Coluna

Zumbi dos tempos mordernos

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10 de Julho de 2019 às 15:47

Ouça o áudio:

Tornou-se normal se expor a todo mundo, tornar públicos seus assuntos íntimos, até sua vida sexual / Pixabay
No metrô, no ônibus e no trem, vejo quase todo mundo mexendo no celular

Tenho me impressionado muito com a dependência que muitas pessoas têm dos aparelhos que antes eram telefones celulares e agora são também máquinas fotográficas, câmeras de vídeo, agendas, jogos, internet, GPS e mais um monte de coisas.

Tem gente que não consegue ficar um minuto sem desgrudar do aparelho, usando freneticamente, desvairadamente, compulsivamente, essas maquininhas magníficas em termos de tecnologia, mas que se transformaram também numa praga.

No metrô, no ônibus e no trem, vejo quase todo mundo em volta de mim mexendo neles sem parar. Nas viagens de avião, alguns passageiros parecem ter síndrome de abstinência quando são obrigados a desligar seus aparelhos por alguns minutos na hora da decolagem e da aterrissagem.

Andando nas ruas, vejo pessoas aparentemente falando sozinhas, gesticulando. Aí reparo bem e vejo que estão com um fone de ouvido e um microfone na lapela.

Se alguém tivesse ficado em coma há uns quinze ano acordasse agora e saísse às ruas de São Paulo, acharia que a cidade está cheia de loucos, porque antes só pessoas piradas, ou no mínimo muito estressadas, andavam pelas ruas falando sozinhas.

Ouvir conversas privadas de quem a gente não tem nada com isso não era coisa de quem tem um mínimo de educação…

Mas isso é um conceito de outros tempos. Agora, falam gritando nos celulares ao lado da gente e não há como não ouvir.

Tem uns chatos que ficam fazendo reuniões de trabalho, dando ordens, outros contam intimidades ou discutem assuntos pessoais, usando palavrões.

E a gente ouve, querendo ou não. E mais: parece que a maioria das pessoas perdeu a noção de intimidade. Tornou-se normal se expor a todo mundo, tornar públicos seus assuntos íntimos, até sua vida sexual.

Um dia desses, num trem urbano de São Paulo, vi um sujeito reclamando, falando mal do chefe, xingando, e pensei: se fosse há alguns anos, eu acharia que é um doido falando sozinho… Descemos na mesma estação e ele continuava reclamando e xingando.

Aí olhei bem e vi que ele não tinha fone de ouvido nem microfone na lapela. Não estava conversando por telefone.

Estranhamente, achei interessante e pensei: “Ufa! Até que enfim, um doido de verdade, falando sozinho”.

Mas concluí: será que os outros que ficam andando e falando com seus aparelhos são menos doidos? Acho que são é chatos, muito chatos. E ficam espantados quando veem que ainda tem gente que não se deixa escravizar por uma maquininha dessas.

 

 

Edição: Michele Carvalho