Coluna

Oportunismo à paulistana

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13 de Fevereiro de 2019 às 07:00

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A "moringa" ou "bilha" é um recipiente para guardar água de origem indígena e africana, feita a partir da modelagem do barro. / Pixabay
Sem atravessador, o produtor lucra um pouco mais e o comprador paga menos

Uma das coisas que gosto muito na prática de agricultores de assentamentos conquistados pelos Sem-Terra é a ideia de vender diretamente para os consumidores. Sem atravessador, o produtor lucra um pouco mais e o comprador paga menos. 

Há muitos anos, fui fazer um trabalho na zona rural de São José do Rio Pardo, município de São Paulo, grande produtor de cebola. Era uma época de crise de desabastecimento em São Paulo e o quilo de cebola estava a 5 cruzeiros, um preço alto para a época. Conversando com os produtores, soube que eles recebiam 5 cruzeiros por um saco de 20 quilos de cebola. 

Pois é, eles que produziam, trabalhavam, corriam risco de perdas, vendiam um saco de cebola pelo preço que o consumidor pagava por um quilo. O lucro era dos atravessadores.

Alguns anos depois, fui fazer uma pesquisa sobre cultura popular no Vale do Jequitinhonha, em Minas Gerais, e vi umas moringas com formato de mulher. A “tampa” da moringa era uma cabeça de mulher. Um trabalho maravilhoso, e demorado.

Gastava-se um dia inteiro para fazer uma moringa daquelas, pois precisavam pegar barros de cores diferentes em vários locais e na hora de queimar, dias depois, às vezes uma moringa rachava e o trabalho de um dia era perdido. 

Perguntei o preço e me disseram que era 17 cruzeiros. Era muito pouco. Fiquei com dor de consciência por pagar tão pouco por um trabalho tão difícil e bem feito. Mas, pensei: se eu aumentar muito, elas podem querer vender pelo mesmo preço ao pessoal da região, que ganha pouco, e eles não vão poder comprar.

Propus: “Olha, gente. Eu estou aqui a trabalho para uma instituição de São Paulo que é muito rica. Então queria propor um preço diferente, mas com o compromisso de vocês manterem o preço de 17 cruzeiros por moringa pro pessoal daqui. Pago 25 cada uma e levo todas, tudo bem?”

Elas ficaram pasmas. E contaram: “Um homem de São Paulo, que tem uma loja, quando vem aqui comprar, diz que vai vender por 20 cruzeiros lá e que às vezes uma moringa quebra na viagem e ele tem prejuízo. Pede desconto. Acaba pagando 13 ou 14 cruzeiros por moringa”.

Peguei o nome dele, soube que tinha uma loja de decoração em São Paulo e fui lá conferir. Cobrava de 180 a 220 cruzeiros por moringa! Fiquei furioso: explorar a burguesia paulistana, tudo bem. Mas sacanear as mulheres que produziam para ele ter lucro, era demais. Voltei ao Vale do Jequitinhonha e contei tudo para as mulheres.

Edição: Júlia Rohden