Coluna

Exigimos o direito de sonhar

Imagem de perfil do Colunista
11 de Março de 2019 às 10:07
Equipe do Instituto Tricontinental de Pesquisa Social reunida na Escola Nacional Florestan Fernandes (ENFF) / Instituto Tricontinental de Pesquisa Social
Para nós, o presente é inaceitável. Nós exigimos o futuro.

Nos dois primeiros dias de março, nossa equipe se reuniu nas proximidades de São Paulo (Brasil) na Escola Nacional Florestan Fernandes, do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST). Foi a primeira reunião de toda a nossa equipe, exatamente um ano desde que nosso site foi ao ar. Foi uma reunião mágica, nossos pesquisadores trabalharam duro e discutiram o trabalho que estão fazendo e a agenda que queremos elaborar nos próximos anos.

No final da reunião, um dos coordenadores nacionais do MST, Neuri Rossetto, agradeceu à equipe. Uma das tendências de qualquer organização de pesquisa, mas especialmente uma que esteja ligada a movimentos que lutam por transformação, é ser atraída para as minúcias dos assuntos cotidianos, nos advertiu Neuri. Informações e análises sobre questões prementes – seja sobre paraísos fiscais ou acordos de armas, redes de eletricidade ou políticas de sanções – são urgentemente necessárias. Não há dúvida de que tais questões imediatas devem ser abordadas, uma vez que muitos movimentos simplesmente não têm a capacidade de encontrar informações básicas ou de fazer uma análise rápida de alguns desses problemas. Porém, é necessário mais que isso, acrescentou Neuri. “Temos de sonhar com um futuro socialista. Não pare de sonhar”, ele disse. É tarefa dos intelectuais orgânicos ajudar a sonhar com esse mundo, para ampliar os sonhos de nossos movimentos populares. Estamos sempre dizendo não, mas temos o dever político de dizer sim, sonhar e construir o mundo em que queremos viver.

Protesto contra a OMC em Seattle, 1999 (Seattle Municipal Archives)

O que significa sonhar? Nos dizem com frequência que a utopia socialista está nas ruínas da URSS. Ainda se diz que o socialismo é um sistema falido, já que a URSS só pôde durar setenta anos. Na década de 1990, tornou-se um clichê bradar a vitória do capitalismo de livre mercado e da democracia burguesa. “A história terminou”, escreveu Francis Fukayuma, funcionário do Departamento de Estado dos EUA e intelectual hegeliano. Tratamos desse contexto em nosso mais recente dossiê, O Novo Intelectual, um manual sobre os princípios de nosso trabalho. Nenhuma outra opção é possível, nos disseram. Aceitem a realidade.

Mas a realidade se recusou a ser obediente. Antes mesmo da dissolução da URSS, uma série de sinais políticos indicava que haveria novas lutas contra a nova ordem. Os “tumultos do FMI” que começaram na década de 1970 – o primeiro em Lima (Peru) em 1976 – abalaram o establishment. Esses levantes se intensificariam até a década de 1980, havendo um particularmente perigoso na Indonésia em 1985. Tom Clausen, do Bank of America, assumiu o Banco Mundial de 1981 a 1986, no auge desses motins contra o FMI. Ele reconheceu a importância deles. “Quando as pessoas estão desesperadas, você tem revoluções”, disse Clausen. “É do nosso próprio interesse que elas não se vejam forçadas a isso. É preciso manter o paciente vivo, caso contrário, você não pode efetuar a cura”. Não havia indicação de que a política de empobrecimento e saque devesse mudar; só que o volume do roubo não deveria motivar inquietações. Austeridade e saque andam de mãos dadas.

“Um outro mundo é possível”

“Não pare de sonhar”. Em 2001, como resultado do movimento alter-globalização, foi realizado o Fórum Social Mundial em Porto Alegre (Brasil). Esse fórum adotou a frase “Outro Mundo é Possível” como seu slogan. Foi um grito na escuridão, um gesto que dizia que o que temos é simplesmente inaceitável. Olhando para trás, agora, o slogan é tímido, uma ilustração do grave sentimento de que o pensamento utópico havia sido quase abolido.

Depois veio a crise financeira ou de crédito de 2007-2008, que revelou a podridão do sistema – as grandes desigualdades de riqueza e poder, a maneira profundamente cínica pela qual a conta da crise foi imposta aos mais pobres por meio de políticas de austeridade crescentes, enquanto os mais ricos, que sobrecarregam o sistema, foram efetivamente socorridos com fundos públicos. Nos Estados Unidos, os bancos foram salvos, enquanto as pessoas comuns ficaram desabrigadas. Havia um pensamento utópico aqui, mas a utopia que impulsionou essa política veio de Ayn Rand e não de Karl Marx. Isso provocou uma nova onda de rebeliões – do sul da Europa (Grécia, Itália, Espanha) aos Estados Unidos (Ocuppy).

Michael Wolf, Tokyo Compression, 2012

Na ausência de uma robusta utopia da esquerda – que se chama socialismo – há desorientação. O cinismo e a toxicidade muitas vezes tomam conta da insatisfação e quebram as aspirações das populações traídas e as empurram para os braços da extrema-direita. O ódio à imigração e à diferença torna-se um antídoto contra a perda de empregos e a falta de moradia. “Não pare de sonhar”, como disse Neuri, não é um gesto sentimental, mas um ato de necessidade política. A utopia da esquerda precisa ser construída, o pensamento de que um futuro socialista é necessário e prático.

Quando Neuri disse essas palavras, pensei no grande poeta comunista espanhol Fernando Macarro Castillo, conhecido como Marcos Ana (1920-2016). Marcos Ana passou vinte e três anos nas prisões do ditador espanhol Franco. Dizem que ele é o republicano mais antigo nas prisões de Franco. Enquanto estava detido, Marcos Ana escreveu um lindo e esperançoso poema. Em seu livro Decidime cómo es un árbol, está Minha casa e meu coração que é sobre uma casa que não deveria ter chave,  uma porta sempre aberta, uma visão de uma utopia que deve existir.

Minha casa e meu coração

(Sonho de liberdade)

Se saio um dia para vida

Minha casa não terá chaves:

Sempre aberta, como o mar,

O sol e o ar.

Que entrem a noite e o dia,

E a chuva azul, a tarde,

O pão vermelho da aurora;

A lua, minha doce amante.

Que a amizade não se detenha

Seus passos em minha porta,

Nem a andorinha seu voo,

Nem o amor seus lábios. Ninguém.

Minha casa e meu coração

Nunca fechados: que passem

os pássaros, os amigos

O sol e o ar.

Entre. Esse é o mundo em que queremos viver, um mundo de convivência e sensibilidade, um mundo onde o melhor de cada um de nós melhora a todos nós. Exigimos o direito de sonhar com esse mundo, com um futuro socialista que transcenda o presente da desigualdade social, da destruição da natureza, da toxicidade das interações humanas que acompanha o grande desejo por mercadorias inatingíveis.

E assim, em nosso encontro, nossa equipe sublinhou seus três mais importantes princípios:

Kazimir Malevich, Vitória sobre o sol (cenografia) 1913

Ampliar e divulgar a visão de mundo da classe trabalhadora. Raramente ouvimos falar da abordagem intelectual que surge dos movimentos que se propõem a mudar o mundo. Quando os líderes de movimentos são abordados é usado frequentemente uma frase de efeito sobre as questões atuais. Não ouvimos o que esses movimentos pensam sobre o mundo ou o que eles desejam produzir. Seu conteúdo intelectual é reduzido a poucas palavras. Uma de nossas aspirações é dar voz ao pensamento crítico dos movimentos por meio de longas entrevistas com seus líderes e militantes.

 

Abdoulaye Diarrassouba, Untitled, 2014

Estimular um debate sobre como sair da duradoura crise da humanidade. Ninguém acha que aqueles que controlam o mundo hoje têm todas as respostas para nossas crises em cascata. Há poucas respostas entre os líderes políticos dos países, confusos com as rápidas mudanças no mundo e com sua própria lealdade ao mundo dos ricos. Há menos respostas ainda vindas desse mundo, confortável demais para se acreditar que os problemas são de fato reais. Estamos ansiosos por estimular um debate sobre os problemas que estão diante de nós – debates que não devem aceitar o status quo como permanente.

Krishen Khanna, Notícia da morte de Gandhi, 1948

Construir pontes entre as instituições acadêmicas e os movimentos, bem como entre os nossos continentes. Um abismo se abriu entre o modo como as agendas de pesquisa acadêmica são definidas e o que os movimentos precisam. O conhecimento de tipo básico – muitas vezes escondido atrás de jargões e conteúdos pagos – não está facilmente acessível para os movimentos, e a amplitude intelectual destes não aparecem em seminários. Gostaríamos de ajudar a construir pontes sobre esse abismo, e propiciar o diálogo entre o conhecimento acadêmico e o pensamento criativo dos movimentos. E, como se isso já não fosse difícil o suficiente, gostaríamos de ajudar a unir os mundos intelectuais do sul global.

Maria Bonita era uma sonhadora, uma das nossas ancestrais.

Acima de tudo, gostaríamos de exigir o direito a sonhar. Para nós, o presente é inaceitável. Nós exigimos o futuro.

Edição: Luiza Mançano