Coluna

A religião é o suspiro dos oprimidos

Imagem de perfil do Colunista
08 de Julho de 2019 às 12:35
K Hemalata, Presidente do Centro dos Sindicatos Indianos (CITU), discursando na Marcha para o Parlamento por Child Care Workers / Instituto Tricontinental/Reprodução
Precisamos entender como questões psicossociais se agravaram nos trabalhadores

Sentado em uma cela da prisão fascista na Itália, Antonio Gramsci se perguntou sobre um dilema que comunistas, como ele, enfrentavam. No Manifesto Comunista (1848), Karl Marx e Friedrich Engels escreveram: “os trabalhadores não têm nada a perder a não ser suas correntes. Eles têm um mundo a ganhar”. Essas correntes não eram apenas laços materiais, mas correntes que impediam aqueles que não possuíam propriedades, além de sua própria capacidade de trabalhar, de serem totalmente livres. Essas correntes se infiltraram na mente e minaram a capacidade da maioria dos seres humanos de ter uma compreensão clara de nosso mundo. Sufocados, os trabalhadores (que anteriormente eram adeptos dos movimentos socialistas e comunistas) avançaram em direção ao fascismo. Eles chegaram aos partidos fascistas não por convicção, escreveu Gramsci, mas por causa de sua consciência contraditória.

Por um lado, pessoas que passam a maior parte do tempo trabalhando desenvolvem uma compreensão da “transformação prática do mundo”. Essa estrutura está implícita na atividade dos trabalhadores, uma vez que o trabalhador - dado o roubo de seu tempo - é frequentemente impedido de teruma “consciência teórica clara dessa atividade prática”. Por outro lado, o trabalhador “herdou do passado e absorveu sem críticas” um conjunto de ideias e práticas que ajudam a moldar sua forma de ver o mundo. Essas idéias e práticas vêm de todos os tipos de instituições, como o aparato educacional do Estado, instituições religiosas e indústrias culturais. Tais ideias herdadas não esclarecem a experiência prática dos trabalhadores, mas, ainda assim, moldam sua visão de mundo. É essa dualidade que Gramsci chama de “consciência contraditória”.

Se você aceita a afirmação de Gramsci, então a luta pela consciência - a luta ideológica - é uma necessidade material. Para gerações de trabalhadores, o sindicato, os partidos políticos de esquerda e as formações culturais de esquerda forneceram espaços de formação para elaborar e conectar a consciência dos trabalhadores e proporcionar uma compreensão poderosa do mundo que permitisse ver com clareza as correntes que tinham que ser quebradas. Ao longo dos últimos quarenta anos, por várias razões que catalogamos em nosso primeiro Documento de Trabalho, a filiação a sindicatos diminuiu, assim como aos partidos políticos de esquerda. As “escolas” dos trabalhadores não estão mais disponíveis. A consciência contraditória é mais difícil de ser elaborada e é por isso que tem havido um deslocamento de trabalhadores para organizações de hierarquia social (que são fundadas de acordo com divisões sociais de religião, raça, casta e outras manifestações semelhantes).

Yoshihiro Tatsumi, Abandonar o Velho em Tóquio, 1970.

O Instituto Tricontinental de Pesquisa Social realizou um seminário de dois dias em Tunis (Tunísia) sobre religião e política para construir uma avaliação do papel da religião no crescimento da extrema-direita. No primeiro dia, pesquisadores de nossas equipes em Déli (Subin Dennis e Pindiga Ambedkar), Johannesburgo (Nontobeko Hela) e São Paulo (Marco Fernandes) fizeram suas apresentações sobre o papel da religião em cada um de seus contextos sociais e políticos. Ambas as equipes do Brasil e da Índia falaram sobre o crescimento esmagador do conservadorismo popular através da ascensão do Hindutva (na Índia) e do pentecostalismo (no Brasil). Eles argumentaram, como observou o intelectual marxista Aijaz Ahmad, que essas forças de direita foram fundadas “em um princípio estranhamente gramsciano de que o poder político duradouro só pode surgir com base em uma prévia transformação e consentimento cultural, e esse amplo consentimento cultural em relação às doutrinas da extrema-direita só podem ser construídos através de um longo processo histórico, de baixo para cima”. Na África do Sul, a autoridade duradoura do Congresso Nacional Africano enraizada de forma secular na política, e os fracassos das igrejas em entrar de maneira decisiva na política permitiram que o país não apresentasse essas tendências.

Nos outros momentos do seminário, intelectuais militantes e acadêmicos, da Turquia à Argélia, do Marrocos ao Sudão, apresentaram seus pontos de vista sobre o papel da Irmandade Muçulmana, cujas políticas são semelhantes às do RSS de extrema direita na Índia e das igrejas pentecostais no Brasil. As apresentações mostraram como a Irmandade Muçulmana – como um movimento de massas – usou seu controle sobre a educação para moldar a consciência contraditória da classe trabalhadora.

Nos primeiros escritos de Karl Marx, há uma sensação de que a religião é o que os trabalhadores usam como forma de obter algum conforto frente à aspereza do capitalismo. Como Marx escreveu em 1844, “o sofrimento religioso é, ao mesmo tempo, a expressão do sofrimento real e um protesto contra o sofrimento real. A religião é o suspiro da criatura oprimida, o coração de um mundo sem coração e a alma de condições sem alma. É o ópio do povo”. Esta é uma afirmação poderosa, que busca entender por que as pessoas buscam a religião. Hoje, no entanto, tal afirmação não nos serve. É necessário ir além. Precisamos entender como essas organizações trabalharam as questões psicossociais que se agravaram entre a classe trabalhadora. Eles fornecem serviços – embora limitados – para curar as grandes tensões do nosso tempo. Essas práticas “terapêuticas” atraem trabalhadores, ávidos por estar em comunidade e pelo bem-estar social proporcionado por essas organizações. Precisamos de uma avaliação mais robusta do papel da religião em nossos tempos, que é o que nossa pesquisa espera produzir.








Quais são os antídotos a essas ideologias e instituições de hierarquia social? Construir instituições do povo – incluindo sindicatos e organizações comunitárias. Mas esse é um enorme desafio em nossos tempos, quando as formações socialistas estão se atrofiando enormemente. É por isso que nossos pesquisadores em Déli foram conversar com K. Hemalata, presidenta da Central de Sindicatos Indianos (CITU, sigla em inglês). Esta entrevista forma o nosso dossiê nº 18, de julho, A única resposta é mobilizar os trabalhadores e trabalhadoras. Nós recomendamos fortemente que você o leia atentamente e compartilhe. Hemalata chegou ao seu posto através  de sua liderança na Federação Indiana de Trabalhadores/as de Anganwadi (Cuidado Infantil). Ela termina a entrevista com a fala que dá o título à entrevista – a única resposta é mobilizar os trabalhadores. Essa declaração aqueceria o coração de Godavari Parulekar, o líder comunista indiano que passou a vida construindo as cidadelas da classe trabalhadora nas fábricas e nos campos.



 



Mais de 90% dos trabalhadores da Índia estão no setor informal, a maioria deles sem qualquer chance de sindicalização. A CITU tem seis milhões de membros, um número considerável, mas ainda não suficiente em um país com 1,3 bilhão de pessoas. Nas últimas décadas, a CITU desenvolveu uma série de estratégias para organizar trabalhadores informais, sejam eles de creche ou pequenas fábricas. Hemalata fala vigorosamente sobre a necessidade de os sindicatos lidarem com questões de hierarquia social (patriarcado, casta e fundamentalismo) e organizar os trabalhadores onde vivem, não apenas onde trabalham. Ou seja, é necessário organizar não apenas as pessoas, mas as comunidades em que vivem. A clareza ideológica e a flexibilidade organizacional da CITU permitiram que ela construísse uma federação forte, que esteve na liderança das grandes greves gerais que convulsionaram a política indiana, algumas com 200 milhões de trabalhadores em greve.



As coisas continuam graves. As chuvas começaram na Índia. Isso trouxe um pouco de descanso das ondas de calor que desgasta a vida dos trabalhadores da construção e da agricultura. A Organização Internacional do Trabalho (OIT) acaba de divulgar um relatório sobre as dificuldades de trabalhar em um planeta em aquecimento. Mas as recomendações da OIT são fracas: mais mecanização e mais desenvolvimento de habilidades. O verdadeiro antídoto a longo prazo é uma melhor política para conter a catástrofe climática que vá à raiz do problema – um sistema econômico brutal (capitalismo) que busca reproduzir o capital às custas do planeta e de seus habitantes. A curto prazo, o antídoto é impedir a brutalização dos trabalhadores, pressionando por mais sindicalismo e outras formas de organizações da classe trabalhadora. Em Kerala (Índia), o governo da Frente Democrática de Esquerda proibiu o trabalho das 11h às 15h, a fim de dar aos trabalhadores descanso (veja meu relatório). Soluções e estratégias mais criativas são necessárias para confrontar um sistema que está em risco de destruir o planeta e aqueles que trabalham e vivem nele.


Edição: Pedro Ribeiro Nogueira