Coluna

Arma de fogo e o crime da flor

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23 de Janeiro de 2019 às 07:00

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"Fui lá na barbearia, peguei um revólver 38, coloquei seis balas nele, enfiei debaixo do paletó e fui segurando pelo cano" / Pixabay
O jardineiro tinha um ciúme danado do jardim, não podia nem pisar na grama

Esse negócio da liberação da posse de armas me fez lembrar de uma historinha do meu tempo de infância, na década de 1950. Era uma época em que era comum encontrar pessoas que tinham armas de fogo em casa, inclusive na minha casa. Meu pai, que era barbeiro, não tinha renda suficiente na barbearia para alimentar dez filhos, então ele negociava algumas coisas. Entre essas coisas, negociava relógios e revólveres.

Aliás, tinha uma brincadeira que faziam com ele: os vizinhos diziam que ele comprava revólveres de qualquer marca e que vendia só Schmidt, que era muito mais caro, ou seja, diziam que ele falsificava tudo. E relógio, comprava relógio de bolso de qualquer marca, mas só vendia o Omega Ferradura, que trocava o visor também. Mas isso era só uma história…

Só que com isso, as gavetas da barbearia tinham muitas armas de fogo e eu, com cinco anos, era habituado a ver aquilo lá. Era um perigo, porque a gente não tem a mínima noção das coisas. E eu sabia até manusear um pouco, eu via ali, ajudava até meu pai de vez em quando a fazer cartucho para espingarda.

Uma vez, quando eu estava com cinco anos de idade, minha irmã, que tinha sete anos, apanhou uma flor no jardim em frente. O jardineiro tinha um ciúme danado do jardim, não podia nem pisar na grama, imagina apanhar uma flor. Ele veio até meu pai e fez a maior onda, falando que minha irmã tinha cometido um crime de ter apanhado uma flor no jardim dele.

Meu pai chamou minha irmã e falou para ela "Amelinha, você não pode apanhar flor aqui no jardim. Você não pode nem pisar na grama, então não faz mais isso". O jardineiro, que era muito chato, começou a pentelhar e falou "mas o senhor não vai bater nela?" e meu pai respondeu "não, bater nela por quê?", e ele seguiu "você tem que educar ela para não apanhar mais flor". Meu pai falou "mas eu não vou bater nela por causa disso, já falei que ela não pode".

O jardineiro continuou enchendo o saco dele e meu pai, que era todo pacífico, perdeu a paciência e deu um murro no pé do ouvido do jardineiro. Aí, começou aquela coisa de ameaça de briga, chegou a turma do "deixa disso", cercou meu pai para não deixar ele brigar com o jardineiro e eu lá, naquele frio, com paletó de brim, quietinho, e falei "ih, meu pai tá brigando ali".

Fui lá na barbearia, peguei um revólver 38, coloquei seis balas nele, enfiei debaixo do paletó e fui segurando pelo cano. Cheguei naquele grupo e o pessoal ainda estava tentando acalmar meu pai. A hora que me viram, falaram "deixa o filho dele entrar na roda aqui, quem sabe ele se acalma".

Fui segurando o revólver por baixo do paletó, segurando logo pelo cano. Quando cheguei bem pertinho dele, abri o paletó, pulei e entreguei o revólver para ele, já no jeito de atirar. Falei "toma, pai".

Olha… nunca vi tanto homem correndo atrás de mim. 

Edição: Júlia Rohden