolsonaro, ele se recusa a participar de debates públicos, alegando impedimento médico, mas tem dado entrevistas exclusivas nas quais ele diz o que fará se for eleito: ele é a favor de tortura e do extermínio de populações que não se enquadram na sociedade fascista. Ele é pública e orgulhosamente racista, misógino, homofóbico e acha que a população das regiões Norte e do Nordeste deve servi-lo. Ele também é contra os direitos conquistados pelos trabalhadores, contra a autonomia das universidades públicas, contra o ensino fundamental e médio presenciais e a favor de espalhar o pânico por meio de mentiras contra o PT.

É nesse candidato que, segundo a pesquisa do IBOPE, de 15 de outubro, 59% da população brasileira irá votar. O antipetismo transubstanciou-se na barbárie como projeto dessa parcela da população, que no futuro não terá como alegar que sujou as mãos de sangue porque não sabia do que se tratava e foi enganada.

Estamos a 12 dias das eleições e ainda há tempo de evitar que esse longo e tenebroso inverno se abata sobre nós. Ainda dá tempo de votar na democracia e resgatar o traço de humanidade que há em cada um/uma dos 59% que pretende eleger o fascismo como resolução de conflitos. Porque na democracia, há o antipetismo. No fascismo: não haverá democracia, antipetismo e talvez nem você que votou contra a sua própria humanidade.

* Patrícia Valim é professora de História do Brasil Colonial da Universidade Federal da Bahia (UFBA), conselheira do Centro de Pesquisa e Documentação da Fundação Perseu Abramo, mãe de Ana, Bento e Maria, e avó de Maria Antônia.

Edição: Cecília Figueiredo