Coluna

O mundo dividido por uma linha é um cadáver cortado ao meio

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03 de Junho de 2019 às 10:33
Today’s Life and War, 2008. / Gohar Dashti
Se você sempre corre atrás do sol, nunca verá um pôr do sol

Por Vijay Prashad*

As notícias vindas de amigos no Irã são de mau presságio, um sentimento geral de medo de que os Estados Unidos possam bombardear o país a qualquer momento.

Um amigo em Teerã pede que eu leia o poema O mundo é moldado como uma esfera, de Simin Behbahani. Behbahani (1927-2014), um excelente letrista, escreveu esse poema - que continua atual - em 1981:

Foi um acordo nosso chamar isso de Oriente,

embora pudéssemos empurrá-lo para o Ocidente, facilmente.

Não fale comigo do Ocidente, onde o sol se põe

se você sempre corre atrás do sol,

nunca verá um pôr do sol.

O mundo dividido por uma linha é um corpo morto cortado em dois

sobre o qual o abutre e a hiena estão festejando.

O Iraque – a pedido dos árabes do Golfo e dos Estados Unidos – atacou o Irã em 1980, e inaugurou uma guerra fútil que duraria até 1988. Irritado com o fato de os árabes do Golfo não terem financiado adequadamente a guerra, nem honrado a soberania dos campos petrolíferos iraquianos, o Iraque de Saddam Hussein atacou o Kuwait em agosto de 1990. Vale lembrar que, no verão de 1990, o Conselho de Cooperação do Golfo (CCG) – criado com a ansiedade pela Revolução Iraniana de 1979 – apressou-se em normalizar as relações com o Irã.

O Kuwait retomou os voos para o Irã e assinou acordos de investimento e transporte. O CCG, que instigou Saddam a atacar o Irã, agora parecia favorecer este último contra o Iraque. O sangue de iraquianos e iranianos manchou a longa fronteira entre esses dois países; os povos de ambos os países tinham sido tratados como marionetes ​​pelos árabes do Golfo e pelo Ocidente. A invasão do Kuwait por parte do Iraque iniciou a Guerra do Golfo, que parece não ter terminado. Hoje, a Guerra do Golfo se manifesta no feroz cerco contra o Irã.

Never-Ending Chaos, 2013 | Rana Javadi 

 

O Irã está no precipício do desastre. As duras sanções do presidente dos EUA, Donald Trump, e suas ameaças de guerra, enviam ondas de choque pela região. Os compradores de petróleo iraniano decidiram esperar e ver como a situação se desenrola. O jogador chave aqui é a China; o próximo estágio será definido de acordo com sua reação, como eu escrevo na minha coluna. Tudo está tenso. Shahram Khosravi, um antropólogo, escreveu um relato comovente de uma conversa com seu amigo Hamid – um veterano da Guerra Irã-Iraque. Aqui abaixo está o relato de Shahram, uma amostra da vida de um iraniano abalado pelas sanções e pela premonição da guerra.



Hamid, 2018 | Foto: Shahram Khosravi

No Irã, o termo “guerra” é frequentemente usado em referência às sanções dos EUA. “Por que eles [os EUA] não nos deixam em paz?”, perguntou meu amigo Hamid no final do ano passado.

Hamid e eu nascemos em 1966 na mesma aldeia, ao longo das montanhas Zagros, na região de Bakhtiari, no sudoeste do Irã. Aos 19 anos, Hamid foi enviado para dois anos de serviço militar obrigatório. A guerra Irã-Iraque estava em seu quarto ano. Centenas de milhares de homens jovens, muitos adolescentes, já haviam sido mortos. Após dez dias de treinamento, Hamid foi – Kalashnikov na mão – para o fronte. Em um dia frio de fevereiro de 1986, os portões do inferno se abriram. As forças de Saddam Hussein liberaram gás mostarda nas tropas iranianas. Vinte mil morreram imediatamente, enquanto 80 mil sofreram o impacto. Os pulmões de Hamid ficaram muito danificados; ele não pode falar sem tossir. Sua pele ficou queimada em muitos lugares. Hamid sofre de depressão.

Hamid culpa os EUA e o governo iraquiano por seus ferimentos. Ele está certo. Documentos recentes da CIA confirmam a cumplicidade dos EUA no uso de gás mostarda em jovens como Hamid. Agora as sanções dos EUA se tornaram mais duras. Como trabalhador temporário, Hamid mal consegue tolerar a insuportável pressão econômica das sanções sobre seus ombros frágeis.

Trump retirou os EUA do acordo nuclear com o Irã em maio de 2018. Três meses depois, a primeira onda de choque atingiu os iranianos. A moeda do Irã desvalorizou 70%, gerando uma inflação alta. O custo das necessidades básicas subiu. O poder de compra dos trabalhadores caiu 53%. Um quilo de carne custa mais do que o pagamento de um dia de um trabalhador.

As sanções encolheram os fluxos oficiais do comércio, abrindo espaço para redes informais e várias formas de contrabando. O enfraquecimento da moeda iraniana significou o aumento do preço dos bens dentro e fora do Irã. O gado está sendo cada vez mais contrabandeado para o Iraque, o que é um fator chave no aumento do preço da carne. À medida que as sanções aumentaram, o mesmo aconteceu com o contrabando transfronteiriço. Um estudo sugere que esse contrabando aumentou em 37 vezes a sua frequência de pré-sanções.

Os medicamentos estão isentos das sanções, mas são escassos e caros. As empresas que vendem medicamentos no Irã fogem da instável situação econômica e temem a retaliação dos Estados Unidos. As sanções visam remessas e setor bancário, dificultando a obtenção de remédios e o pagamento deles. Mercados inseguros são um bom ambiente de negócios para os especuladores, que compram e acumulam medicamentos – forçando os preços para cima.

Os investimentos estrangeiros entraram em colapso e o capital fugiu do país. Uma fonte oficial diz que desde o verão de 2017, cerca de 20 bilhões de dólares deixaram o Irã. As empresas também fugiram, o que significa que peças para máquinas e carros não podem ser facilmente adquiridas. A produção de veículos caiu 72%.

O desemprego aumentou. Os trabalhadores são frequentemente informados por seus empregadores que não serão pagos porque “não há dinheiro em lugar algum”. O setor informal cresceu, com empregos precários (sem seguro de saúde e sem seguro desemprego) tornando-se a norma.

Hamid está no setor informal há décadas. Ele raramente é pago em dia. Não ser pago em dia agora é normal – muitas vezes com seis meses de salário atrasado. Toda semana, trabalhadores em algum lugar do Irã entram em greve para exigir seu dinheiro. Salários atrasados significam que os trabalhadores têm que contrair empréstimos para satisfazer suas necessidades básicas. Pessoas menos afortunadas recorrem a prestamistas que cobram juros de 70%. Os juros comem seus salários não pagos. As sanções dos EUA cortaram a corda e a população está se afogando.

Enquanto Hamid – em uma pequena aldeia – luta para sobreviver, os iranianos de classe média buscam uma maneira de fugir do país. Nunca havia visto esse desejo generalizado de deixar o país. As pessoas de classe média não vêem nenhum futuro no Irã. As filas nas embaixadas europeias estão ficando cada vez mais longas à medida que os anúncios de leilões de imóveis – “devido à emigração” – estão se tornando mais comuns. Os compradores são poucos. O “mercado está dormindo”, dizem as pessoas. “Nada acontece agora. Ninguém vende, ninguém compra”.

Hamid diz: “Quando o preço do dólar sobe, o preço de tudo sobe – tomate, arroz, carne, remédio, tudo  – e os preços não abaixam mais, mesmo se o preço do dólar cai”.

“Iranianos tornaram-se calculadoras”, diz-se. A vida está cheia de números. Acompanhar a taxa de câmbio do dólar tornou-se uma obsessão. Todo mundo espera para descobrir por quanto o rial – a moeda do Irã – será cotado. A estrutura da vida social está suspensa. Hamid checa o preço do dólar todo dia.

Longe de sua aldeia, Donald Trump tuíta sobre a guerra ao Irã. Em 19 de maio, ameaçou os iranianos com um “fim oficial” – uma ameaça de extermínio. Quando ele faz isso, o rial responde e Hamid vê e sente o impacto. As sanções e as ameaças de Trump lançam uma sombra de morte, mesmo que nenhuma arma tenha sido disparada. A morte prematura é tão frequente que agora é vista como normal. O Irã se preocupa com a morte devido às sanções e à retórica da guerra. A escassez de medicamentos já fez vítimas.

Acidentes de avião também causaram mais mortes. Em 1995, o presidente dos EUA, Bill Clinton, impôs sanções contra a indústria de aviação civil do Irã. Isso impediu que comprassem novas aeronaves e peças de reposição. As companhias aéreas iranianas têm as frotas mais antigas do mundo. Em fevereiro de 2018, um voo da Aseman Airlines com 66 pessoas a bordo caiu nas montanhas Zagros – não muito longe da aldeia de Hamid.

Hamid se preocupa com seu filho, Omid, agora com 19 anos. “Se eles começarem uma nova guerra…”, ele diz, e então abaixa os olhos, tossindo. Ele viu como as guerras quebram corpos e almas. "Se os EUA não sentiam remorso em fornecer armas químicas ao Iraque contra o Irã na década de 1980, por que não permitiriam que a Arábia Saudita e Israel fizessem o mesmo agora? Nossa geração foi atacada com gás pelo governo de Saddam Hussein, apoiado pelos Estados Unidos. Agora é a vez da geração de Omid quebrar sob as duras sanções e a sombra dos bombardeiros americanos?"

Idosa no Hospital Shariati, Tehran, 2016 | Kiarash Eghbali

Uma guerra contra o Irã – como afirma Hamid – será catastrófica, não apenas para o Irã, mas para toda Eurásia. Dividiria o mundo em dois com abutres e hienas festejando dos dois lados.

*Vijay Prashad é historiador e jornalista indiano. Diretor Geral do Instituto Tricontinental de Pesquisa Social.

Edição: Daniela Stefano