DESCASO

No aniversário de Curitiba, moradores do Parolin relatam condições indignas de vida

Pessoas que moram a poucos metros do centro aguardam soluções para inúmeros problemas e não têm respostas da prefeitura

Brasil de Fato | Curitiba (PR)

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Parolin é o bairro com menor índice de desenvolvimento humano de Curitiba; a menos de 1 km dali, bairro vizinho é o com maior IDH / Pretícia Jeronimo

A cidade de Curitiba completa 326 anos neste dia 29 de março. Conhecida mundialmente como cidade modelo, ela é dividida entre centro e bairros nobres e periferia. Além do Parolin, outros bairros periféricos parecem ficar escondidos propositalmente aos olhos de quem visita à cidade e também do poder público.

Poucos quilômetros separam um abismo de desigualdade entre diferentes locais, como acontece entre os Bairros Água Verde e a Vila Parolin. Apesar de serem vizinhos geograficamente, a diferença entre os dois locais é gritante: enquanto o Água Verde é bairro com maior índice de desenvolvimento humano municipal – de 0 a 1, o IDHM do local é de 0,956 –, a Vila Parolin apresenta os piores índices da cidade: o IDHM é de 0,623.

Lá a realidade é cruel: falta de asfalto, de saneamento básico, lixos por todas as ruas, falta de casas, pessoas vivendo na beira do rio em área de risco e uma enorme valeta a céu aberto. Essa situação contribui para que a expectativa de vida dos moradores seja de apenas 69 anos – 12 anos a menos que no bairro vizinho. 

Seu Ronaldo Santos, mora há 55 anos no Parolin e é uma das pessoas que não tem o que comemorar no aniversário de Curitiba. Ele conta que sempre sofreu com os alagamentos, mas o maior de todos aconteceu no dia 21 de fevereiro deste ano, quando o Rio Guaíra transbordou e atingiu as casas que estão em área de risco. O rio passa no “valetão”, como chamam os moradores a obra para escoamento da água feita pela prefeitura que está parada há mais de três anos. “No dia da enchente eu estava com a minha mãe, tirei ela a tempo. Perdi tudo, foi 1,20 m de água”, relata Ronaldo que disse ter ganhado apenas um colchão da Prefeitura e o estante doações de outras pessoas.

 

Enchente de fevereiro foi a pior já vista em 55 anos por Ronaldo Santos / foto: Pretícia Jerônimo

Após a enchente que deixou mais de 100 famílias desabrigadas e sem nada nas casas, moradores do Parolin e também da Cidade Industrial de Curitiba (CIC) fizeram protestos, com bloqueios de ruas, para pedir providências da prefeitura. 

Cohab não cumpre

As casas ao redor do rio estão em área de risco. Segundo relato dos moradores, a Cohab sabe, porém mesmo que no projeto de habitação esteja previsto que as famílias sejam retiradas para um novo terreno, isso não aconteceu. “Este é um projeto que aguardamos há mais de três anos. Eu moro aqui desde que nasci. E até agora a Cohab não cumpriu a construção das moradias e os moradores que tiveram que acabar as construções”, conta Jessica Luana. “Quando a Prefeitura vem aqui, nunca nos dão resposta”, diz Jessica. 

 

Obras iniciadas pela prefeitura criaram uma barreira para escoamento da água; construção está paradas há três anos / foto: Pretícia Jerônimo

Cristiane Ribeiro que mora há 27 anos no Parolin e chegou a perder sua casa que estava em área de risco, devido a um desmoronamento de terra. “A uma da manhã tive que sair correndo, tirar meus filhos. Mesmo a Cohab sabendo, não fizeram nada. Levei para o Ministério Público para conseguir um novo terreno e nós que construímos a nova casa. Antes eu tinha oito cômodos, agora só um”, conta. 

“Eu avisava para Prefeitura que a terra ia desabar em cima da casa. Caiu e foi perda total. Fui ao Ministério Público e consegui novo terreno. Se fosse pela Prefeitura, eu estaria morando embaixo da terra".

 Cristiane Ribeiro mostra os restos de sua casa, após desabamento. Apesar de ter avisado a prefeitura do risco eminente, nada foi feito. / foto: Pretícia Jerônimo

Edição: Franciele Petry