América Latina

Brigada Che Guevara reúne jovens de vários continentes em solidariedade à Venezuela

Durante o mês de agosto, jovens militantes participam de atividades de formação e vivência no país

Brasil de Fato | Caracas (Venezuela)

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Jesús compartilha história de militância estudantil que levou à conquista de residência para universitários no centro de Caracas / Michele de Mello

Cerca de 50 militantes de 13 países aterrissaram no início deste mês em Caracas, capital da Venezuela. Durante 20 dias, eles participam de debates, vivências e atos como parte da Brigada Internacionalista Che Guevara de solidariedade com a Revolução Bolivariana. 

Jovens de 29 organizações de base e partidos venezuelanos foram os responsáveis por promover, coordenar e realizar as atividades da Brigada deste ano.

Depois de passar uma semana na capital, o grupo será dividido em três rotas: uma visita a região central do país para conhecer exemplos de organização estudantil e popular; outros dois grupos visitam a região do planalto ocidental e do sul do país para conhecer as comunas rurais e outros processos de resistência no campo. 

"É um exemplo, mas também é uma motivação para que nos nossos territórios contemos o que vimos aqui. Mas que resistamos, porque também temos lutas de resistência aos desalojamentos, ao assassinato de defensores de direitos humanos", conta Vanessa Álvarez, jovem colombiana de Medellín e militante do Congreso de Los Pueblos. "O que mais me impressionou é a resistência frente a tantas coisas que faltam, e o amor".

As vivências também são práticas. Além de debater os problemas gerados pela crise econômica e política que assola a Venezuela, os brigadistas também ajudam a reformar estruturas, plantar alimentos e conhecer o funcionamento de fábricas que operam sob controle dos trabalhadores.

 



Vanessa Álvares é militante do Congresso de los Pueblos na Colômbia. (Foto: Michele de Mello)

Para Jesús Quintero, coordenador da Brigada, é o intercâmbio direto entre militantes que faz dessa Brigada única. “A importância está na relação entre processos de base. Mais que a diplomacia entre Estados, nós consideramos que os povos têm que se encontrar”, afirma o militante da Frente Cultural de Esquerda da Venezuela. 

Bloqueio midiático

A caravana também conta com delegação brasileira. Thiago Aguiar Silva, advogado popular e militante da União da Juventude Socialista (UJS) confessa que se impressionou com a realidade que se deparou nesses primeiros dias. 

“É impressionante a lucidez dos venezuelanos, dos movimentos organizados que sabem das contradições do processo revolucionário, das insuficiências que o governo pode ter, mas mesmo assim, conseguem enxergar que existe algo muito maior que é o imperialismo, que são interesses estadunidenses no petróleo e na riqueza da Venezuela”, afirma o militante carioca.

A proposta é justamente que esse grupo de militantes ajude a difundir notícias de fontes confiáveis e também produza informação sobre a realidade que conheceram. No entanto, para Jesús só o apoio comunicacional não é suficiente.  “Qualquer cidadão de outro país que vem aqui pode se dar conta de que aqui não existe ditadura. O que queremos é o fortalecimento dos nossos processos internos, fundamentalmente os processos comunais”, finaliza Quintero. 

Aprendizado comum

Os internacionalistas viajam para dar suporte à revolução Bolivariana e aos movimentos chavistas, mas assumem que voltam com mais aprendizados que ensinamentos. 

Vanessa Álvarez, que vem de um país com histórico de luta e conflitos com a Venezuela, celebrou pela primeira vez o dia da independência da Colômbia em território venezuelano. A Batalha de Boyacá, que completou 200 anos, na quarta-feira,(07/08), foi liderada por Simon Bolívar, e por isso é celebrada nos dois países, já que deu início a chamada Nueva Granada, um dos primeiros territórios liberados por Bolívar das mãos da coroa espanhola na América Latina. 

“Aqui pude sentir realmente esse sentimento de pátria, de coração, de sangue, enquanto na Colômbia a data já se tornou algo mais comercial”, conta a líder social. 

 



Thiago Silva e Maria Eduarda Vasconcelos saíram do Rio de Janeiro para participar das atividades na Venezuela. (Foto: Michele de Mello)

Para a estudante de Ciências Sociais e militante paraibana da Pastoral Rural da Juventude, Maria Eduarda de Lima Vasconcelos, além do patriotismo, outra lição da Brigada é a valorização do protagonismo juvenil na política.

“O jovem venezuelano têm voz e participa diretamente das atividades na sua comunidade, dentro do governo e não existe aqui esse preconceito que existe no Brasil de que por ser jovem você não pode ocupar determinados espaços. Eu pude perceber que a juventude é ativa e politizada. Isso é muito importante, porque a juventude é o futuro dos países”, comenta a jovem de apenas 20 anos.

Um dos principais objetivos da Brigada é formar uma plataforma permanente de solidariedade com a Venezuela , que coloque em prática ações de denúncia e apoio internacionais.

“Acredito que movimentos de esquerda devem abraçar a causa venezuelana, porque é uma causa de todo o povo latino-americano . Romper com os valores hegemônicos entre a juventude no Brasil é fundamental para conquistar nossa independência”, finaliza Thiago Silva. 

História 

As brigadas internacionalistas surgem na década de 1930, quando a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS) abre as portas para receber grupos, que apoiassem as transformações em curso em cada um dos Estados socialistas em construção. 

Brigadistas foram enviados também para prestar apoio em conflitos em diferentes partes do mundo, como na Guerra Civil Espanhola e nos movimentos de libertação de países africanos, como Angola e Moçambique, oferecendo trabalho voluntário em prol do progressismo mundial.

Edição: José Eduardo Bernardes