Coluna

A história por trás de Luiz Gama, lutador contra o Brasil escravocrata

Imagem de perfil do Colunista
15 de Novembro de 2018 às 20:00

Ouça o áudio:

Busto de Luiz Gama, no Largo do Arouche, em São Paulo (SP) / Divulgação
Tornou-se advogado, dedicando-se a libertar escravos

Hoje vou falar aqui de um grande lutador contra o escravismo no Brasil, a quem a história oficial não dá muita importância.

Luiz Gama nasceu em Salvador, em 1830, filho de uma negra livre, Luíza Mahin, e de um fidalgo de origem portuguesa.

Sua mãe participou de todas as revoltas negras de Salvador no início do século XIX. 

Em 1837, depois da tentativa de proclamar a “República Bahiense”, na revolta conhecida como Sabinada, por ter sido liderada pelo médico Francisco Sabino Vieira, ela teve que fugir para não ser presa e provavelmente morta. 

Deixou o filho com o pai e foi para o Rio de Janeiro.

Alguns anos depois, o pai se revelou um canalha: vendeu como escravo o filho que havia completado 10 anos de idade, para pagar dívidas de jogo.

Levado para o estado de São Paulo pelo traficante de escravos, ele não foi comprado por ninguém, pois quando sabiam que era baiano os senhores de escravos paulistas temiam que – mesmo sendo um menino – ele induzisse outros escravos a se rebelarem, porque na Bahia houve muitas revoltas contra a escravidão.

Tinham medo que negros baianos “contaminassem” os outros, com suas ideias libertárias. Assim ficou sendo escravo do próprio traficante.

:: Confira também "Obra de Luiz Gama revela a luta por um Brasil sem reis ou escravos" ::

Luiz Gama aprendeu a ler e escrever com um estudante de Campinas que, em São Paulo, se hospedou na casa onde era um escravinho que fazia de tudo.

Mais tarde, conseguiu provar na Justiça que era um homem livre, não podia ser escravizado.

Depois leu a biblioteca jurídica inteira de um desembargador com quem foi trabalhar, tornou-se um grande conhecedor das leis e tornou-se rábula, quer dizer, advogado não formado, que na época podia exercer a profissão, dedicando-se a libertar escravos.

Foi também poeta e jornalista, sempre militando contra o escravismo.

Conseguiu libertar mais de 500 escravos, e no fim da vida estava se convencendo de que precisava usar outras formas de luta, além das leis, para combater o escravismo. 

Morreu seis anos antes da Lei Áurea, de 13 de maio de 1888. Mas com certeza seu espírito combina mais com outra data: 20 de novembro, data da morte de Zumbi dos Palmares. 

Termino lembrando de uma fala dele que provocou um grande rebuliço durante o julgamento de um escravo que matou o senhor que o maltratava muito. 

Assim disse Luiz Gama: “O escravo que mata o senhor, seja em que circunstância for, mata, sempre, em legítima defesa”. 

 

Edição: Mayara Paixão