Coluna

Matamos as coisas mais bonitas que possuímos

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18 de Março de 2019 às 12:12
O dossiê "Amazônia Brasileira: A Pobreza do Homem como resultado da Riqueza da Terra", lançado no último dia 13 / Instituto Tricontinental de Pesquisa Social
A mais linda de todas elas, a esperança

Por Vijay Prashad*

Nazim Hikmet, o poeta comunista turco, invocou a imagem de um sentinela solitário em um campo de combatentes na Guerra Civil Espanhola. Esse voluntário é surpreendido pelo horror da guerra, mas quer manter os valores sensíveis da solidariedade e da esperança.

Está nevando à noite.

Você está na frente da porta de Madrid.

Na sua frente está um exército.

Matando as coisas mais bonitas que possuímos,

Esperança, anseio, liberdade e crianças.

Hikmet escreveu esse poema em 1937. As esperanças de uma geração da esquerda foram colocadas em pessoas como esse sentinela. “Tudo o que minha alma nostálgica espera é por sorrisos nos olhos da sentinela na porta de Madri”, ele cantou. Mas então, as forças do ódio e da desesperança tomaram a Espanha. Tudo parecia chegar ao fim. Nós matamos as coisas mais bonitas do mundo.

De nossa equipe em São Paulo, Brasil, vem um dossiê informativo e sincero sobre a destruição da Amazônia. A Floresta Amazônica é um dos lugares mais bonitos do planeta. Diversa, em todos os aspectos, ela abriga um quinto da água doce do planeta e suas ricas árvores absorvem uma quantidade incrível de emissões de carbono do mundo. Tem sua morada na floresta tropical 170 comunidades indígenas diferentes.

A luta pela Amazônia não é de hoje, mas a escala de sua potencial destruição aumentou consideravelmente. Como nossa equipe escreve no dossiê, “os instrumentos dessa devastação são vários: desmatamento, extração madeireira e queima ilegal da floresta, expansão desordenada da pecuária, construção de estradas e cultivo de soja, bem como a implementação de grandes projetos mineiros e energéticos”. Os protagonistas do assassinato da Amazônia são claros: corporações capitalistas de diferentes portes e a classe política que as chancela. Na linha de frente contra a destruição estão as 170 comunidades indígenas que viveram na Amazônia nos últimos 11 mil anos.

No outro extremo do planeta, no arquipélago de Chagos, os chagossianos continuam lutando contra o governo do Reino Unido para recuperar suas sessenta ilhas roubadas há décadas. Na maior delas – Diego Garcia – fica uma base militar dos EUA. O Tribunal Internacional de Justiça pediu recentemente ao Reino Unido para devolver aos chagossianos suas ilhas, mas o Reino Unido rejeitou o veredito, considerando-o meramente “consultivo” (leia mais em minha coluna). Chagos, como a Amazônia, é o portão de Madri. A sentinela fica de guarda, mas o exército na frente é impressionante. A esperança parece ser vencida mais uma vez.

Escola Secundária Superior de Karaparamba em Kozhikode, Kerala.

O ex-presidente do Reserve Bank of India e ex-economista-chefe do FMI, Raghuram Rajan, disse esta semana: “eu acho que o capitalismo está sob séria ameaça porque deixou de permitir o sustento de muitos e, quando isso acontece, muitos se revoltam contra o capitalismo”. O problema não é que o capitalismo “deixou de permitir o sustento”, mas que está destruindo o planeta – e não apenas as esperanças das pessoas, mas também lugares como a Amazônia.

Rajan, que provavelmente se tornará o próximo chefe do Banco da Inglaterra, está certo em apontar o dedo para o fracasso do capitalismo em prover o sustento de muitos. A questão de como cuidar das pessoas está posta na mesa nas eleições indianas, que começará no próximo mês. É provável que o atual governo – liderado pela extrema-direita – não seja capaz de formar uma maioria e, portanto, continuar no poder. É improvável, entretanto, que o próximo governo da Índia produza uma política alternativa em termos de administração da natureza e criação de igualdade social.

Já no estado indiano de Kerala (população de 34 milhões), o governo da Frente Democrática da Esquerda impulsionou uma agenda para valorizar os bens públicos e priorizar o interesse da maioria. Os membros do Instituto Tricontinental de Pesquisa Social, Jipson John e Jitheesh, entrevistaram o ministro-chefe de Kerala, Pinarayi Vijayan, sobre essa alternativa. Vijayan descreveu a agenda do governo para melhorar áreas-chave como educação, saúde, criação de empregos e aposentadoria, bem como a lutas culturais na sociedade – incluindo a emancipação das mulheres e das castas oprimidas.

A imagem acima fornece um exemplo do que o governo de esquerda fez em Kerala. É uma foto da Escola Secundária Superior Karaparamba, em Kozhikode. Enquanto as escolas públicas em todo o mundo enfrentam cortes orçamentários e têm sua estrutura sucateada, as de Kerala foram renovadas. Esta escola, de 112 anos, que tinha milhares de estudantes há doze anos, teve uma queda nas matrículas, em grande parte devido à negligência em relação às escolas públicas em toda a Índia.

Karaparamba – A Transformação das Escolas Públicas em Kerala [vídeo em inglês]

Pradeep Kumar, que é um candidato para o parlamento nas próximas eleições, levou adiante um programa chamado Promovendo Escolas Regionais para Padrões Internacionais através de Intervenções Múltiplas e foi capaz de obter 120 milhões de rúpias (6,6 milhões de reais) para a Escola Secundária Superior. A escola agora tem salas de aula inteligentes, uma biblioteca, uma quadra de basquete, um novo refeitório e um novo banheiro. A unidade é alimentada por painéis solares de 30KW e a água é coletada e distribuída a partir de um sistema de captação de água da chuva. A escola – como todas as escolas públicas de Kerala – fornece gratuitamente absorventes higiênicos para as meninas, bem como um incinerador especial para descartá-los. O corpo discente – por causa dessas melhorias – aumentou para 700. Nos últimos dois anos, 235.000 estudantes mudaram-se de escolas particulares para escolas públicas em Kerala. Esse é o poder da alternativa de esquerda

Os Comunistas Indianos e as Eleições de 2019 [vídeo em inglês]

Para saber mais sobre as eleições na Índia, leia a entrevista com a líder comunista Brinda Karat em nosso dossiê nº 12.

Carlos Altamirano, Óculos de Allende, Ministério das Relações Exteriores da Venezuela

Hoje, a sentinela está nos portões de Caracas, o epicentro da “batalha do século”, como João Pedro Stedile afirmou. Parece agora que uma campanha conjunta de sabotagem está em andamento para cortar energia elétrica e abastecimento de água dentro do país. Está fora dos limites da razão suspeitar de tal sabotagem? O ativista canadense Yves Engler escreve que o governo liberal tem um projeto de lei (C-59) que busca autorizar que o Centro de Segurança de Telecomunicações (agência de inteligência governamental canadense) realizar operações ofensivas para “degradar, perturbar, influenciar, responder ou interferir com as capacidades, intenções ou atividades de atores estrangeiros”. De fato, diz Engler, “a agência de inteligência do Departamento de Defesa Nacional poderia procurar tirar um governo do Estado ou sabotar uma usina elétrica”.

No final do mês passado, passei algum tempo em Caracas, onde conheci várias pessoas – incluindo algumas da oposição (leia meu diário aqui e meu relatório aqui). Ficou claro rapidamente que essa luta dentro da Venezuela é uma luta sobre quem tem direito ao país e quais políticas devem moldar o futuro. A velha oligarquia quer voltar ao poder, como fizeram em boa parte da América Latina. Estão frustrados com o compromisso da Revolução Bolivariana com as pessoas comuns do país. Enquanto isso, essas pessoas comuns – os chavistas – se comprometem a defender a revolução até o fim. É uma situação perigosa, que se torna mais volátil por causa do comportamento incendiário dos Estados Unidos, Canadá, Colômbia e outros.

Marielle Franco, 1979-2018

As sentinelas são abundantes. Uma delas foi Marielle Franco, morta no ano passado em 14 de março. Seus assassinos, ao que tudo indica, têm uma conexão com o bloco dominante no Brasil. Outra é Füsun Üstel, uma acadêmica turca que assinou uma petição pela paz em 2016. Ela foi uma das 1128 acadêmicas julgadas por essa petição. Üstel será a primeira a ser presa por isso. Outra é Maria Ressa, jornalista e editora do The Rappler, nas Filipinas, presa sob acusação de difamação virtual por sua reportagem crítica sobre o presidente Rodrigo Duterte. Forçada a pagar fiança seis vezes em dois meses, Ressa continua sendo ameaçada pelo governo.

Marielle Franco, Füsun Üstel e Mari Ressa querem proteger as coisas mais belas ao nosso redor – a mais linda de todas elas, a esperança.

*Vijay Prashad é historiador e jornalista indiano. Diretor Geral do Instituto Tricontinental de Pesquisa Social.

Edição: Luiza Mançano