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Artigo | Escolher ser mãe

"Ser mãe é sê-lo em contextos de vida diferentes"

Brasil de Fato | João Pessoa (PB)

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A maternidade é uma construção social que não pode ser uniformizada e aplicada indistintamente a mulheres de classes sociais diferentes. / Reprodução Blogueiras Negras

Minhas origens são de matriz africana, indígena e europeia. Integro a terceira geração de mulheres que não tiveram o direito de escolher, mas sim o dever de gerar. Minha avó paterna teve onze filhos, mulher do campo, filha de índios. Todos os anos ela tinha um filho. Ela escolhia tê-los? Não. Era uma mulher indígena casada com um homem branco de classe média. Minha avó ficou viúva aos 36 anos de idade, criou os filhos sozinha, às duras e sem escolha, trabalhando na terra, cuidando da casa. Minha avó foi a “mulher ideal” para boa parte da sociedade brasileira: não se casou de novo, viveu para o trabalho explorado e para criar os filhos que ela não escolheu ter.

 Pensando nas histórias de vida de nossas antepassadas, chegamos a saber que prazeres tiveram para além da maternidade? Que imenso ganho teríamos se todas as mulheres de hoje pudessem ter trajetórias diferentes delas. Mas me pergunto: as mulheres da periferia brasileira, em sua maioria negras, têm o direito de escolher e de serem mães como as mulheres das classes médias e altas brasileiras, em sua maioria, brancas?

Ser mãe é sê-lo em contextos de vida diferentes. A mãe negra e pobre é social e culturalmente marginalizada, ela é violentada na sociedade capitalista. Essa mulher é a mesma que não conseguirá cuidar de seus filhos de maneira planejada, que não terá uma gravidez compartilhada com bons médicos e que muitas vezes não terá uma estrutura familiar, econômica e emocional, para garantir a seus filhos os mesmos direitos e condições que mulheres brancas das classes mais favorecidas podem garantir aos delas. Isso, no entanto, não significa que a mãe branca não sofra mesmo quando tem melhores condições. A mulher branca também é oprimida, idealizada, deve ter seus filhos e cuidar deles de forma exemplar, organizar a vida da família e do marido (sob pena de ser vista como “indigna de ser mulher” ou como uma mulher cruel).

A concepção da maternidade, ainda que possa ser, em alguns sentidos, “universalizada” para todas as mulheres, não é uma construção social uniforme que pode ser aplicada indistintamente a mulheres de classes sociais diferentes. As mães da periferia, que lutam todos os dias para colocar comida na mesa, sabem que criam os seus filhos para logo eles se tornarem os trabalhadores das classes abastadas, enquanto as mulheres brancas poderão sonhar com a escola privada e a universidade de qualidade, que colocará seus filhos em posição mais alta na pirâmide social.

Isso não quer dizer que o amor da mãe que não consegue dar a seus filhos tudo o que necessitam seja maior ou menor que o da mãe que teve melhores condições econômicas e emocionais. Porém me pergunto: como poderá uma mulher pobre e negra, cotidianamente explorada e humilhada no trabalho, na rua e em casa, corresponder ao padrão idealizado da mãe que se doa inteiramente aos filhos, que dedica a eles todo o seu afeto e cuidado? Como essa mãe poderá corresponder à romantização da figura materna que oferece sempre a seus filhos seu tempo, paciência e atenção quando de seu trabalho (super)explorado provém, muitas vezes, a única fonte de renda de uma família que, não raro, é pouco estruturada? Sob quais condições conseguirá essa mãe, que acumula explorações de classe, raça e gênero, que faz dupla, tripla jornada de trabalho e cujas tarefas domésticas não são compartilhadas pelos homens, acompanhar de perto o crescimento de seus filhos, oferecendo a eles todos os cuidados materiais e emocionais de que necessitam?

O modelo de mãe idealizado socialmente traz para nós mulheres um grande sofrimento. Por um lado, sofremos, sem ter o direito de nos queixar, na gestão, no processo do pós-parto, na amamentação, que muitas vezes não conseguimos dar aos nossos filhos. Frequentemente, não temos apoio familiar e nem mesmo o próprio pai acompanha a gestão e o crescimento da criança. A maternidade passa, então, a ser algo solitário, com responsabilidades só nossas e muitas dúvidas. Tudo isso é, obviamente, ainda mais doloroso para as mulheres que não têm acesso a uma vida econômica e emocional digna. Por outro lado, sofremos porque nos deparamos constantemente com nosso fracasso em corresponder ao modelo materno ideal, enquanto continuamos sendo cobradas por isso, sobretudo pelos homens. Muitas vezes, inclusive, não tivemos sequer o direito de escolha de ser ou não ser mães, principalmente se somos pobres, periféricas, negras ou indígenas.

Ser mãe é um desafio: não nascemos mães, nos tornamos mães - para parafrasear Simone de Beauvoir. E fazemos isso dentro dos contextos históricos, sociais, econômicos, políticos e psicológicos em que vivemos. Por isso, a luta pelo direito de sermos (ou não sermos) mães em condições dignas deve estar em discussão. A maternidade não é fácil, nunca foi, para nenhuma mulher, e pode ser ainda mais difícil a depender das ideias e condições materiais e emocionais que temos. Romantizá-la apenas nos oprime e traz ainda mais sofrimento para nós mães.

* Militante da Marcha Mundial das Mulheres

Edição: Heloisa de Sousa