Coluna

A prisão de Temer e o clima punitivista que domina o senso comum

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22 de Março de 2019 às 11:17
Michel Temer foi preso na última quinta-feira (21) / Marcos Correa/PR
As prisões servem para pressionar o STF e tentar mantê-lo refém

Parece cada vez mais evidente que o Brasil perdeu o rumo de vez desde o impeachment da Presidenta Dilma. No meio deste alvoroço, termina que são tantos interesses em jogo que, realmente, muitas vezes não é tão fácil entender o que se passa. Falo disso porque ontem (21) tivemos algumas prisões, dentro da operação lava jato, com destaque para as de Michel Temer e Moreira Franco, seu ex-ministro. E aí, ao fim, quero me referir mesmo a uma certa comemoração por parte de algumas pessoas que demonstraram felicidade com estas prisões. Creio que há inegavelmente um certo clima punitivista que domina o senso comum em nosso país.

Estou um pouco confuso, né? Como eu disse, não é tão simples e por vezes há armadilhas no meio do caminho. Mas para facilitar o nosso entendimento, trago de volta o debate para a nossa realidade. Especificamente, para a prisão de Michel Temer. Este senhor talvez seja uma das figuras mais abjetas que pudemos acompanhar no noticiário político brasileiro na última década. Imagino que, para além das minhas percepções subjetivas, ele seja um verdadeiro canalha de fato. Porém, ter isto em mente não me permite comemorar qualquer punição sem que todos os trâmites que garantam o amplo direito de defesa sejam garantidos.

O que está acontecendo, na realidade, com todo este circo armado por juízes e procuradores, é uma tentativa de alavancarem sua popularidade apostando no punitivismo da opinião pública. As recentes prisões acontecem em um momento em que os interesses políticos da lava jato foram duramente atingidos e sofrem com uma diminuição no apoio diante da sociedade brasileira.

A lava jato e suas famosas operações transmitidas ao vivo pela televisão surgiram como uma espécie de redenção da justiça brasileira diante de uma reconhecida impunidade reinante pelas bandas de cá, porém acumulou ao longo de anos repetidas evidências de que, longe de querer combater a corrupção, há um forte e claro interesse político movimentando as peças deste xadrez. Se isso já estava explícito com a prisão política de Lula, tornou-se ainda mais escancarado com a ida de Sergio Moro para ocupar um ministério em um governo que foi eleito graças à prisão de Lula, decretada pelo próprio Sergio Moro.

De quebra, as prisões deste dia 21 de março servem para pressionar o STF e tentar mantê-lo refém lançando uma suposta opinião pública contra os membros do Supremo Tribunal Federal, como ocorreu no episódio do impeachment.

Cabe-nos, e me refiro a um campo minimamente democrático da sociedade brasileira, fazer a denúncia da grande cartada política que é toda esta encenação da lava jato e fortalecer a nossa unidade. Michel Temer é um canalha? É sim e dos piores que eu já vi. Mas defender prisões ilegítimas, como tal, apenas fortalece este mecanismo ora usado contra o Lula e que poderá ser lançado a qualquer momento contra lutadores e lutadoras do povo brasileiro. O fascismo não dá trégua, como a história já nos ensinou, e não estará satisfeito enquanto não nos roubar as flores, matarem os nossos cães, roubarem a nossa luz e arrancarem a voz de nossas gargantas.

Edição: Monyse Ravena