Coluna

Repressão ‘democrática’: preparemo-nos!

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21 de Junho de 2019 às 14:28
Na Greve Geral do dia 14 de junho, a Tropa de Choque foi acionada em diversas cidades gaúchas / Foto: Divulgação CUT-RS
Cadê o MDB autêntico, o PSDB social-democrata, o PTB trabalhista?

Cadê o MDB autêntico dos tempos da luta contra a ditadura, para cujos candidatos fiz campanha pública pela primeira vez na vida em 1978? E que nos anos 1980, além da Constituição Cidadã em nível federal, fez a Constituição estadual mais progressista do Brasil, com seus 27 deputados estaduais, quase a maioria absoluta, ex-governadores, ex-presidentes da Assembleia, ex-secretários de Estado entre seus nomes mais expressivos, junto com a bancada de 4 deputados do PT e os deputados do PDT? Cadê aquele MDB/PMDB democrático e de centro-esquerda, que nos anos 2010 comanda um golpe antidemocrático? E depois utiliza de um inacreditável ‘Sartonaro’ na última eleição, e apoia as reformas contra os trabalhadores e o povo, integra e dá sustentação a um governo de ultradireita, a uma ditadura disfarçada anti-povo, anti-democracia, anti-soberania?

Cadê o PSDB, criado na metade dos anos 1980, para recuperar o MDB autêntico e histórico, para ser a voz e expressão da social-democracia brasileira? E hoje, entreguista, é incapaz de defender a democracia, incapaz de se colocar como defensor dos direitos dos mais pobres?

Cadê o PTB, historicamente criado para defender trabalhadoras e trabalhadores e seus direitos, e hoje tornou-se aliado de um governo que faz reformas como a trabalhista, a previdenciária, que são contra toda sua história, e é aliado dos banqueiros e do grande capital?

Não sobrou ninguém do MDB autêntico, do PSDB social-democrata, do PTB trabalhista? Como explicar essa transmutação programática? Difícil entender as curvas da história. Mais difícil ainda entender homens, mulheres, ontem democratas, que estavam na linha de frente da luta contra a ditadura, eram construtores de Constituições progressistas, e hoje são, sem vergonha e pudor, direitistas e conservadores assumidos.

Participei da greve geral de 21 de julho de 1983, em plena ditadura do governo Figueiredo e de um governo do PDS no Rio Grande do Sul. Os moradores e lutadores da Lomba do Pinheiro, entre os quais eu, organizaram a participação na greve (como fizeram agora em 2019). E não está na minha lembrança, nenhuma repressão ostensiva, ou pelo menos não a repressão dos tempos de hoje, a repressão policial dura da Greve Geral do dia 14 de junho de 2019, promovida por um governo supostamente social-democrata (confesso, de forma envergonhada e profundamente arrependido, que votei no segundo turno no atual governador), capitaneado pelo PSDB e integrado pelo MDB e PTB.

A repressão foi forte no Rio Grande do Sul na Greve Geral de 14 de junho, como nunca tinha sido antes, pelo menos em tempos de democracia. Balas de borracha, gás, jatos de água, perseguição a manifestantes na rua, que tiveram que se refugiar, inclusive, na PUC, prisões absurdas, especialmente de estudantes. Será a antessala do que vem sendo anunciado por diferentes formas: direitização e endurecimento geral, o Presidente da República dizendo que é preciso, vejam só, armar a população para ‘defender’ a democracia? Será uma amostra do que vai acontecer nos próximos meses, com apoio do MDB, PSDB e PTB?

Difícil saber o que vai acontecer amanhã ou depois de amanhã, ou nos próximos meses. Nenhum analista político ou conjuntura consegue dizer com algum grau de certeza o que será do Brasil no segundo semestre ou em 2020. O endurecimento, já visto claramente na Greve Geral, é uma forte possibilidade, infelizmente. É preciso preparar-se, pois, estar vigilante e forte, defender a democracia e a soberania, apesar de tudo e de todos, defender os direitos do povo, a liberdade de expressão e organização.

Mas felizmente não foi a repressão que acabou vitoriosa na Greve Geral do dia 14 de junho. O povo, trabalhadoras e trabalhadores, estudantes, servidores públicos foram às ruas, protestaram, não se intimidaram ante os ditadores de plantão e os democratas de fachada. Sempre foi assim na história, ante as ditaduras de fato e as ditaduras disfarçadas.

Quem foi às ruas acabou feliz e abençoado. Mesmo com a repressão ‘democrática’ nas costas e na cabeça, não sairá mais das ruas, até que a democracia floresça de novo plenamente, os direitos dos pobres e excluídos sejam garantidos, a soberania nacional seja garantida. E, se ainda houver democratas e progressistas no MDB, PSDB, PTB, que saltem fora do navio da repressão e da ditadura, e voltem para o lado do povo e da esperança.

Edição: Marcelo Ferreira