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Como recolocar na ordem do dia alternativas comunitárias e valores de coletividade?

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Como recolocar na ordem do dia as alternativas comunitárias, os valores de coletividade e a necessidade da construção de um projeto popular? / Divulgação MST
Esta eleição escancara uma conjuntura de grandes e profundos desafios

Aqui estamos nós, quase um mês depois do resultado das eleições presidenciais, buscando compreender como foi possível tal desfecho. Muitas conversas feitas na campanha de segundo turno ainda reverberam, sobretudo no formato de indagações. Como exemplo, uma conversa na feira de Jaboatão dos Guararapes, região metropolitana do Recife, em que à medida que trazíamos as propostas do candidato petista no que se referia à saúde, educação, geração de emprego, políticas sociais, insistia a frase “sou evangélico, não acho certo matar mas não quero que meu filho seja gay”. Esse tipo de diálogo percorreu norte e sul desse país nos últimos dias de campanha, infindáveis foram os relatos. 

Evidente que este tipo de argumento, somado ao discurso de ódio e casos de violência ocorridos durante a campanha exemplificam o fato de estarmos entre os primeiros países do mundo nos crimes de LGTfobia. No entanto, me pergunto que outros fenômenos teriam possibilitado o cenário em que grande parte do nosso povo tenha eleito como determinante do seu voto a negação de um suposto kit gay?

Outros elementos que expressam o quanto contraditória foram estas eleições poderia ser observado no fato que mesmo a maioria das mulheres mais jovens terem votado no candidato Haddad, muitas mulheres não o fizeram. Significando que um candidato que faz apologia ao estupro, com inúmeras acusações de agressões, que afirma publicamente ser favorável às desigualdades entre mulheres e homens, tenha sido mais aceitável do que “obrigar as pessoas a virarem gays”. Contradições entre os sujeitos políticos que vivem as opressões mas que não necessariamente se colocaram a interromper a reprodução das desigualdades sociais. Da mesma forma, foi comum encontrar adolescentes nas periferias que passavam de bicicleta ou moto gritando “Bolsonaro vai botar pra fuder”, jovens negros que certamente estarão na mira do gatilho. 

Um dado que chama a atenção nas pesquisas de intenção de voto se referiu ao expressivo número de pessoas que afirmava ser contrário a organizações partidárias ou qualquer tipo de organização coletiva. Um cenário de fragilidade da organização da classe trabalhadora e, portanto da consciência de sua situação de classe tornou possível que milhões de brasileiros tenham votado em um projeto que implementará a retirada de direitos sociais e trabalhistas, piorando as suas condições concretas de vida.

Ao que nos parece, esta eleição escancara uma conjuntura de grandes e profundos desafios. Como alcançar a parcela da população que mesmo ignorando o porquê, elegeu como motivo central para o seu voto, temas como combate à corrupção, antipetismo e o reforço da lbgtfobia? Como dialogar com as pessoas marginalizadas e miseráveis que encontraram no discurso religioso a sua saída individual? Como recolocar na ordem do dia as alternativas comunitárias, os valores de coletividade e a necessidade da construção de um projeto popular para o Brasil?

Edição: Monyse Ravena