Coluna

Médico nunca tira férias

Imagem de perfil do Colunista
24 de Abril de 2019 às 15:40

Ouça o áudio:

Foi com a família para um povoado a beira-mar, no município de Ubatuba. / Pixabay
Se dissesse que sou médico, ia passar as férias trabalhando

Um médico carioca estava cansado, precisava de umas férias distante de tudo. Pediu dicas a uns amigos, indicaram cidades praianas de Santa Catarina, da Bahia, Pernambuco, Ceará…

Um deles falou de uma viagem que gostou muito. Foi de avião até Manaus, passou uns dias lá, fez muitos passeios, comprou bugigangas na Zona Franca, foi ao teatro Amazonas, e seguiu de barco para Belém. Só a viagem de barco durou vários dias, apreciando a imensidão do rio Amazonas, parando em pequenas cidades. E chegando a Belém, que cidade gostosa, com comidas diferentes, o Museu Goeldi, o mercado do Ver-o-Peso, ótimas praias de água doce ali perto… 

Acabou preferindo a sugestão do Jacaré, que é também meu amigo. Não precisava pegar avião nem nada, ia de carro em poucas horas. Foi com a família para um povoado a beira-mar, no município de Ubatuba.

O Jacaré, que conhecia todo mundo lá, arrumou até uma casa bem gostosa alugada por um preço de amigo. Tinha um alpendre espaçoso, com espaço para redes, terreno grande, frutas no quintal…. Sossego total. Quando faltava uma semana para terminar as férias, o Jacaré apareceu lá e percebeu logo de cara que o médico amigo fazia o maior sucesso. Os filhos tinham conta nos botecos e nas barracas de praia, ele mesmo tinha conta em restaurantes e no armazém, na padaria… tudo para pagar na véspera da família voltar para o Rio de Janeiro.

Pensou logo que devia ser reconhecimento por alguma coisa que o amigo podia ter feito lá, como médico. Mas num boteco, o dono falou para ele:

— Gente fina aquele seu amigo bicheiro.

O Jacaré estranhou mas não falou nada.

Todo mundo que o Jacaré encontrava na praia dizia:

— Legal aquele seu amigo, o bicheiro carioca, hein? Gente boa mesmo!

Quando, enfim, encontrou o médico tomando cerveja num bar, ele parecia meio ansioso e, logo que pôde, chamou o Jacaré de lado e falou baixinho:

— Por favor, não diga pra ninguém que eu sou médico. Eu esparramei que sou bicheiro.

Ele respondeu:

— Pô, rapaz… isso é perigoso. O jogo do bicho dá cadeia…

O médico riu e falou:

— Dá nada! Estou aqui numa boa e todo mundo confia em mim. Se dissesse que sou médico, além de não ter tanto crédito, ia passar as férias trabalhando. Médico em férias é assim, todo mundo só fala com ele de uma dorzinha aqui, outra ali, um problema de estômago, pressão alta… 

E concluiu com um sorriso maroto:

— Passar por bicheiro é bem melhor.

Edição: Michele Carvalho