Coluna

Minha família é a humanidade

Imagem de perfil do Colunista
"Partidários da entronização da família no lugar supremo da sociedade pregam valores particulares, de modelos de família muito específicos" / Mídia NINJA
Papai e mamãe são, na escola sem partido, proprietários da consciência do filho

Família não é um conceito único e menos ainda as famílias são todas iguais. Como escreveu o romancista russo Liev Tolstói na abertura de “Anna Kariênina”: “Todas as famílias felizes se parecem, cada família infeliz é infeliz à sua maneira”. Para não dar vez à ignorância é bom explicar: o romance foi escrito entre 1873 e 1877. É russo, não soviético.

Em outras palavras, em matéria de família, a regra é a diversidade. Por isso defender os chamados “valores familiares” nada mais é que uma forma de autoengano. Na verdade, os partidários da entronização da família no lugar supremo da sociedade pregam valores particulares, de modelos de família muito específicos. Quase sempre conservadores, tradicionais, quando não regressivos e autoritários.

Nunca se falou tanto de família na República como agora. Num contexto em que pega bem acabar com ministérios, sobretudo aqueles ligados aos direitos, chega-se a falar de boca cheia em Ministério da Família. Sugerindo, é claro, seu comando por evangélicos convocados nas hostes neopentecostais. Ministério no sentido teológico, algo bem próprio da teocracia que ronda a vida brasileira.

Por trás dessa ideia, como vem sendo mostrado de forma intensiva pelo governo eleito, está a chamada pauta dos costumes. Mas que não ficam estacionadas apenas na faixa do comportamento, com repercussões perigosas que vão da política externa à política educacional. A divisão do governo em czares (da economia, justiça e caserna) deixou para o presidente eleito o comando do playground dos valores.

A mesma divisão parece contemplar grande parte dos eleitores. Para eles, o que interessa é a economia, a corrupção do sistema político e a segurança pública. Para isso têm Guedes, Moro e generais a mancheias. Aceitam, embora por vezes com certo constrangimento ilustrado, as bizarrices do mandatário supremo e de seus rebentos, como contrapeso do filé neoliberal, antissistema e autoritário.

Um dos grandes equívocos de um governo ainda não empossado, mas com capacidade aparentemente infinita de gerar crises, está no projeto da escola sem partido. Sem entrar em detalhes desse monstrengo anti-intelectual e na contramão da liberdade, destaca-se a declaração do presidente eleito sobre educação sexual. Com uma candura que parece psicologicamente perversa - em razão de sua forma de expressão habitualmente grosseira -, o capitão afirma que sexo é questão para “o papai e a mamãe”.

Há muitos riscos nessa postura. Em primeiro lugar a desmontagem de conquistas pedagógicas no campo da educação sexual, que contribuíram para diminuir a incidência de doenças, educar para sexualidade saudável e formar jovens mais autônomos. Em segundo lugar, pode trazer de volta preconceitos e atitudes violentas que vinham sendo reduzidas com informação, inclusão e respeito às diferenças, em um ambiente preparado para o debate. Sem falar no estímulo ao tabu, com sua já conhecida carga repressiva, decorrente da limitação do debate sobre o tema apenas ao recesso familiar.

O mesmo projeto registra outras formas de manifestação incisiva e não democrática dos pais na condução do processo escolar, dando à família a exclusividade e juízo inquestionável no tratamento de temas referentes a valores morais e religiosos. Papai e mamãe são, na letra da escola sem partido, proprietários das consciências de seus filhos. Uma espécie de neoliberalismo no campo da moral, fundado no direito à propriedade. Meu filho, minhas regras.

Já que a defesa da família entrou em cena de forma avassaladora, é importante resgatar o debate sobre a verdadeira face da família na sociedade contemporânea. Há um processo de permanente de discussão em torno do tema, seja no âmbito da psicologia, da política, do direito e da moral. Por isso a família não pode ser um tema apropriado apenas pela direita, como se fosse seu território exclusivo.

O avanço na compreensão da dinâmica familiar aponta para valores que são universais, como a busca da igualdade e o respeito à diferença, que são suporte de uma visão de mundo humanista e civilizador. O que vale para uma família deve valer para todas.

O sentido do conceito de fraternidade, evocado pela Revolução Francesa, não é apenas um complemento do par igualdade e liberdade, mais explicitamente político, mas a condição de possibilidade desses dois universos.

Não há vida pública digna sem liberdade e igualdade. Vem daí as grandes correntes ideológicas, com a direita se identificando mais com a liberdade e a igualdade sustentando principalmente os projetos da esquerda. Mas, no limite, não há vida humana sem fraternidade. Sem a liberdade há o arbítrio, sem a igualdade a injustiça, sem a fraternidade a barbárie.

Por isso a família é hoje uma estrutura tão importante e precisa ser repensada em sua dimensão política, muito além do moralismo que tumultua o cenário. Ela não retira as pessoas do mundo para o egoísmo de projetos pessoais, das convicções morais inquestionáveis e dos muros reais e imaginários que separam as pessoas em castas. É preciso conceber a família como algo que liga as pessoas ao mundo, e não o contrário. 

A defesa da família com viés conservador perde o que ela tem de melhor: a capacidade de ver o outro como irmão.

Edição: Joana Tavares