Coluna

Trabalho na chácara

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São Luiz do Paraitinga, pequena cidade no interior de São Paulo, é o cenário da coluna desta semana / Ken Chu / Fotos Públicas
Não combinava com ele isso de ter um empregado. Virou patrão? Eu brincava.

Fiquei sabendo que temos ouvintes em São Luiz do Paraitinga, cidade pequena e agradável, localizada no Vale do Paraíba, estado de São Paulo. Tenho muitos amigos lá, e um deles é o Américo, que foi meu colega de faculdade. Estudamos Geografia na Universidade de São Paulo (USP). 

Há muitos e muitos anos fiquei sabendo que ele morava lá, numa chácara que parecia um oásis, toda arborizada, num lugar onde quase todas as matas deram lugar para cafezais nos tempos do Império, e depois as terras esgotadas, viraram pastagens. Fui reencontrar meu amigo, e depois virei freguês. Ia lá sempre que podia. 

Ele era professor no colégio e dedicava um bom tempo para fazer os trabalhos necessários na chácara. Nessa primeira vez que fui lá, era período de férias escolares, tinha o dia todo para se dedicar à chácara. Mas havia muito trabalho a fazer, e foi preciso contratar um rapaz para trabalhar com ele.

Quando fiquei sabendo, gozei bastante. Não combinava com ele isso de ter um empregado. Virou patrão? Eu brincava.

Comprovei que tinha mesmo muita coisa para manter a chácara toda bonita. Só que ele não planejava o que devia fazer pelos métodos tradicionais. Escreveu num monte de papeizinhos cada trabalho a ser feito e colocou todos, dobrados, dentro de um vidrão enorme, de boca larga. Era um montão de papel, cada um com uma tarefa.

Quando o empregado chegava, de manhã, eles sorteavam o que iriam fazer naquele dia. Sentavam-se à mesa, tomavam café e cerimoniosamente tiravam um papelzinho. O que estava escrito nele era o que deviam fazer o dia inteiro.

O problema era que para cada papelzinho com uma função de trabalho, como consertar a cerca, cuidar das orquídeas, capinar tal área, plantar as mudas de caqui, limpar o caminho… Havia um escrito “tomar vinho”. Então, estatisticamente, tinham chance de ficar tomando vinho direto, dia sim, dia não.

Vi no meio dos papeizinhos um todo ensebado, sinal de que tinha sido bastante manuseado. Peguei e vi que nele estava escrito “consertar a janela”. Questionei o Américo e ele me contou que achava que aquele trabalho seria muito chato. Então, cada vez que tiravam aquele papelzinho, resolviam deixar aquilo para outro dia, devolviam para o vidro e tiravam outro. Às vezes vinha um daqueles recomendando “tomar vinho”.

Desse jeito, eu até que gostaria de ser empregado dele.

Edição: Júlia Rohden