FEICOOP

“Nós queremos respeito, queremos autogestão e queremos dignidade”, exige Irmã Lourdes

Em momento de forte desabafo, a religiosa garantiu que a feira a economia solidária vão resistir

Brasil de Fato | Santa Maria (RS)

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A religiosa que conduz o projeto Esperança/Cooesperança garantiu a economia solidária vai seguir provando seu potencial / Fotos: Divulgação

Nos pouco mais de 5 minutos em que utilizou o microfone do cerimonial da Feira Internacional de Economia Solidária e Cooperativismo de Santa Maria, nessa sexta-feira, 12, a coordenadora do evento e vice-presidenta da Cárita Brasil, Irmã Lourdes Dill, deixou um recado para marcar a história do evento e da comunidade que coexiste em sua órbita. Depois de passar por um período de forte pressão, sofrendo no cotidiano as dificuldades enfrentadas pelos projetos que se fragilizaram a partir da ascensão recente de governos de matriz neoliberal, conservadores e subservientes ao grande capital, o discurso foi quase um desabafo.

De saída procurou explicitar pelas palavras do Papa Francisco o conceito que move o militante da ecosol: “Os rios não bebem da sua própria água; as árvores não comem os seus próprios frutos; o sol não brilha para si mesmo; e as flores não espalham sua fragrância apenas para si. Viver para os outros é uma regra da natureza. Todos nós nascemos para ajudar uns aos outros. Não importa quão difícil seja, a vida é boa quando você está feliz, mas a vida é muito melhor quando os outros estão felizes por sua causa”. Segundo a religiosa esse trecho inspira a luta pela economia solidária e movimentos sociais. “Isso nós podemos dizer que é um lastro destes 26 anos da Feicoop, que se propõe construir o bem viver por uma ética planetária”, explicou.

Passado o primeiro momento de congraçamento, as responsabilidades foram colocadas à mesa, não apenas para garantir a continuidade do evento, mas para reforçar a necessidade de cada uma das mais de 3.500 experiências de ecosol que estavam representadas no espaço físico ou na programação da Feicoop serem apoiadas e respeitadas em sua essência: “Nós estamos em um mundo marcado pelo capitalismo selvagem, pelo desemprego, pela pobreza, pela fome, pela miséria e por uma grande massa sobrante nesse universo”, afirmou, para em seguida apontar que isso se dá “não porque não exista comida, não porque não exista trabalho, não porque não existam riquezas, mas sim porque as riquezas e os meios de produção estão nas mãos de poucos”.

Sem temer possíveis olhares de desaprovação que poderiam partir de representantes da prefeitura ou do governo federal que estavam no mesmo espaço, no palco principal – o governo do estado, infelizmente, se ausentou de pronunciar-se -, Irmã Lourdes exigiu: “Nós queremos justiça, nós queremos democracia, nós queremos auto-gestão e é por isso que nasce e floresce nosso movimento”, ressaltando que somente em Santa Maria já são 32 anos de história e, de Feicoop, 26 anos. O conceito de economia solidária emerge, segundo ela, a partir dos Projetos Alternativos Comunitários, atuantes no século passado, a partir dos quais muitos governos estudaram e passaram a incluir propostas em suas diretrizes de gestão”, contando neste aspecto com o olhar afirmativo do ex-governador Olívio Dutra, que entre 1999 e 2003 procurou fomentar o segmento  e fazer com que se compreendesse que a ecosol deveria ser não apenas uma meta de governo, mas sim uma política pública de estado.

Irmã Lourdes na abertura da 26ª edição da Feicoop em Santa Maria

Segundo Irmã Lourdes, nos dias atuais as iniciativas de ecosol estão passando por um momento muito difícil, com a descontinuidade das políticas públicas que foram conquistadas ao longo do tempo à custa de muita luta. Conforme ela explicou, ninguém entre os militantes das organizações do povo quer que os governos se responsabilizem sozinhos, mas que aceitem que o seu protagonismo na construção conjunta dessas políticas. “Nós queremos ajudar a construir, nós queremos ajudar a decidir, esse é o nosso papel enquanto sociedade civil!” afirmou, exigindo que as políticas públicas de economia solidária sejam retomadas, possam permanecer e ser fortalecidas.

Qual a saída para a questão? Lourdes Dill é simples e direta na resposta: “Nós queremos respeito, queremos autogestão e queremos dignidade”. Parafraseando Dom Ivo Lorscheider, afirma “que a organização fica por conta do povo; a mística tem que ter contribuição das igrejas que se prezam para a luta; as tecnologias tem que ser por conta da educação, em especial das universidades; e os recursos financeiros devem ser viabilizados  pelos governos, uma vez que são os governo nas três instâncias que arrecadam e administram nossos recursos”. Os atores da economia solidária, neste sentido, cobram seu direito à participação, “ajudando a definir recursos das políticas públicas para agricultura familiar, para a economia solidária, para os catadores, para os quilombolas, para os indígenas, para a juventude, para a educação e para a saúde”. Dill afirmou ainda, para aplausos da maior parte dos presentes no palco e plateia, que “governo nenhum pode chegar e tirar tudo, isso não é um direito deles”.

No que diz respeito aos esforços que foram somados para garantir a realização da Feicoop, a coordenadora agradeceu as fontes de recursos até ali efetivadas, citando duas emendas parlamentares, uma do deputado Bonn Ghass, de R$ 150 mil, e outra conjunta do deputado Paulo Pimenta e do senador Paulo Paim, de R$ 250 mil (ressalte-se porém, que os recursos ainda depediam de liberação efetiva por parte de ministérios federais, o que se espera que seja confirmado nos próximos dias). Outros projetos menores também foram saudados, assim como a campanha de financiamento coletivo que foi efetivada pela Cáritas Brasil. A participação das equipes de colaboradores e estudantes vinculados à Universidade Federal de Santa Maria, aos grupos integrantes do projeto Esperança/Cooesperança e também a prefeitura municipal, foi reconhecida.

Conforme explicou ao final de sua fala, a coordenação está decidida a dar continuidade a feira, que hoje é a maior da América Latina e uma das mais importantes do mundo: "Sim, queremos continuar,  mas para isso além dos recursos públicos que devem ser investidos na feira, nós precisamos criar um fundo próprio –explicou, justificando que tal iniciativa garante maior poder de autonomia para a organização do evento. “Vamos começar a criar esse fundo agora”, – disse ao chamar para cima do palco uma urna de madeira onde serão depositados os donativos, independendo do valor que cada um se disponha a doar, tanto nos últimos dois dias da 26 Feicoop, quanto em outros eventos que estão sendo programados para o decorrer do ano. As primeiras doações já foram efetivadas na hora, sendo uma resultado de uma rifa realizada pelo grupo do fórum de ecosol de novo Hamburgo e região, e a outra resultado de uma coleta realizada pelo grupo do fórum regional de Caxias do Sul.

Contando com o testemunho e aplauso do público presente, Irmã Lourdes Dill pronunciou as palavras que todos esperavam, encorajando a iniciar já os trabalhos relativos à organização da próxima edição do evento: “Vida longa para a feira de Santa Maria!”

Edição: Marcelo Ferreira