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Memórias do AI-5

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24 de Dezembro de 2018 às 09:28

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O Crusp era, com a Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP, um dos principais focos de resistência à ditadura / Marcos Santos/USP Imagens
Muita gente achava que no Crusp só morava gente de esquerda, mas não era assim

Há 50 anos, eu morava no Crusp (Conjunto Residencial da USP) e na noite de 13 de dezembro fui ao centro de convivência do conjunto ver o noticiário da televisão. O ministro da Justiça da ditadura era Gama e Silva, e havia a notícia de que ele anunciaria notícias muito ruins naquela noite. E foi pior do que se podia esperar.

Estava começando ali a fase mais brava da ditadura. Com a edição do Ato Institucional número 5, anunciada por ele, a polícia podia prender quem quisesse, sem motivo, invadir residências e fazer o que bem entendesse. Os direitos dos brasileiros foram para o beleléu. Começou um tempo de violência e medo.

O Crusp era, com a Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP, um dos principais focos de resistência à ditadura, e sabíamos que viria coisa braba pra cima da gente. E veio mesmo.

Quatro dias depois, na madrugada do dia 17, o conjunto todo foi cercado por milhares de soldados com tanques de guerra e outros veículos militares. Fomos todos presos, levados para o Presídio Tiradentes. 

Mas antes de nos levarem fizeram revistas em todos os apartamentos, procurando material que consideravam subversivo. Entre os livros apreendidos como perigosos, estava um de um estudante de engenharia… O livro, com capa vermelha, publicado em espanhol pelo departamento de línguas estrangeiras da Universidade de Moscou, chamava-se “Bombas Hidráulicas”. Não adiantou o dono tentar explicar que bomba hidráulica não tinha nada a ver com terrorismo. 

Muita gente achava que no Crusp só morava gente de esquerda, mas não era bem assim. Tinha gente de direita também, até grupos direitistas organizados.

Num desses grupos, tinha um japonês que veio para o Brasil na barriga da mãe, de navio. Esse navio fez uma escala no Vietnã, no final dos anos 1940, e lá nasceu o menino, que para continuar a viagem teve que ser registrado naquele país, que em 1968, estava em guerra contra os Estados Unidos. 

Aqui, ele era um daqueles direitistas radicais, que gostava de armas, e tinha uma coleção de punhais. Esses punhais todos estavam enfeitando uma parede do apartamento em que morava. Quando os militares chegaram ao apartamento dele, viram aquele monte de punhais, pensaram que só podia ser um terrorista. Viram os documentos dele e aparecia como vietnamita. Pronto! Ferrou!

Foi preso como esquerdista perigoso e levou o maior cacete. Sobrou pra ele o que ele queria para os outros.

Edição: Júlia Rohden