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“Ègbé: eu e o outro”: encontro para fortalecer unidade da luta dos povos de terreiro

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10 de Junho de 2019 às 18:34
"Encontro deverá ser o espaço de construção da resistência e da luta contra os fascistas" / Foto: Agência Brasil
Somos muito diferentes, plurais, continentais, mas há algo que nos unifica: a fé

“Ègbé – eu e o outro”. Com esse mote, vamos realizar um grande encontro, o Encontro Nacional de Povos de Terreiro, entre os dias 13 e 16 de junho, em Belo Horizonte (MG). Queremos criar um espaço de compreensão de nossas posições políticas centradas no pensamento de esquerda. Um espaço de construção de uma grande “teia”, que construa os pontos de nossa unidade: sobreviver e resistir ao Estado fascista, implantado em nosso país, partindo da premissa que a direita se organiza buscando avançar e destruir a unidade, a democracia e o estado de direito não só no Brasil, mas numa escalada mundial.

Hoje o Brasil é o grande foco dessas ações direitistas, numa clara demonstração dos interesses do campo de direita nos países da América Latina. O ÈGBÉ – EU E O OUTRO deverá ser o espaço da construção da nossa unidade na resistência e luta contra os fascistas e suas táticas de destruição de nossos direitos, nossa liberdade e nossas vidas. Como resistir a esta série de ataques coordenados, quais as nossas táticas e nossa estratégia para sobreviver a tanta agressão e violação? É tarefa nossa pensar. E esse pensar coletivo exigirá de nós muita sabedoria, tranquilidade, unidade e desejo de vitória.

Somos muito diferentes, somos plurais, continentais, mas há algo que nos unifica, e muito: nossa fé, nossa ancestralidade, nossos terreiros. Sabemos através do Itans, Orikis, como a construção coletiva de nossas práticas religiosas se deram na diversidade de pensamentos. Hoje somos herdeiras/os de uma tradição mágica, na qual ser diferente foi fundamental para assegurar a manutenção da unidade na adversidade.

O ÈGBÉ – EU E O OUTRO não se propõe a ser um espaço de debates sobre forma, jeito e meio de nossas práticas religiosas, mas sim um espaço para a construção de táticas e estratégias que nos assegurem o direito à prática, à liberdade, à democracia e à vida, a partir de nossos olhares e construções em nossos terreiros. Um espaço onde possamos buscar a unidade para além de nossas convicções políticas partidárias e de militância, um espaço que seja de construção básica em defesa de nossos direitos, de nossas vidas e de nossas práticas religiosas.

No ÈGBÉ – EU E O OUTRO seremos parte de uma grande colcha de retalhos, cuja tarefa central é estarmos todas/os tecidos e unidos, numa perspectiva da defesa intransigente da democracia e da vida. Queremos buscar a consolidação de uma aliança entre os que se organizam e têm como parâmetros as tradições de nossa religiosidade. Esta é, para nós, a forma mais eficiente de combate à teocracia no Estado brasileiro, ao racismo religioso e às intolerâncias correlatas.

O ÈGBÉ – EU E O OUTRO é de pessoas, de lideranças e organizações que trazem como princípios e eixos fundantes a tradição de matriz africana e as experiências de nossos terreiros, que se organizam por um pensar e uma visão de mundo onde todas e todos são iguais em direitos. Portanto, que se organizam no campo da esquerda. Entendemos que esse espaço é para pessoas que trazem consigo princípios de luta contra toda forma de opressão, toda forma de preconceitos, toda e qualquer retirada de direitos. Pessoas contrárias ao capitalismo selvagem que nos mata todos os dias, pessoas que sabem que a reforma da Previdência é contra nós, negras e negros. Que sabem que a prisão de Lula é política, arbitrária e, portanto, um atentado à democracia. Pessoas que sabem que os ataques da direita se fortalecem na tentativa de destruição dos avanços e conquistas conquistados na América Latina através de muita organização e luta de setores da esquerda.

O ÈGBÉ – EU E O OUTRO não é espaço para busca de protagonismos pessoais, mas de todo um coletivo: os povos de terreiros. É o espaço para a construção de táticas e de estratégias organizativas dos povos de terreiros em épocas adversas, autoritárias e racistas. Local de se pensar que nossa resistência se dará na luta cotidiana em defesa de nossos territórios, de nossas tradições.

A proposta do ÈGBÉ – EU E O OUTRO vem de encontro à necessidade de buscar formas de juntas/os mantermos coesas nossas organizações, nossos templos e nossas práticas. É, portanto, um encontro de pessoas que pensam que mais do que nunca nossa unidade é a possibilidade de sermos de fato o que na minha tradição se chama de Ubuntu: Só Somos Porque O Outro É.

Makota Célia Gonçalves Souza é jornalista, empreendedora social da Rede Ashoka e coordenadora nacional do Centro Nacional de Africanidade e Resistência Afro-Brasileira (CENARAB).

Edição: Joana Tavares