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Tucano em ninho de tico-tico

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A cada dia fica mais claro que Zema não tem experiência e não confia no funcionalismo que cabe a ele liderar / Foto: ALMG
O Novo esperava fazer de MG sua vitrine. Está conseguindo: sem projeto e equipe

O governador de Minas, Romeu Zema (Novo), se elegeu prometendo recrutamento de colaboradores no mercado da meritocracia, banimento da velha política de sua gestão e rigor no uso de recursos públicos, sobretudo em símbolos como uso de aviões e palácios. Em menos de um mês, renegou todas essas promessas e, o que é pior, ainda não disse a que veio.

Quem gosta de aves conhece a história do chupim, passarinho esperto que coloca seus ovos no ninho do tico-tico, que os choca e depois alimenta os filhotes do aproveitador. E tem mais: como os ovos do chupim eclodem antes e os filhotes são maiores e piam mais alto, os jovens tico-ticos muitas vezes não chegam a vingar no ninho dos pais por muito tempo.

Em Minas, o Partido Novo se tornou um ninho de tico-tico. Em vez de chupins ou azulões, os aproveitadores são os tucanos. O senador Anastasia perdeu a eleição, mas seu partido está assumindo o poder pelas beiradas. Os principais cargos da máquina estão nas mãos do PSDB. Parece que o governador eleito acusou o golpe de seu adversário, que durante a campanha dizia que o Novo não entendia de administração pública.  

Romeu Zema escolheu vários e diferentes tucanos para chamar de seus. A começar por Custódio Mattos, ex-prefeito de Juiz de Fora, que assumiu a secretaria de Governo e foi alçado a principal negociador do governo junto aos prefeitos, já que navega sozinho num grupo de assessores crus em política. Na saúde, um dos setores que lida com o maior volume de recursos, Wagner Eduardo Ferreira, subsecretário de Anastasia, foi promovido a titular de Zema.

No Planejamento, ninguém menos que Renata Vilhena, que ficou conhecida como condutora do projeto marqueteiro do choque de gestão (depois escancarado em sua fraude), se tornou consultora do inexpressivo secretário Otto Alexandre Levy Reis. Ela não é apenas consultada, como se supõe pelo nome do cargo, mas está mandando prender e soltar. A ponto de nomear três antigas assessoras - Kênnya Kreppel, Renata Coelho e Marilene Bretas - para cargos estratégicos da pasta.

E tem mais tucano no ninho do tico-tico de Araxá: o governador indicou o deputado Luiz Humberto Carneiro para líder na Assembleia Legislativa, cargo que o parlamentar do PSDB ocupou na gestão de Anastasia e Alberto Pinto Coelho. Ou seja, os tucanos comandam a articulação política no Executivo e no Legislativo, além de terem em mãos o comando de pastas fundamentais da máquina pública e o projeto de reforma administrativa.

Romeu Zema também não cumpriu a promessa de entregar o Palácio das Mangabeiras à população, na forma de um museu, e muito menos deixou de usar o avião oficial, que serviu de condução para o encontro em Brasília com o presidente Bolsonaro. Zema deixou claro que não sabe o que é um museu, sua função e custo de manutenção. Falou bobagem a vai arrastar essa corrente no palácio da ignorância e do populismo.

Sobre a diminuição dos cargos de confiança, o governador teve todo o tempo da transição para avaliar a correção de suas avaliações em termos da necessidade real de cortes, mas preferiu deixar a máquina emperrada em várias áreas a fazer o trabalho responsável de manter os serviços funcionando. A cada dia apresenta um novo percentual de diminuição de cargos, voltando atrás em exonerações, sem dar direcionamento a seu projeto.

Cadê as propostas?

O mais grave, no entanto, tem sido a incapacidade do governo em apresentar com clareza uma proposta para o estado. Nada foi dito até agora sobre o programa de educação, saúde, segurança, habitação, transporte, cultura, desenvolvimento, meio ambiente, direitos humanos e outras áreas que dão a cara de um governo recém-eleito.

O governador do Novo parece ter sido eleito contra a própria vontade – ou no susto –  e por isso foge do debate substantivo das políticas públicas para se prender à administração da caderneta de ter e haver. Ele tem a obsessão das contas. Não governa um estado complexo com o desafio de pensar grande, mas uma loja de miudezas ameaçada de insolvência.

A cada dia fica mais claro que Zema não tem projeto, não tem equipe, não tem experiência e não confia no funcionalismo que cabe a ele liderar. Está isolado nacionalmente e não tem interlocutores. Sua maior ambição é colocar as contas em dia e renegociar dívidas. Feito isso, vai descobrir que é governador, não contador. Nessa hora, ao que tudo indica, vai bater um arrependimento ou pânico.

A entrega maciça da máquina aos tucanos é um sinal do vazio sobre o qual a administração de Romeu Zema se apoia. O Novo esperava fazer da gestão de Minas Gerais sua vitrine. Já está conseguindo: sem experiência e projeto, sem equipe e apoio popular, sem base social e consistência programática, o partido inicia no estado uma jornada em direção à mediocridade.

Edição: Joana Tavares