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Brasil em escalada autoritária I: vida nua

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13 de Agosto de 2019 às 10:34

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Quando Bolsonaro diz “eu não peço, eu mando”, ele está apenas em seu momento Olavo de Carvalho, fazendo o papel de bobo da corte / Agência Brasil
Bolsonaro sempre foi a face visível dos porões do Exército

Regimes autoritários não acontecem apenas com tanques nas ruas. A democracia começa a desmoronar quando os ideais do Estado de Direito se convertem em ideologia totalitária, de ataques às liberdades individuais e pilhagem dos recursos naturais. O poder quando exercido de maneira arbitrária, com governantes agindo apenas segundo seus próprios caprichos, é a senha para o endurecimento do regime e a prática de violações em larga escala.

Apesar de Bolsonaro declarar não ter estratégia e sempre se comportar da maneira como se apresenta, as coisas não são bem assim. A estratégia é clara, vem da teoria militar e Bolsonaro não está sozinho nessa empreitada. Em linhas resumidas, o que o governo adota é o seguinte:

1. Operações midiáticas de dissuasão: joga uma isca para distrair e chamar a atenção do “inimigo” para uma declaração medonha, esdrúxula ou bizarra. É a cortina de fumaça para atrair a atenção da mídia, da oposição e da sociedade civil organizada;

2. Avanço rápido e inesperado por outro flanco, em ações de guerra-relâmpago com o propósito de desorganizar o cenário;

3. Feita a lambança, implantação de cabeças-de-ponte, os pontos de comando avançados para esgarçar o torniquete repressivo sem muita resistência, pois tudo em volta está um caos.

No Brasil, os grandes estrategistas de marketing ainda usavam fraldas quando os militares foram aos Estados Unidos aprender estratégias de guerra psicológica. Todo esse arcabouço está a serviço de Bolsonaro. Militares do setor de inteligência, da ativa e da reserva, mexem as cordinhas por sobre os ombros do capitão. Olavo de Carvalho é a cortina de fumaça, o elemento de dissuasão, o bobo da corte a chamar a atenção para o outro lado. Os verdadeiros gurus operam em silêncio, nas sombras, não aparecem na mídia. O general Santos Cruz caiu (da Secretaria de Governo) porque não concordava com os desvarios dos colegas linha dura que comandam o fantoche. 

A substituição de Santos Cruz por um general da ativa, comandante de divisão, integrante do Estado Maior, coloca o Exército no centro da tomada de decisões. Não dá mais para tapar o sol com a peneira. Quando Bolsonaro diz “eu não peço, eu mando”, ele está apenas em seu momento Olavo de Carvalho, fazendo o papel de bobo da corte. 

A estratégia já foi percebida. O Ministro Celso de Mello, do Supremo Tribunal Federal, aproveitou uma decisão, o veto a reedição de medida provisória que tirava a demarcação de terras indígenas da Funai, para deixar claro que sabe o que estão fazendo e sabe aonde querem chegar. O decano classificou a manobra como “comportamento ilícito”; “clara e inaceitável transgressão à autoridade suprema da Constituição”; “resíduo de indisfarçável autoritarismo”; “busca autoritária de maior domínio hegemônico sobre o aparelho do Estado”. 

Bolsonaro sempre foi, em seus quase 30 anos como parlamentar, a face visível dos porões do Exército. Continua assim na presidência da República. As recentes invasões de policiais a reuniões de grupos militantes, em diferentes cidades, sem nenhum pretexto plausível, é um forte indício de que as coisas não estão bem e podem piorar.

Três indicadores balizam a escalada do arbítrio: econômico, controle social e apoio de algumas grandes empresas à ascensão autoritária. Vamos analisar cada um deles nas próximas colunas. O grupo de Bolsonaro está afoito por um estado de exceção que, claramente, começa a se configurar em diversos setores.

Não por acaso, deixa à mostra seu descontentamento com os governos da França e da Alemanha. Ao mesmo tempo, elogia líderes do eixo nacionalista de extrema direita que, assim como ele, dão vazão a uma enlouquecida sequência de agressões contra direitos humanos, minorias, liberdade de imprensa, imigrantes. 

O medo é o dispositivo de poder que rege os desvarios dessa turma, afeita ao discurso que afirma abandonar a velha política, para dar vez a um grupo de seletos planejadores. Pura marmelada. É o tipo de planejamento construído para beneficiar o próprio planejador e seus patrocinadores. 

Às vezes, não é preciso tanques de guerra para implantar ditaduras. O povo acaba clamando por elas. Troca a liberdade pelos atos elementares de comer, consumir, rezar e respirar. É a vida nua, teorizada pelo filósofo italiano Giorgio Agamben. A vida que pode ser morta por decisão do soberano de plantão e de seu maquinário de violência, o qual Bolsonaro está ansioso para aplicar em seus mais dramáticos limites.   

Edição: Daniela Stefano