SAÚDE

“Quem vai sofrer é a população mais pobre”, diz tutor do Mais Médicos em Pernambuco

Em entrevista, Aristóteles Cardona explica os mitos que envolviam o programa e fala do futuro da saúde no Brasil

Brasil de Fato | Petrolina

,

Ouça o áudio:

Acompanhando o programa desde 2013, o médico faz um balanço do impacto da saúde dos profissionais cubanos do estado / PH Reinaux

Aristóteles Cardona é formado em medicina pela Universidade Federal de Pernambuco, integrante da Rede de Médicos Populares e tutor do Programa Mais Médicos desde 2013. Em entrevista ao Brasil de Fato Pernambuco, o médico explica os três pilares do programa criado no governo Dilma e aponta perspectivas para a saúde pública a partir de 2019.

Brasil de Fato: Como realmente funciona o programa mais médicos?

Aristóteles Cardona: O Mais Médicos, pra resumir um pouco, ele surge com três componentes: o primeiro é exatamente esse mais emergencial, que é levar profissionais para as áreas onde estivessem faltando médicos. O segundo foram vários investimentos feitos nas estruturas das unidades de saúde, e é muito perceptível, aqui na realidade do sertão pernambucano, muitas cidades em que as unidades foram reformadas ou construídas e os profissionais que ali fossem trabalhar teriam condição de atender bem aquela população que necessitasse, e o terceiro componente é o da formação de profissionais. O projeto era não só formar mais profissionais no Brasil, mas formar melhor, com estímulo, por exemplo a formação de médicos e médicas em Medicina de Família e Comunidade, que é uma especialidade voltada ao trabalho na Unidade de Saúde da Família, voltada para o trabalho nas comunidades. Então esses três componentes juntos formavam o que a gente passou a chamar de Mais Médicos.



BdF: Qual o impacto do programa no estado de Pernambuco, considerando as cidades atendidas, e os indicadores sociais?

Aristóteles: Temos um impacto gigante só para se ter uma ideia até o mês que vem vamos acompanhar saída de 414 médicos e médicas cubanas em todo o estado. Hoje a gente são 14 profissionais médicos que trabalham em Distritos Sanitários Especiais Indígenas, que são as áreas indígenas do estado onde estão os Fulni-ô, Pankararu, Truká, e desses 14 médicos, 13 são cubanos e estão indo embora. Se a gente fizer uma conta rápida, já que um profissional médico faz atendimento no mês de cerca de 350 pessoas, estamos falando de cerca de 140 a 150 mil consultas todos os meses que deixam de ser feitas no estado. 



BdF: Existem muitos mitos em torno do Mais Médicos. Quais são as mentiras contadas sobre o programa? 

Aristóteles: O Programa Mais Médicos sofreu muitos ataques de quem se posicionava contrariamente e com os mesmos métodos que a gente veio conhecer mais nesse período eleitoral com o que se convencionou a chamar de fake news e com histórias inventadas. Desde aquele momento no início do programa, quando diziam que não eram médicos que estavam vindo, mas eram guerrilheiros de Cuba que estavam sendo enviados para cá, o que é um absurdo pensar dessa maneira. Diziam que o curso de medicina lá não formava médicos e que não viriam médicos, mas técnicos em saúde, que o curso de medicina lá não tem a duração do curso de medicina no Brasil e tudo isso desde o início a gente sabia que era mentira porque a gente sabia o currículo e a formação dos profissionais de Cuba e não à toa, exatamente por isso, que Cuba foi escolhida, por ser um centro de excelência de formação de profissionais de saúde, particularmente no caso, de médicos e médicas que compreenderiam a realidade do nosso país e assim nós vimos nos últimos anos a atuação deles. E recentemente foram muitas as mentiras inventadas, como essa de que não poderiam trazer a família. Negativo. Isso estava previsto inclusive na legislação que eles poderiam acompanhar. Diziam que eles não poderiam voltar para Cuba, o que também é uma mentira, porque todos os anos todos os médicos e médicas tinha direito a férias, inclusive pagas pelo programa para irem e voltarem, então não passam de mitos. Outra que foi muito falada foi a do regime de escravidão. Não tem absolutamente nada, estamos falando de um programa que utilizou um modelo que não foi inventado agora, um modelo que a OPAS trabalha em vários outros países, Cuba tem trabalhos de cooperação como esse em vários países e dentro desse processo tem o valor do salário que fica para eles, mas por exemplo, quando um médico sai de Cuba e vem passar um tempo aqui, a família desse médico segue recebendo o salário que ele recebia lá. Outra coisa, esses médicos e médicas se cadastram voluntariamente para fazer missão, eles não são obrigados, obviamente.



BdF: Aqui em Pernambuco, especialmente no Sertão, quem é a população que está sendo impactada com a saída dos médicos cubanos?

Aristóteles: A população que historicamente sofre por falta de acesso à saúde, por não ter médico ou médica no posto de saúde da comunidade, do bairro e muitas vezes postos de saúde que não estão tão perto da comunidade, principalmente em áreas rurais, onde comunidades terminam sendo muito distantes umas das outras. 

 

Edição: Monyse Ravenna