Por que as aulas de línguas estrangeiras não são valorizadas na rede pública?

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Para o professor Adrian Pablo Fanjul, a boa leitura das línguas estrangeiras traz para os alunos uma aproximação com outras culturas / Jaelson Lucas
A desoficialização do ensino de línguas reduz a importância das aulas na escola

A desoficialização do ensino de línguas estrangeiras nas escolas públicas brasileiras, pode prejudicar o conhecimento sobre diferentes culturas e sobre a diversidade linguística de crianças e adolescentes. Além disso, faz com que este aprendizado seja exclusivo ao âmbito extra-curricular ou privado, tirando de muitos jovens brasileiros a oportunidade de se aproximar da cultura latino-americana, no caso do espanhol, ou de aprender a língua inglesa.

A professora das redes pública e privada do ensino de línguas, Priscilla Bordon, explica que o espanhol está sendo retirado dos currículos de línguas estrangeiras para priorizar o inglês, já que a Base Nacional Comum Curricular (BNCC) não traz mais o componente “língua estrangeira” e sim “língua inglesa” nas grades curriculares. 

Ela explica que em regiões fronteiriças no Brasil, o conhecimento do espanhol é muito importante por conta das relações comerciais e sociais entre os cidadãos dos diferentes países. Para ela, esse contato direto entre os povos está ameaçado por conta da retirada da língua espanhola do ensino obrigatório. 

O Brasil de Fato recebeu a pergunta do professor aposentado, Ciro Silva, 62, que quer saber por que as aulas de línguas estrangeiras não são valorizadas na educação básica, principalmente na rede pública? 

Adrian Pablo Fanjul, professor e chefe do Departamento de Letras Modernas na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo, responde: 

“Esse é um processo que faz bastante tempo. De fato, as leis de diretrizes e bases, a partir dos anos 70, vão produzindo algo que alguns especialistas, como Fernanda Castellano Rodriguez, da UFSCAR, chamam de desoficialização do ensino de línguas estrangeiras. Uma ideia de que elas não deveriam ser aprendidas nas escolas, mais sim em cursos extra-curriculares ou no âmbito privado. Isso foi fazendo com que se dê menos importância”, explica o professor Adrian.

“Eu sou contrário a essa tendência e penso que a escola deveria garantir, pelo menos, uma boa leitura nas línguas estrangeiras, pois o aluno pode necessitar para sua formação universitária posterior, ou simplesmente para ter uma visão mais crítica e uma aproximação maior a outras culturas. Tem havido esforços neste sentido, por exemplo, nos centros de línguas, aqui no estado de São Paulo, mas eles, apesar de estarem nas escolas públicas, são crescentemente precarizados na forma de contratação dos docentes e financiados. Por outro lado, eu considero que a reforma do Ensino Médio, que foi imposta pelo governo Temer, piora essa situação ao estabelecer uma única língua, o inglês, como obrigatória e deixar um espaço muito incerto para outras línguas, inclusive para o Inglês. As bases curriculares também são muito imprecisas e descaracterizam a possibilidade de um ensino, que faça com que o aluno, na escola pública, não esteja em condições de menos vantagem do que pessoas que possam pagar um curso privada. Quero destacar, que a universidade pública tem desenvolvido bastante iniciativas para colaborar com os professores do ensino básico de línguas estrangeiras". 

 

Edição: Michele Carvalho