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A eleição está bichada

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"O candidato acovardado que refuga o debate monta uma fantástica fábrica de notícias falsas no whatsapp" / Reprodução
Caso Bolsonaro venha a ganhar, será calcado nos pilares da mentira e da trapaça

A campanha presidencial de 2018 já era a mais estapafúrdia do Brasil nos últimos 70 anos. Começou marcada pela degradação institucional promovida pelo consórcio Mídia & Judiciário, o que incluiu a condenação sem provas e a transformação em preso político do líder absoluto de todas as pesquisas eleitorais.

Deixou o caminho livre para o tipo mais desqualificado que já disputou a presidência da república com chances reais de vitória. Um paladino da tortura e do assassinato. Com ele veio um turbilhão de brutalidade nunca visto, com direito a banalização do espancamento e até assassinato de todo aquele que tem outra opção eleitoral. Ou tem outra cor, outra origem, outro gênero, outra opção sexual.

Seria o bastante para qualquer democrata olhar o cenário com horror. Mas havia mais. O candidato acovardado que refuga o debate – outro fato inédito na disputa eleitoral – negando ao eleitor a avaliação do produto avariado que ele sabe ser, monta uma fantástica fábrica de notícias falsas no whatsapp.  

Descobre-se, agora, que são fake news impulsionadas por milhões de reais bancados por dezenas de empresas, o que caracteriza a existência de caixa 2. É o crime eleitoral 2x1: notícias falsas mais doação por debaixo dos panos. E com dinheiro, segundo a denúncia, que viria até do exterior. Em país profissional geraria imediata cassação da candidatura do PSL.

Jair Bolsonaro é um disparate, somente possível por conta da destruição midiática diária e implacável da atividade política, convertida em quase malfeitoria nos últimos anos. Com a terra arrasada, é um personagem de anedota que assume o centro do palco, que não é levado a sério nem por seus pares. Sua produção legislativa é testemunha disso. Em 27 anos em Brasília, aprovou dois projetos. Ou seja, gastou 4.927 dias para aprovar cada um deles.  Mais interessante ainda se considerarmos que – como embolsa R$ 33 mil mensais – cada um desses projetos custou R$ 5.346.000,00 ao contribuinte. É a soma de 13 anos e meio de, digamos, “trabalho”.  Assim fica mais fácil entender a votação que recebeu ao concorrer à presidência da Câmara em 2017: apenas quatro votos.

O eleitor sabe agora que, além de medroso, despreparado e desafeto da verdade, o candidato que se apresenta como incorruptível, pratica exatamente a mesma coisa – ou talvez pior – que aponta nos seus adversários. Hipocrisia é o nome disso.

Haja o que houver, a eleição está definitivamente bichada. Corrompeu-se pelos métodos do bolsonarismo. A putrefação está no âmago da sua candidatura e estende seus efeitos por todo o processo.  Caso venha a ganhar, ganhará calcado nos pilares da mentira e da trapaça. Será a mais grotesca figura jamais chegada ao poder no continente no século 21.  Viverá sob contestação dentro ou fora do país, sendo objeto de chacota ou espanto, rebaixando o Brasil ao nível das nações mais dignas de piedade no planeta.

Difícil acreditar que o TSE ou o STF – ambos cevados na complacência ou na conivência – lancetem o abcesso e travem a candidatura que apodrece, apodrece o processo eleitoral e apodrecerá uma eventual presidência. Mais provável é que se deixem apodrecer juntos. E não haverá mais nada a fazer senão observar a chegada dos insetos e dos vermes em busca de comida. O tempo dirá. 

* Ayrton Centento é jornalista. Trabalhou, entre outros, em veículos como Estadão, Veja, Jornal da Tarde e Agência Estado. Documentarista da questão da terra, autor de livros, entre os quais "Os Vencedores" (Geração Editorial, 2014) e “O Pais da Suruba” (Libretos, 2017).

Edição: Daniela Stefano