COMUNICAÇÃO

Mídias alternativas unidas pela democracia

Em Porto Alegre, atuação conjunta reuniu 16 veículos de comunicação alternativa em 13 horas de transmissão

Brasil de Fato (RS)

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Na véspera do segundo turno das eleições, foram realizadas e transmitidas 12 mesas de debate / Foto: Fabiana Reinholz

E se tivéssemos mais de dois braços? Essa questão aparentemente sem sentido aparece em diversas culturas ao longo da história. De deuses do Oriente, como Shiva, a mitos do Ocidente, como os Hecatônquiros, a representação de personagens como donos de muitos braços e mãos está, em geral, ligada ao aumento das capacidades, das habilidades e da força. E se um mesmo corpo tivesse várias vozes, falando a mesma coisa para pessoas diferentes? Foi essa ideia que moveu 16 mídias alternativas de Porto Alegre a se reunirem e atuarem juntas em defesa da democracia.

Mídias alternativas são meios de comunicação que defendem a democratização da sociedade. Não estão ligados a grandes grupos econômicos, são independentes do Estado, vinculam-se aos movimentos e às lutas do povo e apontam, em seus textos, áudios ou imagens, para a construção de um outro mundo possível e necessário, que responda às necessidades dos trabalhadores. 

No Brasil, a história dessas mídias nos leva ao início do século XIX, com jornais que informavam a população sobre as lutas dos negros contra a escravidão e pelos direitos dos escravizados já libertos. Essa história passou, depois, pelo movimento operário, reivindicando direitos para os trabalhadores assalariados. Passou, também, pelo combate à ditadura militar, quando se destacaram jornais como O Pasquim e o Movimento. Após a redemocratização, crescem as rádios comunitárias, outro formato em que atuam as mídias alternativas. Mais recentemente, a internet torna-se espaço importante para que essas mídias se fortaleçam como blogs, sites ou através de perfis em redes sociais online.

Unidade histórica em transmissão de 13h

Em toda essa história de duzentos anos não há muitos casos de atuação conjunta dessas mídias. Cada uma se aproxima de movimentos, de lutas, mas há pouca parceria entre elas. Em Porto Alegre, no dia 27 de outubro, foi diferente. Meios de comunicação alternativos dos mais diversos perfis estiveram lado a lado para uma transmissão conjunta, em rede, durante 13 horas, em suas páginas no Facebook. Foram 16 as mídias que construíram essa ação, denominada “Mídias alternativas pela democracia”: Agência Livre para Informação, Cidadania e Educação (Alice), Amigos da Terra Brasil, Anú – Laboratório de Jornalismo Social, Boca de Rua, Brasil de Fato RS, Coletivo Catarse, Comunicação Kuery, Esquerda Online, Jornal JÁ, Jornalismo B, Manifesto POA, Mídia Ninja, Nonada – Jornalismo Travessia, Rádio Comunitária A Voz do Morro, Rede Soberania e TV Nação Preta.

Não por acaso, a transmissão aconteceu na véspera do segundo turno das eleições presidenciais, no qual despontava uma ameaça à democracia e aos direitos dos trabalhadores representada pelo candidato Jair Bolsonaro (PSL), que acabou eleito. O objetivo era debater o Brasil, nosso passado, nosso presente e os futuros possíveis. E também aproximar as mídias, os movimentos e as pessoas que lutam todos os dias por um país mais democrático.

Ao longo de todo o dia 27, das 9h às 22h, foram realizadas e transmitidas por todas essas mídias alternativas doze mesas de debate. Passaram por essas mesas 42 convidados, tratando de temas como direitos humanos, cultura popular, movimentos identitários, conjuntura política, direitos dos trabalhadores, entre outros. Durante as transmissões, sete dos mais importantes cartunistas do estado também estiveram presentes, produzindo desenhos relacionados aos temas em debate. Um total de doze apresentadores, integrantes das mídias participantes, comandaram as mesas, apoiados por cerca de 30 produtores e equipe técnica que se revezaram ao longo do dia. No total, juntando todas as páginas das mídias que construíram a transmissão, chegou-se a mais de cem mil visualizações dos vídeos. Uma importante reunião de forças, braços e vozes, ousando debater o país em um momento em que alguns querem impor o silêncio. Forças, braços e vozes coletivos que serão ainda mais necessários no próximo período.


Este conteúdo foi originalmente publicado na versão impressa (Edição 7) do Brasil de Fato RS. Confira a edição completa.

Edição: Marcelo Ferreira