Coluna

O próximo da fila!

Imagem de perfil do Colunista
12 de Junho de 2019 às 08:00

Ouça o áudio:

Quem entra na fila dos velhos acaba demorando muito mais pra ser atendido / Antonio Cruz/ Agência Brasil
Fila de banco, fila para pagar conta em qualquer lugar...Haja fila!

Fila de banco, fila para pagar conta em qualquer lugar, fila para atendimento no INSS… Haja fila!

Quem já está velho, teoricamente, leva uma vantagem nisso: fica numa fila menor, para atendimento preferencial. Ou recebe uma senha especial.

Não é mais preciso ficar de pé, aguardando um tempão, se cansando.

Mas tem um problema. A ideia de que a fila dos clientes preferenciais anda mais rápido é uma ilusão. Velhos demoram no guichê.

Além de mais lerdos, alguns resolvem contar toda a sua vida ao caixa do banco, que educadamente ouve. E assim, enquanto no guichê preferencial se atende uma pessoa, nos demais atende-se cinco ou mais. Quem entra na fila dos velhos acaba demorando muito mais pra ser atendido.

Sem contar uma coisa que acho altamente safada. Tem velho – ou idoso, ou da terceira idade, cada um chama como quiser – que resolve se aproveitar para fazer serviços de office-boy, quer dizer, office-old, ou office-velho.

Ele chega no guichê de atendimento preferencial e puxa da pasta um pacote de contas. Demora meia hora ali, atrasando todo mundo.

É um tipo de velho oportunista. Isso não devia ser permitido. Fazer serviço de office-boy não devia valer para atendimento preferencial.

Há muito tempo, velhos já faziam serviço de office-boy no serviço público, mas eram chamados de contínuos. E não tinham tratamento preferencial.

Quando fui fazer uns trabalhos na Secretaria da Habitação da Prefeitura de São Paulo, durante a gestão de Luíza Erundina, existia lá um contínuo desses, o Ataliba.

Ele também tinha uma mutreta, mas não isso de aproveitar a idade para furar fila onde não devia.

Eu me lembrei dele por causa da campanha para não guardar moedas, usadas como troco. Só que naquele tempo não havia moedas, o troco era em notas de pouco valor.

Ele dizia que era colecionador de notas de um cruzeiro. Como essas notas valiam o equivalente a uns quinze ou vinte centavos atuais, muita gente, quando recebia troco com notas de um cruzeiro, dava ao Ataliba.

Mas na verdade não havia coleção nenhuma, e as notas continuavam em circulação.

Naquela época, em que cachaça custava uma mixaria, quando juntava cinco notas daquelas, o Ataliba ia até um boteco ali por perto, tomar uma cachaça, que custava cinco cruzeiros a dose.

Trabalhava alegrinho-alegrinho…

E os botecos das redondezas não reclamavam de falta de troco.

 

Edição: Michele Carvalho