Protestos

Ano de muitos protestos, crise política e ataque a direitos

Em 2018, o número de manifestações em Curitiba e na Região Metropolitana foi mais que o dobro de ano anterior

Paraná

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Ato "Ele Não" no centro de Curitiba à época das eleições / Frédi Vasconcelos

Com um total de 166 protestos, 2018 foi um ano marcado por muitas disputas políticas, tensão social, dualidades e intolerância. O Observatório de Conflitos Urbanos de Curitiba (grupo de pesquisa da UTFPR e UFPR) registrou mês a mês os atos que aconteceram na capital e na Região Metropolitana e, neste artigo, faz um balanço dessas manifestações.

Analisando os objetos de conflito catalogados, observou-se que 84% deles se concentraram em sete categorias: Estado, Governo e Democracia (32%); Trabalhos e Direitos Trabalhistas (12%); Infraestrutura Viária, Transportes, Trânsito e Circulação (11%); Saúde (8%); Segurança, Educação e Gênero, Raça, Etnia e Diversidade (7% cada). 

Os números revelam diferença do que foi observado no ano anterior, em que 68% dos conflitos se concentraram em quatro categorias, com destaque para Gênero, Raça, Etnia e Diversidade (23%) e Trabalho e Direitos Trabalhistas (23%). 

Analisando a distribuição dos protestos, percebe-se uma repetição ao longo do ano de manifestações que envolvem a categoria “Trabalho e Direitos Trabalhistas”, “Estado e Democracia” e concentração na categoria de “infraestrutura e transportes” nos meses de abril e maio. O último se deve praticamente ao resultado da greve dos caminheiros e o primeiro à “corrida eleitoral” e a episódios constantes de destituição de direitos e acesso aos serviços públicos.

O slogan “Sem os Caminhoneiros o Brasil Para” traduz o que aconteceu no final do mês de maio. A política da Petrobras de seguir a variação internacional do preço do petróleo fez subir o preço do barril, gerando paralisação de transportadoras e caminhoneiros autônomos de grandes proporções. As pautas foram bem diversificadas: preço do pedágio; más condições de trabalho do caminhoneiro; impostos incidentes sobre o combustível; redução do lucro das transportadoras.

Como resultado, grande paralisação, provocando crises de desabastecimento em todo o país. A greve denunciou o cotidiano de exploração enfrentado pelos trabalhadores. O movimento acabou sendo articulado também por grandes transportadoras com interesses também patronais, de cortar impostos sobre o combustível.

A greve dos caminhoneiros, que durou dez dias, provocou falta de combustível, afetando a operação de postos, circulação de ônibus, distribuição de alimentos, com consequências para todos. As instituições de ensino foram obrigadas a suspender parte de seu calendário letivo. Em Curitiba e região, foram contabilizados oito pontos de bloqueio nas principais rodovias de acesso. Apesar das opiniões variarem bastante, a greve teve forte apoio da população.

Em nível local, os protestos ocorridos no ano apontam a precarização dos direitos e serviços públicos além de tentativas de terceirização. Houve ameaças da Prefeitura de Curitiba de fechar sete unidades do Centro de Referência à Assistência Social (CRAS), sendo elas as unidades do Sambaqui (na Fazendinha), do Arroio, do Jardim Gabineto (na CIC), da Vila Hauer, do Butiatuvinha e Portão, além da tentativa de fechamento da UPA Pinheirinho e terceirização da UPA CIC. A crise do trabalho e emprego tem aparecido com a greve dos servidores públicos do estado, funcionários da Cohab e a ameaça de extinguir a função dos cobradores de ônibus por meio da bilhetagem eletrônica no sistema de transporte. 

Na categoria “Gênero, Raça, Etnia e Diversidade” aconteceram também muitos protestos. Foram principalmente atos públicos como a marcha contra o aborto, ato contra intolerância religiosa, vigília contra LGBTfobia e outras marchas locais e nacionais. Nesta categoria, destaca-se a vigília em solidariedade aos familiares e amigos da vereadora Marielle Franco (PSOL-RJ) e do motorista Anderson Gomes, vítimas de uma execução política no Rio de Janeiro. A mobilização reivindicou o fim da violência contra a mulher e a população negra. 

Do total de conflitos em 2018, 54 (32%) relacionaram-se com a crise política-eleitoral no país. As eleições contaram com novas estratégias de comunicação, por vezes obscuras, como o jogo das fake news e a comunicação rápida por WhatsApp. Pesquisas futuras precisam analisar os efeitos desse tipo de comunicação e interação com a sociedade.

87% dos protestos da categoria “Estado, Governo e Democracia” possuem alguma relação com a prisão de Lula. Em Curitiba, 64% dos protestos catalogados foram pró-Lula e, 36%, contra Lula. Para os que querem manter Lula preso, isso representa combate à corrupção. Por outro lado, seus defensores apontam irregularidades jurídicas, num processo baseado em delações premiadas.

A chegada do ex-presidente a Curitiba, no dia 7 de abril, foi marcada por violência. A Polícia Federal jogou bombas, disparou tiros de borracha e causou grande tumulto ao atacar os manifestantes pró-Lula. Estilhaços das bombas atingiram pessoas que foram levadas a hospitais. Do outro lado, manifestantes contra o ex-presidente estouravam rojões sem serem molestados.

Segundo as notícias de protestos, as ações pró-Lula envolveram: (i) Caravana pelo Brasil em defesa da liberdade de Lula, percorrendo os Estados de Maranhão, Piauí, Ceará, Rio Grande do Norte, Paraíba, Pernambuco, Sergipe, Alagoas, Bahia, Minas Gerais, Espírito Santo, Rio de Janeiro, Paraná, Santa Catarina, Rio Grande do Sul; (ii) Caminhada na Rua XV de novembro e comício antes mesmo da prisão; (iii) Criação da Casa da Democracia, que abrigou jornalistas do mundo todo vinculados às mídias alternativas; (iv) Acampamento Marisa Letícia no Santa Cândida (que sofreu ataques por no mínimo 3 vezes); (v) Vigília Lula Livre, recebendo lideranças nacionais e internacionais como Danny Glover, Adolfo Pérez Esquivel, Celso Amorim, Monja Coen, Pai Caetano, Stédile, Ivo Queiróz, Aleida Guevara, Carol Proner, Leonardo Boff e outros que vieram visitar Lula.

No período eleitoral, as dualidades reapareceram no pleito com uma divisão entre os manifestantes pró e contra o candidato Bolsonaro. Criado no Facebook, o grupo "Mulheres Unidas contra Bolsonaro" realizou protestos em pelo menos 60 cidades. O maior ato foi o #EleNão, no final de outubro, que reuniu cerca de 30 mil pessoas em Curitiba e foi marcado pela diversidade de movimentos, de grupos evangélicos, de famílias e de coletivos culturais. Para se contrapor a esse protesto, no dia seguinte, foi feita carreata na capital paranaense a favor de Bolsonaro, do Centro Cívico até o Parque Barigui.

Os protestos catalogados nesta pesquisa, neste ano, mostram uma tendência à de luta contra a perda de direitos, incertezas em relação ao trabalho e emprego, principalmente com as terceirizações. Além disso apontam que as dualidades estiveram à flor da pele nos embates político-eleitorais. Em diferentes situações, as rivalidades apareceram nos protestos de forma muito contundente.  Os dualismos simplificam os fatos, criam apenas vilões e mocinhos e escondem a complexidade da realidade. Acrescente-se a isso a quantidade de informações disponíveis na internet e a qualidade, nem sempre confiável, que criam justificações para qualquer argumento. Entender os conflitos para além das dualidades contribui para tirar as práticas da posição de autoevidência e devolvê-las ao seu contexto. Os protestos de 2018 apontam para várias incertezas, flexibilizações, mudanças políticas, trabalhistas e sociais que estão em disputa.

 

Edição: Frédi Vasconcelos