Coluna

O tempo do cinismo e a construção da barbárie

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08 de Julho de 2019 às 17:09
Manifestante protesta com a máscara do presidente Jair Bolsonaro (PSL) / Miguel Schincariol / AFP
Onde exatamente está a ruptura do nosso tecido social?

Por Gladstone Leonel Júnior*

 

Muito se fala da polarização política em curso no Brasil e não há como negar que isso perdura por algum tempo. Se faziam presentes aqueles grupos que defendiam um governo com pautas mais populares, e outro grupo, que tentando impor ao país um projeto mais liberalizante, buscava trocar o governo. 

O conflito decorrente desses antagonismos possibilitou um impeachment, sem lastro probatório suficiente para a caracterização de crime de responsabilidade, e por isso chamado de golpe, além da eleição de candidatos de extrema direita no país em 2018. Todo esse percurso nos traz aos dias de hoje. 

Um contexto na sociedade em que os fatos ficaram em segundo plano diante de memes e discursos. Algo que alguns autores chamarão de pós-verdade, visto que a verdade ou mesmo a realidade apresentada, já não possui o mesmo valor. 

Quem não se espantou, recentemente, em ouvir algum conhecido ou algum parente falar, sem sentir qualquer vergonha, que o investimento em cultura é para “uma pessoa cheirar o rabo da outra”; que a educação pública não presta porque é “antro de esquerdista”; que a Veja é revista de esquerda; que o maior problema político é a corrupção do PT; que a pesquisa no Brasil não serve para nada; ou até mesmo, chegando às raias da loucura de afirmar que a Terra é plana? Se ainda você não escutou isso, sinta-se privilegiado, mas saiba que é algo cada vez mais presente na sociedade, mesmo que todas essas afirmações não tenham qualquer, repito, qualquer lastro com a realidade. 

Não me parece que essas pessoas sempre tenham pensado dessa forma. Se buscarmos em momentos anteriores, mesmo que com discordância, havia um bom senso no debate; existiam pilares comuns em que alguns valores estavam estabelecidos, como educação, cultura, saúde, embora decorrente de projetos distintos. Era sabido que a cultura era importante, mesmo que alguns valorizassem a cultura popular e outros a cultura erudita; não havia dúvida em que toda família queria um filho ou uma filha estudando nas universidades públicas, sempre caracterizadas como as melhores do país, mesmo que fossem estudar cursos com caráter mais conservador ou com viés mais reflexivo. Pois, tudo isso sucumbiu pelo discurso da pós-verdade!  

Daí caberia nos perguntar: Onde exatamente está a ruptura do nosso tecido social? 

Não parece estarmos diante de mera quebra democrática, do jogo político ou das regras do sistema de justiça. Há uma fratura maior, mais profunda e anterior, que possibilita a normalização do absurdo. 

O individualismo, estruturado pelo modo de produzir a vida no capitalismo, como valor supremo em uma sociedade de consumo age como um câncer nas nossas relações sociais e retira o sentimento de pertencimento a um povo ou comunidade. Vivemos cada vez mais isolados, deprimidos nas nossas redes sociais (embora não pareça), vivendo a base de antidepressivos e índices cada vez maiores de suicídios. Vamos naturalizando no nosso cotidiano, o ato de não se importar com alguém fuçando um lixo ou sofrendo uma abordagem abusiva da polícia. Ao que tudo indica, estamos alimentando a fórmula de uma sociedade doente.   

Isso não é de agora, mas produz efeitos perversos nos dias de hoje. Quando os governos anteriores propunham formas de captação de recursos culturais, sem trabalhar metas de impacto social; ou quando massificavam o investimento no ensino superior, sem uma capacitação crítica no ingresso das pessoas; ou até mesmo a garantia de bolsas para o acesso de grupos excluídos ao mercado consumidor, via programas de assistência social, sem a preocupação em organizar o povo; a fórmula macabra da crença no individualismo e na falsa meritocracia estava presente e também era estimulada. 

Esse individualismo continuamente incitado permitiu o rompimento dos tecidos sociais a ponto de determinados grupos, tal qual nos séculos anteriores, passarem a se enxergar como cidadãos “melhores”, e sem qualquer comprometimento ou elo com outros grupos, mesmo que ainda insistam em reconhecer estar em um Estado Democrático.  Essa crença alimentada pelo individualismo, e colocada em um patamar superior, justifica a esses grupos acreditarem em qualquer fake news absurda que chegue ao seu whattsapp ou pelo discurso de algum líder religioso, mas não o desabone enquanto indivíduo, nem retire seus privilégios.    

Para além dos traumas que só a psicanálise daria conta de resolver, ou da dificuldade de enxergar a noção de felicidade que extrapole o acúmulo de dinheiro, sem ter que dar satisfação aos seus grupos sociais, somente a construção concreta da solidariedade e do cuidado enquanto valor emergente seria capaz de romper com essas amarras.   

Como diriam Luísa Valle, Teresa Cunha e Cristina del Villar-Toribo sobre o significado do “cuidado”, “cuidar é pensar-agir descentrando-se de si (…) é preocupação e inquietação pelo bem-estar de outrem; é afeição vital pelos bens comuns; é sentir com e é querer sentir com; (…) permite que a vida não apenas emerja e se mantenha, mas que possa ser vivida em toda sua abundância”. A solidariedade e o cuidado pode dar sentido àquilo que Sartre situa como as razões ao existencialismo, a uma busca pela vida autêntica e plena, sem castrações sociais injustificáveis. Assim, o cuidado com a sociedade requereria atenção especial aos pobres, para que saiam, daquela situação de pobreza; aos homossexuais e às mulheres para que tenham liberdade para viverem plenamente em sociedade; aos idosos/as para que tenham respeitados os seus direitos em um momento da vida que merecem desfrutar; dentre tantos outros e outras.   

A ode ao individualismo e o horror à novidade trazida pela solidariedade é compreensível, pois mexe não só com as estruturas objetivas desses grupos conservadores, mas desmorona suas próprias subjetividades construídas de uma forma completamente engessada, que a todo custo, e com muito sofrimento para eles mesmos, é repressora da inovação, dos prazeres, da reflexão e do gozo. 

Quem sabe na próxima oportunidade histórica, tenhamos força e sabedoria suficiente para compreender que para acabar com a estrutura posta, requer também o fortalecimento de valores libertadores que nos permita afrouxar as amarras que oprimem objetivamente e subjetivamente a sociedade.  

* Gladstone Leonel Júnior é professor Adjunto da Faculdade de Direito e do Programa de Pós-Graduação em Direito Constitucional da Universidade Federal Fluminense. Doutor e Pós-Doutor em Direito pela Universidade de Brasília. Membro da Secretaria Nacional do IPDMS – Instituto de Pesquisa, Direitos e Movimentos Sociais. 

 

 

Edição: Brasil de Fato