DIREITOS HUMANOS

Quatro perguntas e respostas para entender ataque contra migrantes na Líbia

Ofensiva deixou ao menos 53 pessoas mortas e mais de 130 feridas; alvo foi um centro de detenção de migrantes em Tajoura

Brasil de Fato | São Paulo (SP)

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O enviado das nações Unidas na Líbia, Gassan Saleme, qualificou o ataque como um crime de guerra / Foto: Mahmud Turkia/AFP

Um ataque aéreo contra um centro de detenção de migrantes na Líbia deixou 53 pessoas mortas e mais de 130 feridas. Nenhum grupo reivindicou a autoria do atentado. No entanto, o governo do país, apoiado pela Organização das Nações Unidas (ONU), acusa o Exército Nacional Líbio (ENL) de ser o responsável pela ação. 

O ataque, que ocorreu nesta quarta-feira (3), é parte de um conflito que tomou forma a partir 2011, após a morte do ex-líder líbio Muammar Kadhafi. De lá para cá, o vácuo governamental gerado pelo fim da era Kadhafi levou o país a mergulhar em instabilidades políticas, disputas por poder e pelo controle da capital, Trípoli. 

O Brasil de Fato organizou 4 perguntas e respostas para explicar o atentado e a situação que o país atravessa. 

1: O que aconteceu? 

Um ataque aéreo nos arredores de Trípoli, capital da Líbia, deixou 53 pessoas mortas e mais de 130 feridas. O alvo foi um centro de detenção de migrantes localizado em Tajoura, onde viviam cerca de 600 pessoas.

A ofensiva é considerada a maior em número de mortes desde que o ENL, força leal ao general Khalifa Haftar, iniciou uma série de ataques contra locais controlados pelo Governo da Unidade Nacional (GNA), considerado legítimo pela ONU.

Os migrantes, a maior parte de países da África subsaariana, foram pegos enquanto tentavam cruzar o Mediterrâneo buscando refúgio na Europa. A lei líbia considera crime a tentativa de entrar ou sair irregularmente de seu território. 

Atualmente, existem 25 centros como esse no país, onde estão detidos 5.595 migrantes. Segundo informações do Alto Comissariado da ONU para Refugiados (Acnur), 2.433 estão em Trípoli. Grupos de direitos humanos afirmam que as condições dos centros de detenção são muitas vezes desumanas. 

Grande parte dos migrantes está presa há meses, e, em alguns casos, há mais de dois anos. Os detidos aguardam para serem encaminhados a países de acolhida no Ocidente. A ONU qualificou o ataque cometido contra o centro de migrantes como um crime de guerra. 

2 - Algum grupo assumiu a autoria? 

Até o momento, ninguém assumiu a autoria do ataque. No entanto, o governo líbio atribui a ação ao ENL. O Exército, que é liderado por Haftar, negou que tenha cometido o atentado e afirmou que a acusação se trata de uma “conspiração”. 

O ENL, que tem força no leste da Líbia, organizou ofensivas contra o governo central a partir de abril deste ano. O grupo não reconhece a legitimidade do GNA e passou a disputar o controle de Trípoli.

Há pelo país o medo de que os conflitos acabem por desencadear uma guerra civil com a mesma proporção do levante de 2011, que culminou na deposição e morte de Kadhafi. A derrocada do líder ocorreu no marco da chamada "Primavera Árabe".

De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), quase mil pessoas morreram desde o início da ofensiva contra Trípoli e cerca de 5.000 ficaram feridas durante os três meses de combate.

3 - Quem é Khalifa Haftar?

Haftar (75) ajudou Kadhafi a tomar o poder em 1969, em um golpe contra a monarquia líbia. O militar começou a ganhar força nos anos seguintes, chegando a comandar operações durante a Guerra de Yom Kippur, também conhecida como Guerra Árabe-Israelense de 1973. 

O militar desertou em 1987 após ser capturado por forças do Chade. A partir de então, aderiu à Frente Nacional de Salvação da Líbia (FNSL), grupo que contava com o apoio dos Estados Unidos. 

Após passar a integrar um grupo de oposição a Kadhafi e organizar diversas tentativas de golpe, Haftar se mudou para Washington, capital dos EUA, onde viveu sob exílio durante duas décadas. A mudança gerou especulações de que o militar colaborou com a CIA. 

Haftar só retornou à Líbia em 2011, chegando a comandar forças durante a revolta contra Kadhafi. Depois da morte do líder líbio, o militar passou a organizar campanhas contra grupos militantes islâmicos baseados no leste do país.

De lá para cá, Haftar começou a liderar inúmeras investidas na região. Ele conseguiu assumir o controle de grande parte do leste, inclusive de instalações petrolíferas. Nos últimos anos, o militar também expandiu sua força em territórios localizados no sul do país.

4 - O ataque gerou repercussão? 

O Secretário-Geral das Nações Unidas, António Guterres, se pronunciou por meio de seu porta-voz, Stéphane Dujarric, já na quarta-feira (3). Guterres garantiu que será instaurada uma investigação independente para responsabilizar os autores do ataque.

“O Secretário-Geral está indignado com os relatos de que pelo menos 44 migrantes e refugiados, incluindo mulheres e crianças, foram mortos e mais de 130 ficaram feridos após ataques aéreos no centro de detenção de migrantes Tajoura, a leste de Trípoli. Condena veementemente este horrendo incidente e apresenta as suas mais profundas condolências às famílias das vítimas e deseja uma rápida recuperação dos feridos”, afirma o comunicado.

O enviado das nações Unidas na Líbia, Gassan Saleme, qualificou o ataque como um crime de guerra. “O absurdo dessa guerra atingiu hoje seu resultado mais odioso e mais trágico com esse massacre sangrento”, disse. 

O Comitê Internacional da Cruz Vermelha (CICV), organização que atua na Líbia, emitiu um comunicado assinado pelo diretor regional adjunto para a África, Patrick Youssef. Segundo ele, “As notícias são devastadoras. os migrantes já estão vulneráveis a doenças, encarceramento, exploração e violência diária. Ver tantos mortos em um ataque tão grande é de partir o coração”. 

O Conselho de Segurança da ONU tentou aprovar uma declaração condenando o ataque aéreo. A medida, no entanto, foi barrada pelos Estados Unidos, membro permanente que tem poder de veto. 

Edição: Pedro Ribeiro Nogueira