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O voto que vem para matar

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Integrantes do PSL, partido de Bolsonaro, imitam o gesto característico do candidato / Foto: montagem sobre foto de Mauro Pimentel / AFP
O eleitor que sufragar o candidato do PSL deve ter clareza do que está fazendo

Sempre se diz que o voto é uma arma. Mas é de outras armas que trato aqui. Das armas muitas cujo gatilho pode ser seu voto. Sim, o seu mesmo. De você que está cogitando votar em Bolsonaro ou em anular ou ainda optar pela abstenção ou o voto branco. Dá no mesmo. Seu voto continua sendo gatilho. Explico melhor: ao pressionar o 17 na urna eletrônica, você empodera um candidato que prega o ódio. Que manifesta desprezo por pobres, negros, mulheres, índios, imigrantes, nordestinos, democratas, esquerdistas, quilombolas e a população LGBT. Explicitamente. Sem margem para qualquer dúvida. Ele, por sua vez, autoriza implicitamente suas matilhas e seus solitários violentos a providenciarem as tragédias.

É, como definiu um psicanalista, o “discurso do diabo”. Aquela voz perturbada, exalando fúria e rancor, que parece estar atrás das três vidas perdidas para as facas nas ruas de Salvador, Aracaju e São Paulo após o primeiro turno. Ou do canivete que riscou uma suástica na pele de uma menina em Porto Alegre. É de tantos espancamentos e ameaças de morte, reais ou virtuais. 

O eleitor que sufragar o candidato do PSL deve saber claramente o que está fazendo. Não há hipótese de ignorar em quem está votando. Não pode alegar que não sabia. Sabe, sim. Há dezenas de intervenções furiosas e doentias do seu escolhido na internet. Não são fake news. São a perfeita expressão do que pensa e deseja e planeja o candidato.  E, como se precisasse, periodicamente ele produz outros chocantes atestados de auto-incriminação. Seu horror à democracia, sua ânsia de vingança, sua mente perturbada, sua crueldade orgulhosamente exposta.

Assim, quando souber que um nordestino foi linchado em São Paulo saiba que uma das porradas terá vindo do seu voto. Algo dele estará naquela cena de sangue. Quando tomar conhecimento do  travesti esfaqueado, entenda que seu voto soprou suavemente aquela ordem nos ouvidos dos matadores. Quando pessoas morrerem no incêndio criminoso de algum sindicato ou sede de partido perceba que seu voto foi o fósforo.

Quando os jagunços dos fazendeiros fizerem cuspir suas espingardas de cano serrado contra alguma aldeia indígena e sacrificarem crianças nos confins do Brasil, fique ciente, desde já, que seu voto cavalgou na garupa dos assassinos.  Quando uma menina rejeitar o assédio e acabar espancada, estuprada e morta, saiba que seu voto esteve lá e o representou na contemplação daquela agonia.

Não há a menor inocência num voto em Bolsonaro. Nenhuma. É um voto-faca, voto-pedra, voto-soco, voto-porrete, voto-bala. Não vem para construir. Vem para devastar. É um voto com licença para matar. É um voto sem volta. É um voto sem perdão.

Edição: Diego Sartorato