Palestra

"A Lava Jato teve o intuito de destruir nossa engenharia", diz Florestan Fernandes Jr

Renomado jornalista esteve na UFPE, onde participou do seminário Rupturas Políticas

Brasil de Fato | Recife (PE)

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Jornalista participou de evento realizado no auditório da ADUFEPE / Adufepe

Na última quarta-feira (26) o jornalista Florestan Fernandes Jr. esteve na Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) para participar do seminário "Rupturas Políticas nos processos de governança e governabilidade nas democracias latino-americanas", realizado do dia 25 ao 27 pela Associação dos Docentes da UFPE. Florestan palestrou sobre o tema "A crise da democracia brasileira: entre a mídia e o judiciário".

Com um resgate histórico recente, a análise de Florestan sobre o comportamento da mídia iniciou lembrando os protestos de junho de 2013. "A mídia sequestrou aquelas manifestações dos estudantes, que inicialmente era voltada para o transporte público, e canalizou para ser contra o Governo Federal", avaliou. "Assim eles conseguiram levar setores da nossa burguesia para as ruas, algo que não ocorria havia 40 anos", pontua.

O jornalista, com passagens por Folha de S. Paulo, TV Manchete, TV Cultura, TV Globo e TV Brasil, se mostrou basante crítico à cobertura feita pela imprensa nacional sobre a Operação Lava-Jato. "A imprensa divulgou aquilo sem contraponto, sem qualquer ponderação ou crítica", diz. Ele também avalia que a postura da imprensa, em parceria com a Lava Jato, era intencional para apontar caminhos para a sociedade. "As delações eram divulgadas sempre em datas próximas a algum evento de interesse político. Isso tudo para dizer para a população que a corrupção é o maior problema do Brasil, o que não é verdade", avalia.

Na opinião do experiente jornalista, o principal problema do Brasil são os juros da dívida pública, que coloca metade dos recursos públicos brasileiros no cofres dos bancos. "É o lucro do capital, o lucro dos bancos", reclamou. E lembrou uma entrevista que fez com Joseph Stiglitz, economista estadunidense ganhador do Nobel da Economia. "Nessa entrevista perguntei a ele por que o Brasil, apesar de ser a 7ª economia do mundo, tinha má distribuição de renda e a qualidade de vida da população era tão ruim", disse Florestan. "Ele me respondeu perguntando quantos bancos privados temos no Brasil, e são quatro de alcance nacional. E ele emendou: 'nos EUA são 14 mil bancos, mas nenhum pode operar nacionalmente, é proibido. Banco não pode ter monopólio do dinheiro. Eles têm que cumprir a função social de desenvolver a região'", completou.

Por isso, diz o jornalista, a Lava Jato nunca se preocupou em investigar os bancos. "Esses grandes depósitos de centenas de milhões em paraísos fiscais, isso não é feito por doleiros, mas pelos bancos. E a imprensa jamais questionou essas coisas", reclamo Florestan. Na opinião dele, a Operação Lava Jato teve entre seus objetivos destruir a indústria de engenharia brasileira.

Florestan comparou com casos de corrupção envolvendo empresas estrangeiras. "O governo Francês não destruiu a Alstom. Nos EUA o empresário pode até ser preso, a empresa sofrer intervenção, mas nenhum governo destrói empresas de grande porte e importância", pontuou, em referência ao que a Lava Jato fez com as empresas de construção civil. "Eles pararam as empresas e jogaram o país numa crise econômica sem fim", reclamou. "Será que as empresas estrangeiras que agora operam no Brasil, elas não pagam propina? Só as brasileiras que pagam?", ironizou.

Antes da Lava Jato a Odebrecht possuía cerca de 250 mil funcionários e já ocupava lugar de destaque no mundo. "O Brasil perdeu isso. E quem foi que ganhou com isso agora? Os americanos, os franceses, os chineses", lamentou. O jornalista também lembrou que a Petrobras era outro fator de estímulo à indústria nacional, mas a Lava Jato e a derrubada de Dilma fizeram a estatal fechar os estaleiros navais e reduzir drasticamente o funcionamento das refinarias, esfriando a atividade econômica no país.

Florestan também citou a recente entrevista do dono da Rede Bandeirantes (TV Band), Johnny Saad, em que o empresário diz que a Lava Jato fez mal para o Brasil. "Mas a emissora dele passou anos exaltando a Lava Jato. Isso mostra que eles querem parar a Lava Jato onde está, porque ela já cumpriu a função dela, que era tirar os governos progressistas", aponta.

Impeachment e prisão de Lula

O jornalista também lembrou da cobertura da imprensa no processo legislativo que levou ao impeachment da ex-presidenta Dilma Rousseff. "Na época eu estava na EBC (TV Brasil). Entrevistávamos políticos de direita e esquerda, juristas defendendo posições diferentes. Mas éramos a única emissora a fazer isso", destaca. "A imprensa empresarial entrou na campanha de Moro e do Congresso, fazendo boa parte da opinião pública achar que o grande problema do Brasil era a corrupção e se tirasse o PT do poder, tudo estava resolvido", recorda.

Florestan, jornalista desde 1977, começou a carreira quando Lula era só um entre os líderes sindicais e acompanhou o desenvolvimento do líder político Lula. "Eu posso assegurar que não existe ninguém no Brasil que tenha sido mais investigado que Lula. Ninguém", avalia. "E os caras tiveram muita dificuldade para encontrar uma brecha, sem nada concreto, e ainda enfiaram goela abaixo essa história do triplex - que não há nada que prove que foi dele", completa.

No último mês de maio Florestan entrevistou Lula para o jornal El País. "Eu entrevistei Lula muitas vezes, mas nenhuma foi tão importante quanto esta. Porque durante todo o processo da Lava Jato ele teve as portas foram fechadas quando quis se defender", lembra. A entrevista feita por Florestan e Mônica Bérgamo (da Folha de S. Paulo) alcançou mais de 50 milhões de pessoas em todo o mundo. Na Espanha as entrevistas de Lula foram mais acessadas que os conteúdos relativos à eleição nacional do país, que ocorreria no dia seguinte. "Por isso a mídia empresarial brasileira quer tirar do país os veículos internacionais", critica.

Ainda sobre o ex-presidente, Florestan considera que a população teve negado o direito de ter acesso a um olhar diferente sobre o caso, um olhar mais crítico à condução de Sérgio Moro. Mas o jornalista avalia que, apesar dos ataques, a imagem de Lula ainda desperta bons sentimentos na população mais pobre. "Houve uma tentativa de desconstrução, mas ele ainda está no imaginário da população como um líder que valorizou esse povo. Se tivesse sido candidato no ano passado, teria vencido", considera. 

Governos de Esquerda

O jornalista também apontou falhas dos governos Lula e Dilma na pauta da comunicação. Os principais, na sua opinião, foram a não regulamentação das mídias e o fato de não ter feito sustentável uma empresa pública de comunicação, como a Empresa Brasil de Comunicação (EBC), fundada no governo Lula em 2007. "Se tentou viabilizar, mas não arrumaram recursos para mantê-la autônoma do poder central. Na Inglaterra a BBC é mantida com um imposto cobrado em cima dos aparelhos de televisão. Aqui no Brasil ficamos dependentes de repasses do Governo Federal. Agora a EBC praticamente não existe mais", lamentou. Mas ele tem esperança de que nas novas plataformas de comunicação as organizações populares consigam fazer melhor enfrentamento. "Como dizia meu pai, o velho Florestan, 'a vida é feita de marés'. Hoje estamos na maré baixa, mas ela vai subir", completou.

A palestra foi mediada por Diva Braga, integrante da equipe do Brasil de Fato Pernambuco. Em sua fala, Braga destacou a posição política e o compromisso do Brasil de Fato. "Surgimos em 2003 nesse campo político da esquerda e nos construímos com a perspectiva da autonomia dos trabalhadores em todos os campos, inclusive na comunicação, com os trabalhadores construindo suas ferramentas de comunicação", disse Diva.

Ela também pontuou que o Brasil de Fato se coloca como instrumento do povo. "Nos denominamos 'comunicação popular', não 'alternativa'. O que é alternativo está sempre à margem. Não é o que queremos", afirmou, destacando ainda que a mudança do jornal para o formato tabloide, distribuído gratuitamente, após 10 anos de edição nacional standard para assinantes, "se justifica politicamente no esforço para aprofundar o diálogo político com o povo".

Edição: Marcos Barbosa