Coluna

Recado para quem quer ver o sangue correr

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"Foi a classe média que, após 1968, forneceu a maior parte dos cadáveres. Com o AI-5 desatou-se a perseguição à militância estudantil" / Reprodução
Aqueles que pedem violência podem se tornar as vítimas daquilo que querem

São dias esquisitos estes que atravessamos. Por exemplo, o maior contingente de eleitores de Bolsonaro reside na faixa acima de 10 salários mínimos e com instrução universitária. Brancos e cristãos, provavelmente, e  com bom patamar de qualidade de vida. São médicos, economistas, advogados, engenheiros. Com tal escolaridade, deveriam perceber que estão segurando um fio desencapado. Mas continuam segurando e gritando que todos devem também segurar e que quem não segurar que vá pra Cuba…

Segmentos mais alucinados da mesma faixa social querem armas a rodo que tornarão cada discussão banal de trânsito em prenúncio de tragédia e cada cidade em faroeste em que todos atirarão em todos. É o ovo chocado na campanha já com vítimas nas calçadas e milhares de ameaças nas redes sociais, engatilhadas para se tornarem reais e fatais. Há sede de sangue. 

Dias desses soube de uma psiquiatra que babou barbaridades bolsonaristas no Facebook. Uma antiga colega de escola, ainda do tempo de meninas, horrorizou-se. E ponderou, educadamente, em sentido contrário. A reação foi uma tempestade. Uma terceira ex-colega de ambas tomou as dores da ofendida e retrucou. A resposta foi ainda pior, incluindo  algo como “…e tu não te metes que eu sei que tu vivias fumando maconha no colégio…” Falou uma psiquiatra, senhores e senhoras!  

Informada do assassinato a facadas de Moa do Katendê, em Salvador, por um bolsonarista, uma advogada não acreditou. “É  fake news”, interpretou. Disseram-lhe que era notícia em todos os jornais do Brasil e muitos do mundo. “Pra mim é uma fake news”, permaneceu inarredável, afivelada à sua verdade particular. São casos que se multiplicam, como um contágio.

Não é a primeira vez que a classe média – ou sua fração mais conservadora – embarca nessa canoa furada movida a medo, delírio e ressentimento. Em 1964, com menor fúria mas igual determinação, pediu a ditadura nas Marchas da Família com Deus pela Liberdade. Em 2013 e 2016, clamou de novo pelo golpe, desfilando nas ruas com seus tênis, óculos escuros e abrigos de grife, seus poodles no colo e seus labradores na coleira, exibindo seu saudosismo da tirania. Agora, navegando seu auto-engano, joga suas fichas no abismo.     

É interessante notar que foi a classe média que, após 1968, forneceu a maior parte dos cadáveres. Com o AI-5 e o fim de todas as liberdades, desatou-se a perseguição à militância estudantil. Caçados, os jovens contestadores caíram na clandestinidade e buscaram refúgio nas organizações de luta armada. Muitos encontraram a tortura, a agonia e a morte nos porões.  

O caso de Sônia Moraes é exemplar. Filha de coronel do Exército, a adolescente Sônia foi levada pelo pai e a mãe à versão carioca da marcha da família que queria liberdade mas pedia ditadura. Era 1964 e os Moraes festejavam a queda do governo legal e legítimo de João Goulart.

O tempo correu, o regime arreganhou seus dentes e Sônia sumiu. Juntara-se à luta armada. Capturada, teve os seios arrancados e foi chacinada até a morte. Desesperado, o pai procuraria durante anos pela filha. Um dia recebeu um presente sem sentido, enviado pelo seu desafeto, o general Adyr Fiúza de Castro, comandante do DOI-Codi, no Rio. Era um cassetete. Descobriria depois que aquilo representava uma advertência e um escárnio. Com aquele cassetete, sua filha, Sônia Maria de Moraes Angel Jones, fora estuprada antes de morrer em suplício.

Logo, é bom saber que aqueles que pedem violência podem se tornar as vítimas daquilo que querem. E quem quer ver correr o sangue, pode acabar vendo correr o sangue de um irmão, um pai, uma filha. 

*Ayrton Centeno é jornalista. Trabalhou, entre outros, em veículos como Estadão, Veja, Jornal da Tarde e Agência Estado. Documentarista da questão da terra, autor de livros, entre os quais "Os Vencedores" (Geração Editorial, 2014) e “O Pais da Suruba” (Libretos, 2017).

Edição: Daniela Stefano