Coluna

A hora mais escura

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21 de Agosto de 2019 às 13:17

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O negrume que se abateu sobre a avenida Paulista tornou-se a metáfora perfeita do governo Bolsonaro / Jorge Araujo|Fotos Públicas
Noite apressada de São Paulo serve apenas para alegoria à dura vida real

O país está perplexo com as chamas que devastam a Amazônia e transformaram em trevas a tarde de São Paulo. É a maior onda de queimadas dos últimos cinco anos. Entre 1º de janeiro e 18 de agosto, o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), registrou 71.497 focos de incêndio. Um avanço de 82% em relação ao mesmo período do ano passado.

Não se sabe, ainda, com exatidão, qual o peso da devastação promovida por ruralistas, grileiros e outros assassinos da natureza na transformação do dia em noite quando a tarde recém chegava a sua metade. Mais ao sul, na fronteira com o Uruguai, meteorologistas observaram uma lua cor de laranja. O alaranjado seria produto de particulados oriundos dos incêndios no norte do Brasil.

O que se sabe é que a retórica inflamada de Jair Bolsonaro soprou a chama que acendeu o fogaréu. Antes mesmo da sua posse, seu verbo já indicava qual o destino traçado para a Amazônia. Empossado, exacerbou o discurso e nomeou, para postos chave, figuras com perfis, para dizer o mínimo, completamente opostos aos fins traçados para o cargo.

Então, como resultado da verborreia, das opções presidenciais e da falta de fiscalização, tivemos o “Dia do Fogo”, evento inacreditável em qualquer outro país do planeta que não o Brasil sob Bolsonaro. Ao longo da rodovia BR-163, no sudoeste do Pará, fazendeiros fizeram a floresta arder. No sábado, 10 de agosto, o município de Altamira registrou 194 de focos de incêndio. No dia seguinte, 237 focos. Também no domingo, em outro município da região, com o nome irônico de Novo Progresso, detectou-se 203 casos. 

O único préstimo das queimadas e da noite apressada de São Paulo pertence mais à alegoria do que à dura vida real. O negrume que se abateu sobre a avenida Paulista tornou-se a metáfora perfeita do governo Bolsonaro.  Literalmente, mergulhamos na escuridão.  

Algo tão assombroso que evoca imagens da Bíblia, aquele volume espesso que guia a vida de muita gente decente mas que também serve de pedestal para picaretas de todos os matizes embolsarem dinheiro, poder e votos. 

No livro do Êxodo, a nona praga contra o faraó é a escuridão que desce sobre o Egito. Como as pragas são dez, incluindo, para relembrar, a conversão da água em sangue, o ataque de piolhos e moscas, as pústulas, a chuva de rãs, a nuvem de gafanhotos, o granizo, a morte dos animais e dos primogênitos, talvez seja sensato tomar o episódio como advertência.

Como se as trevas, penalizadas pelo sofrimento humano, quisessem avisar dos nossos descaminhos. E convém que a gente se apresse. Algumas das maldições, embora metaforicamente, já estão em pleno curso entre nós. Ou o que você acha que é a destruição do patrimônio nacional senão o ataque dos gafanhotos?

Edição: Daniela Stefano