Coluna

Um bando de covardes

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Ao contrário da imprensa nacional, veículos internacionais trataram Bolsonaro como ameaça / Foto: Jornal The Economist, do Reino Unido
Para mídia comercial brasileira, a única saída da esquerda é se tornar direita

Não há nada mais vergonhoso que o comportamento da imprensa brasileira dita “profissional” depois da vitória do candidato da extrema-direita nas eleições presidenciais. Lamentado em todas as línguas e latitudes, considerado a consagração do mais radical retrocesso democrático do Ocidente (e olha que não são poucos…), o resultado das urnas foi tratado pela mídia comercial com a mesma naturalização com que cobriram a campanha. Até nomear a filiação ideológica explícita parecia ferir os manuais de redação.

A imprensa empresarial cumpriu o roteiro. O fascismo foi descartado por razões teóricas chinfrins, o autoritarismo interpretado como uma excentricidade personalista e os apelos antidemocráticos tomados apenas como excessos compreensíveis da disputa. A pior cobertura jornalística de todos os tempos confirmou o papel de protagonista da imprensa hegemônica.  Sua trajetória antipopular foi da aliança com setores conservadores do empresariado e do judiciário, ajudou a compor a atmosfera de criminalização dos movimentos populares, subsidiou o impeachment e celebrou a prisão de Lula e o impedimento de sua candidatura.

Na hora de colher seus ganhos, no entanto, esbarrou com o monstro que ajudou a cevar, embora não tenha sido sua opção de origem. Ruim em noticiar o presente, se mostrou incapaz em acertar no futuro. Com a eleição de Bolsonaro, procura agora redistribuir seus peões no tabuleiro dos interesses. Ao mesmo tempo em que mostra uma falsa indignação com relação aos ataques à liberdade de imprensa, se torna submissa à pauta do novo governo, dois meses antes de sua posse. Desta forma, com covardia vergonhosa, leva adiante a onda de desinformação. É só acompanhar as notícias.

A fusão das pastas da Agricultura e Meio Ambiente é tratada pelo foco da redução de ministérios, contenção de gastos e racionalidade administrativa. Poucas palavras, quase sempre como lamentação de derrotados, sobre o ataque ao desenvolvimento sustentável, derrubada de matas para expansão do agronegócio e fim da demarcação de terras indígenas. Sem falar na consequência em relação ao cumprimento de protocolos internacionais sobre o clima.

O avanço sobre as universidades, em ações violentas e coordenadas, é reduzido à ação de uma parlamentar obtusa, não do programa explícito de esvaziamento da crítica no campo da educação, engrossamento da onda de patrulhamento ideológico e ações violentas com seguidos recados racistas e homofóbicos. Até mesmo o TSE entrou de sola na campanha da escola sem partido, cassando a liberdade de cátedra e fazendo bico como fiscal de posturas, arrancando faixas às vésperas da eleição.

O apetite do setor militar para abiscoitar metade das vagas da equipe de transição é tomado como uma pura regra matemática, não como a recomposição do autoritarismo da tropa mais reacionária das forças armadas. A quantidade de militares, entre anunciados e ventilados, para os mais diferentes ministérios, faria inveja à ditadura militar. Nenhuma comparação, zero de esforço de compreensão histórica, ausência total de reflexão sobre o papel constitucional das forças armadas.

E tem mais no clipping da vergonha. O anúncio de que a primeira medida do governo será a tentativa de armar a população soa apenas como promessa de campanha, e não como porta de entrada da barbárie. Somada a outra bandeira anunciada, que reduz o controle sobre ações das polícias, está dado todo o plano para a segurança pública. Para quem deve sua eleição em parte a esse tema, parece muito pouco. Algum veículo da mídia comercial debateu seriamente a questão, a partir do plano de governo do capitão reformado, antes ou depois do resultado das urnas?

A cerimônia de bênção proferida pelo pastor-senador derrotado Magno Malta, que antecedeu a indigente leitura do discurso da vitória, foi tratada com naturalidade que passou por cima do seu caráter ilegítimo. Fez-se da unção religiosa particular a justificação de um processo que deveria ser republicano. Deus não preservou a vida do candidato para que ele governasse o país. Até seu nome do meio, Messias, é um registro cartorial, não salvacionista. No limite, foi um desrespeito à liberdade de crença e ao caráter laico do Estado. Que fizesse sua prece em casa, como fez sua campanha. Se não expôs suas ideias, que guardasse seus rituais apelativos.

A “imprensa profissional”, no entanto, além de não fazer seu trabalho, parece estar preocupada em fazer o serviço dos outros.

Em primeiro lugar decidiu, tão logo os resultados foram divulgados, dar lição de civilidade ao candidato Fernando Haddad. Arrogou a si o papel de cerimonial. Cobrou que ele ligasse para o vencedor, que fizesse gestos de pacificação, que desejasse um bom governo, que reconhecesse a derrota de forma humilde. Queriam, de maneira inequívoca, que a derrota, nos termos em que se deu, se tornasse humilhação. Sabiamente, o candidato não cumpriu esse protocolo de vergonha. Depois de negar encontros cara a cara em debates aos quais fugiu “estrategicamente”, ameaçar o adversário com cadeia, dizer que não aceitaria outro resultado que não a vitória, Bolsonaro não merecia a cordialidade que nunca exerceu. A recusa das formalidades foi uma forma justificada de denúncia. O conteúdo é mais importante que a forma.

A segunda ação da mídia comercial além de suas obrigações foi mudar seu comportamento, que em alguns momentos tentou ser firme, sobretudo em sabatinas e entrevistas, para uma submissão vexaminosa. Como se o respeito ao outro fosse devido apenas em razão do lugar ocupado. Legítima afirmação do “sabe com quem está falando?”, as entrevistas pós-resultados foram marcadas por uma fraqueza de caráter e falta de independência que parecia pavimentar a relação de subserviência (inclusive financeira), que deve nortear a relação entre mídia e poder a partir de janeiro.

A terceira extrapolação da mídia em relação ao trabalho que não fez, tem sido sua incontida vontade de ensinar à esquerda como ela deve agir. Sugerem autocrítica, deduragem, humilhações diversas. Dão de barato o diagnóstico de sua derrocada final e deixam como alternativa apenas posturas de imolação e holocausto. Apostam na divisão, sugerem traições, cobram comportamentos que contradizem os próprios fundamentos da esquerda na economia, na política e nos costumes. Para a imprensa familiar, a única saída da esquerda é se tornar direita.

A imprensa pode ficar com suas convenções, submissões e ignorância política. A esquerda não precisa dessas lições fracas. A tarefa dada é enfrentar o novo estágio da luta de classes, com as armas da resistência, da coragem, da inteligência e da solidariedade. Sem soltar as mãos. A força popular brasileira já está em luta permanente em defesa da democracia, da liberdade e da justiça social. A imprensa burguesa nunca esteve deste lado. Mas também não precisava se mostrar tão covarde.

Edição: Joana Tavares