Coluna

Abaixo ao crachá!

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01 de Maio de 2019 às 08:00

Ouça o áudio:

Se alguém conseguisse passar pela portaria sem crachá, a ascensorista não permitia que a gente entrasse no elevador / Pixabay
Não sou eu que entro aqui, é o crachá. Só tenho que vir para trazer ele.

Primeiro de Maio, dia do trabalhador, eu fico pensando em quantos empregos já tive. Foram muitos.

Muitas vezes eu pedi demissão, outras vezes fui demitido. E quase sempre os motivos eram parecidos: regras bestas e encrencas com chefetes, patrões ou puxa-sacos.

Bom… Uma coisa que começou a me implicar, hoje em dia vão dizer que era maluquice minha: ter que usar crachá. Isso é coisa que não existia. Mas acham normal. Até reivindicam controle, incluindo câmeras de vídeo por todo lado. Será que não pensam que isso é preciso porque a sociedade se tornou doentia? A violência e o controle seriam necessários num mundo equilibrado?

A primeira vez que tive que usar crachá para entrar no prédio em que trabalhava foi há décadas, no Senai de São Paulo. Se alguém conseguisse passar pela portaria sem crachá, enganando os porteiros e seguranças, a ascensorista não permitia que a gente entrasse no elevador, e se conseguisse enganar a moça, em cada andar, na saída do elevador havia uma recepcionista que ficava de olho em quem saía.

Um dia tocou o telefone e era um segurança querendo falar comigo. Ele perguntou:

— A Sílvia trabalha na mesa ao seu lado, não?

Respondi que sim e ele pediu que eu olhasse se ela estava usando crachá. Suspeitava que ela tinha tirado depois de sair do elevador.

Em vez de responder, xinguei:

— Ora, você sabe que ela trabalha aqui e até a mesa que ela ocupa, que diferença faz se está usando ou não o crachá? Não vou te falar não.

Outro dia, entrei no elevador cheio de gente e a ascensorista ficou olhando feio pra mim, não fechava a porta. 

— Se você não colocar o crachá eu não subo — falou invocada.

— Eu estou com o crachá — respondi.

— No bolso não vale, tem que ficar exposto — falou brava, em tom de xingamento.

— Ele está exposto. Olha aí — indiquei o crachá na braguilha.

Ela ficou vermelha, fechou a porta do elevador para subir, mas continuou reclamando:

— Tem que ser no peito.

— Não está escrito em lugar nenhum. Só disseram que a gente tem que usar o crachá — falei em tom de brincadeira.

Um burocrata, chefete de alguma coisa, tomou as dores dela:

— Qual é o seu cargo aqui? — perguntou.

— Suporte de crachá — respondi.

— Como, suporte de crachá?! — disse irritadinho.

E expliquei:

— Não sou eu que entro aqui, é o crachá. Só tenho que vir para trazer ele. Se eu tentar entrar aqui sem ele, não consigo. Ele só não entra sozinho porque precisa que alguém o carregue.

Sabia que meu emprego não duraria muito, e não durou mesmo. Alguns meses depois, fui demitido. 

 

Edição: Michele Carvalho