Coluna

Ver além de Bolsonaro

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05 de Junho de 2019 às 14:15
"O papel das forças progressistas é enxergar além e derrotar o projeto de classe que levou a extrema-direita ao poder", escreve colunista / Rafael Carvalho/Governo de Transição
O mercado não está preocupado com a sanidade ou com a imoralidade de Bolsonaro

Por Marcio Sotelo Felippe*

Já há quem peça uma junta médica para interditar o presidente da República. Não tenho nenhuma capacidade técnica para dizer  que Jair Bolsonaro tem distúrbios psíquicos. Quem sabe um dia poderemos resolver essa dúvida. 

O que aparece com muita clareza é a sua completa ausência de racionalidade.  Isto é o que há de comum entre o mal e a patologia psíquica. O doente mental é incapaz de juízos racionais. O perverso é incapaz de juízos morais.  Às vezes essas coisas se confundem, mas o perverso sabe o que faz.

Temos um presidente da República que exibe para todo o país a imagem repugnante de um homem urinando em outro. Um portador de doença psíquica poderia fazer isso por não conseguir se conduzir de acordo com certas normais sociais. Mas um ser apenas perverso visando exclusivamente seus próprios interesses, indiferente  ao efeito que isso causará aos outros,  agindo com um certo cálculo, ainda que tosco e burro, também poderia fazê-lo. Burrice não é doença.

É compreensível pensar que alguém que propôs o assassinato de um presidente da República, que defende a tortura, lamenta que a ditadura militar tenha matado pouco, que, quando militar, já planejou estourar bombas em quartéis, tenha problemas mentais. 

No entanto, falando claramente, a questão é que ninguém é doido só em um plano ou em uma ou outra conduta. Quem chega à presidência da República sabe o que faz. Se propõe coisas que aparentemente são insanas é porque simplesmente expressa sua maldade.

A categoria mais adequada para entender Jair Bolsonaro possivelmente seja a banalidade do mal. Um homem medíocre, incapaz de fazer juízos que vão além de seus interesses, indiferente à moral, mas plenamente imputável. 

A banalidade do mal nele se expressa, por exemplo, na tentativa de afrouxar as regras de trânsito porque ele e sua família receberam quase 50 multas por excesso de velocidade. Pouco importa que milhares morrerão nas estradas. 

Ou armar a população no país cujos índices de homicídio são um dos maiores do mundo – o maior em números absolutos – porque tem compromissos com a indústria das armas, sem deixar de lembrar de seus cada vez mais claros laços com as milícias. Pouco importa que milhares morrerão. Ou liberar agrotóxicos, envenenando nossas mesas, prejudicando a saúde das crianças. Pouco importa que milhares delas morrerão.

O mercado ou as classes dominantes não estão minimamente preocupados com a sanidade ou com a imoralidade de Bolsonaro. Tudo que interessa é saber se ele conseguirá aprovar a reforma da Previdência, privatizar, aniquilar direitos. Tudo que importa é saber se ele é útil para a acumulação. Se ele se mostrar disfuncional para tanto, cai. 

Não vai cair porque seu governo está destruindo o país, por propor medidas que destruirão vidas ou porque a floresta amazônica está em risco. Vai cair se ele se mostrar inapto para o projeto das classes dominantes. 

Talvez seja um ganho para a sociedade não ter na presidência da República alguém capaz da perversidade tosca de Bolsonaro, que não esteja preocupado com suas próprias multas de trânsito e que não esteja legislando para armar milícias. É  preciso, no entanto,  ter clareza que Mourão representa a continuidade e assegura esse projeto de classe.

O papel das forças progressistas é de enxergar além e derrotar o projeto de classe que levou a extrema-direita ao poder e que não sofrerá prejuízo com a troca do presidente pelo vice. Para tanto é preciso fazer uma inflexão. A via preferencial - por vezes a única - das forças progressistas tem sido a via institucional. Renunciou-se à organização popular, às ruas, à conscientização dos excluídos para travar a luta apenas no interior das instituições políticas, que são o campo privilegiado das classes dominantes.

Trata-se de derrotar o neoliberalismo. Sem esse projeto não teríamos a figura grosseira de Bolsonaro na presidência da República e não estaríamos desejando comemorar a troca de um admirador de Ustra por outro, ainda que este tenha o discernimento de se envernizar e não queira se livrar de suas multas de trânsito à custa de mortes.

Marcio Sotelo Felippe é jurista e advogado. Foi procurador-geral do Estado de São Paulo.

Edição: Daniela Stefano