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Bolsonaro não representa a ditadura; ele é pior

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Na ditadura, os afetos do ex-capitão estão com o homem que espancou Amelinha Teles e com a ultradireita militar. / Marcelo Camargo/ ABr
“Mau militar” foi o termo usado por Geisel para definir o candidato do PSL

Há uma ideia errada na praça: a de que Bolsonaro representa a ditadura de 1964. Sinto informar que não é bem assim. Mais correto é dizer que espelha uma nuance, a mais sórdida de todas, daquela tirania. A dos seus subterrâneos. Explico melhor: ao longo de sua longa carreira de parlamentar tem sido raro ouvir dele uma palavra de exaltação aos marechais e generais Castelo Branco, Costa e Silva, Garrastazu Médici, Ernesto Geisel ou João Figueiredo. Está distante das cabeças coroadas do regime. Sua turma é outra.

"Ah, esse homem eu nunca pude suportar!", desabafou em 2011, o coronel e três vezes ministro sob a ditadura, Jarbas Passarinho. “Ele é um radical e eu não suporto radicais, inclusive os radicais da direita”. E prosseguiu: “Foi mau militar, só se salvou de não perder o posto de capitão porque foi salvo por um general que era amigo dele no Superior Tribunal Militar (STM)”. 

“Mau militar” também foi o termo usado por Geisel  para definir o hoje candidato do PSL. Aliás, em 1976, Geisel destituiu o comando do II Exército após os assassinatos, na tortura, de Vladimir Herzog e Manuel Fiel Filho. Já Bolsonaro descreve a chacina de Herzog como “suicídio”, a já desmoralizada alegação dos assassinos na época. 

Em 1991, o então chefe do Estado Maior das Forças Armadas (EMFA), general Jonas Correia Neto, foi ainda mais enfático. Em carta ao ex-capitão, já deputado, classifica-o como “embusteiro, intrigante e covarde", acusando-o de 'inventar e deturpar visando aos interesses pessoais e da política".

Não foi de nenhum dos marechais/generais o nome que Bolsonaro gritou no seu voto contra Dilma naquela noite hedionda de abril de 2016. Homenageou aquele rosto que hoje enfeita as camisetas de seus filhos. O nome e o rosto do torturador Carlos Alberto Brilhante Ustra, comandante do açougue também conhecido como DOI-Codi, de São Paulo. Foi, como disse o jornal inglês The Guardian,“o ponto mais baixo da noite”. 

Na ditadura, os afetos do ex-capitão não estão no andar de cima, atrás das escrivaninhas ou nas solenidades oficiais. Estão nos porões, como Ustra, a mais citada das suas admirações. Estão com o homem que espancou Amelinha Teles e levou os filhos da prisioneira, de quatro e cinco anos, para mostrar o que estava fazendo com a mãe deles, exibida amarrada, nua, vomitada e urinada na cadeira do dragão, um instrumento de suplício. Ustra torturou pessoalmente o preso Gilberto Natalini. São relatos de suas vítimas. O ídolo de Bolsonaro colocava em exposição os cadáveres dos assassinados, “ainda com o sangue jorrando”, conforme testemunho do ex-agente da repressão Marival Chaves. “Ele era o senhor da vida e da morte”, depôs.

Vale cogitar das afinidades do ex-capitão com a ultradireita militar. Aquela ala fascista, afinada com as masmorras, que reagiu à chamada abertura lenta, segura e gradual promovida por Geisel e Figueiredo. A mesma ultradireita que, inconformada, respondeu à distensão realizando 40 atentados à bomba entre janeiro de 1980 e abril de 1981. A mesma patota que planejou explodir o centro de convenções do Riocentro, no Rio, matando centenas de pessoas, o que só não aconteceu porque uma das bombas foi detonada por acidente, matando um dos autores.  

Afinal, é inegável a fascinação por bombas da parte de Bolsonaro. Em 1987, pretendendo pressionar o alto comando do exército por maior reajuste salarial, projetou detonar dinamites na Vila Militar, na Academia das Agulhas Negras e na adutora do Guandu, que abastece o Rio. Foi o que revelou Veja. A revista ainda publicou um croqui da sabotagem na adutora que teria sido rabiscado pelo próprio capitão. 

Bolsonaro e os demais militares envolvidos no que chamaram “Operação Beco sem Saída” falaram em off  mas a repórter, Cássia Rodrigues, diante da gravidade do fato, nada ocultou na matéria. Ele reagiu. Documento do Centro de Informações do Exército (CIE), de 27 de julho de 1990, intitulado Informação 394, revela a fúria do oficial desmascarado. Segundo a jornalista, o capitão a ameaçou de morte em 27 de dezembro de 1987, instantes antes da repórter depor como testemunha perante o Conselho de Justificação do Exército. 

Assim quando alguém pensar na sintonia do candidato com o período 1964-1985 é bom perceber qual face da tirania melhor consegue refleti-lo. Certamente, não será a do investimento em infraestrutura, a agenda desenvolvimentista ou a política externa independente. Olhe para Ustra e você verá Bolsonaro.

*Ayrton Centeno é jornalista. Trabalhou, entre outros, em veículos como Estadão, Veja, Jornal da Tarde e Agência Estado. Documentarista da questão da terra, autor de livros, entre os quais "Os Vencedores" (Geração Editorial, 2014) e “O Pais da Suruba” (Libretos, 2017).

Edição: Daniela Stefano