Ceará

Artista cearense conduz o público por uma viagem à infância em exposição no Cariri

Charles se denomina como artista “urgente” em oposição ao termo emergente

Brasil de Fato | Crato (CE)

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A exposição reflete sobre violências e silenciamentos sofridos / Wandeallyson Landim

O jovem artista Charles Lessa, realiza sua exposição individual 'que na próxima existência se houver que eu nasça girafa' buscando acessar o imaginário coletivo, através de suas próprias memórias.

Ao adentramos a galeria B do quinto andar do Centro Cultural Banco do Nordeste (CCBNB Cariri) nos deparamos com enormes letras vermelhas sobre uma parede azul com o título da exposição – que na próxima existência se houver que eu nasça girafa – ao lado da qual repousa sobre uma cadeira branca uma espada de Santa Bárbara, planta comum nos jardins e quintas da região, mas que muitas vezes é confundida com uma muito semelhante, conhecida por espada de São Jorge.

É simbólico ver o artista que se autointitula como artista urgente, fazendo uma brincadeira com o termo comumente utilizado no meio para se referir aos novos artistas – artista emergente – ocupando a galeria 5B do prédio, trazendo a superfície temas como suas memórias, medos, desejos e o ser um homem gay no meio disso tudo. Em uma região marcada pelo catolicismo e seus signos o artista questiona o seu lugar. Reflete sobre violências e silenciamentos sofridos. Expurga suas dores e anseios em seus trabalhos.

Charles conta que o título da exposição e toda ela de certa forma são, na verdade, um pedido “em todos os sentidos” e segue dizendo que “pelo lugar em que a gente está cultural, que é a cidade de Juazeiro, o rolê da crença religiosa aqui ser uma coisa muito [forte], o catolicismo popular tem muita força, então eu roubo no sentido não pejorativo da palavra, mas no único sentido que existe da palavra roubo, esse imaginário, esse imagético da fé do catolicismo só que eu ressignifico pra minha própria interpretação”.

É perceptível na exposição uma investigação do artista sobre a dimensão formal da arte, onde ele traz as cores primárias – azul, vermelho e amarelo – além das formas geométricas, texturas e linhas sempre presentes em seus trabalhos seja bidimensionais ou tridimensionais. Sobre essa investigação nos aspectos formais da visualidade ele diz investigar “o que vem primeiro, que nas cores são as primárias” a partir das quais podemos fazer um paralelo direto com o universo infantil presente na exposição.

Nela encontramos trabalhos em diversas técnicas tanto bidimensionais quanto tridimensionais. Ele nos inunda com suas pinturas, desenhos, objetos, esculturas, ready-made, máscaras, bonecas, instalações e caderno de artista.

Sua busca é para que através de suas memórias possa ativar as memórias do expectador, que é sujeito ativo em sua experiência estética com a exposição, pois a todo momento faz relações entre o que vê e sua própria existência. Pois como relata Charles “não pode nem nascer nem morrer em mim” sobre sua criação que passa por suas memórias mais íntimas. Em sua busca por acessar o outro através do imaginário coletivo.

Quando falamos sobre ocupar aquele espaço, enquanto artista jovem, emergente e gay, a primeira palavra que Charles evoca é “difícil” e completa “eu fico as vezes sem acreditar […] pois eu venho de periferia, do bairro Seminário no Crato, que é uma das periferias da cidade, então as perspectivas era não chegar muito longe”. Nos conta que “a primeira vez que estive aqui foi assistindo um espetáculo com minha mãe da Bela e a Fera e sempre achei tudo grandioso e jamais imaginei estar aqui, que não como público”.

Charles fala ainda sobre o retrocesso que estamos vivendo com o governo Bolsonaro “esses dias na montagem eu ia pra cozinha aqui, que é do lado da galeria e ficava conversando com as funcionárias e cada uma relatando a dificuldade e o medo que elas sentem de vir trabalhar semana que vem e serem demitidas, porquê tudo está sendo desmontado nesse país, do ensino a cultura, todos os meios que propaguem uma mudança de pensamento ou despertar de consciência da sociedade está sendo aniquilado e o Centro Cultural aqui não é uma realidade diferente não e ver que aquelas pessoas estavam assustadas me faz pensar sobre minha própria vida”.

A exposição que teve sua abertura no dia 10 de maio e segue em cartaz até início de julho contou ainda o apoio técnico e curatorial das artistas Rafael Vilarouca, Soupixo (Suyane Oliveira) e Wandeallyson Landim, dois homens gays e uma mulher negra, pois o artista faz questão de trabalhar com pessoas que historicamente são excluídas dos espaços institucionais.



 

Edição: Monyse Ravena