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Famintos pela língua da luta de classes

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02 de Setembro de 2019 às 10:40
Salvem a Amazônia, Museu de Arte de São Paulo, 23 de Agosto 2019 / Jimmy Bro
A língua de Bolsonaro é genocida, seu comportamento é aniquilacionista

Céus escuros persistem sobre o litoral do Brasil, onde estão as principais cidades do país. Este ano, houve 40.341 incêndios na Amazônia, a maior taxa desde 2010. O presidente do país, Jair Bolsonaro, recusou-se a admitir a gravidade da situação, culpando as ONGs pelos incêndios. Os apoiadores de Bolsonaro devem ser encontrado menos entre os setores populares do Brasil e mais nos grupos políticos coloquialmente chamados de “BBB – Bala, Bíblia e Boi”, isto é, os lobbies das forças armadas, dos evangélicos (em grande parte pentecostais) e dos conglomerados agropecuários e empresas de mineração. Os últimos querem abocanhar grandes extensões dos 1.6 bilhão de acres da Amazônia, o maior sumidouro de carbono do mundo.

O ódio aos povos originários do Brasil surge porque essas comunidades (apenas 0,6% da população) contestam os direitos de propriedade de fazendeiros e garimpeiros sobre a preciosa Amazônia. A língua de Bolsonaro, dos mineiros e dos fazendeiros é genocida, e seu comportamento em relação ao planeta é aniquilacionista. Estas são pessoas perigosas, com motivações financeiras que sobrecarregam a humanidade.

Se não fosse pelo protesto global contra esses incêndios, e se não fosse Evo Morales, da Bolívia, apressadamente contratar um Boeing 747 para lançar água sobre os incêndios, parece improvável que Bolsonaro tivesse feito alguma coisa. O laissez-faire só é evocado quando se trata da destruição da vida das pessoas comuns (austeridade) e do planeta (catástrofe climática); a bandeira do laissez-faire se esconde quando se trata de salvar e apoiar bancos privados internacionais.

Ikuo Hirayama, Pensando em 6 de agosto há 20 anos da Showa

A atitude de Bolsonaro em relação à Amazônia espelha a atitude do presidente dos EUA, Donald Trump, em relação ao planeta. Durante uma discussão sobre os furacões que atravessam o oceano Atlântico e ameaçam a costa dos EUA, Trump disse que consideraria usar armas nucleares contra eles. Esta não é uma ameaça fora de questão. “Jogamos uma bomba dentro do olho do furacão, e isso o atrapalha”, disse Trump. “Por que não podemos fazer isso?”. Bem, porque isso nos aproximaria da extinção do planeta, esse é o porquê. Trump não está sozinho. Em 1961, Francis Reichelderfer, chefe do Departamento de Meteorologia dos EUA, imaginou “a possibilidade de um dia explodir uma bomba nuclear em um furacão no mar”. Felizmente, ninguém com um dedo em uma bomba pensou que essa fosse uma ideia particularmente boa.

Na revisão do acordo nuclear do ano passado, os militares dos EUA acrescentaram 500 bilhões de dólares ao seu enorme arsenal. Isso incluiu 17 bilhões para armas nucleares de baixo rendimento. A própria ideia de “baixo rendimento” como forma de falar sobre armas nucleares mostra como é normal considerar seu uso em campos de batalha – e contra furacões. Com base nessa revisão, o governo dos EUA receberá em breve essas ogivas W76-2 da Pantex, no Texas. Cada uma dessas ogivas possui um rendimento explosivo de 7 quilotons de TNT (metade do poder da bomba lançada em Hiroshima).

No ano passado, a Força Aérea Sueca lançou uma bomba GBU-49 guiada por laser sobre um incêndio florestal. A onda de choque acabou com o oxigênio que alimentou o fogo. Aterrorizante pensar que o antídoto para incêndios florestais será um bombardeio, a cura para os furacões será uma guerra nuclear. É uma guerra contra o planeta, insanidade sobre insanidade, a falta de humanidade no controle.

Chefes de Estado do G7 em Biarritz, França

Tudo isso só parece aceitável por causa do poder singular dos militares no mundo moderno. Embora uma ditadura militar seja vista como imprópria, os líderes civis se apoiam nas forças armadas e na cultura do militarismo para ter autoridade. As soluções preventivas são ridicularizadas, enquanto as soluções militares são vistas como realistas. Na 45ª cúpula do G7 em Biarritz (França), há alguns dias, o governo francês convidou o ministro das Relações Exteriores do Irã, Javad Zarif. Somente os franceses se reuniram com Zarif, que tinha vindo de boa fé para negociar uma saída do impasse no Golfo. Trump bocejou e compartilhou uma piada cúmplice com Boris Johnson, do Reino Unido. A diplomacia foi evitada. Os bombardeiros estão prontos. Trump quer conversar através deles.

Os chefes de governo em Biarritz obtiveram índices de aprovação surpreendentemente baixos – Boris Johnson não tem certeza se permanecerá no cargo por mais um mês, enquanto Justin Trudeau, do Canadá, tem índices de intenção de voto de 35%. Giuseppe Conte, da Itália, já está saindo, enquanto Angela Merkel, da Alemanha, deixará o cargo em 2021. Entre o Brexit e o fiasco na Itália, a confiança nessas pessoas é baixa. No entanto, com uma piscadela, podem destruir nações com seus bombardeios e bancos.

Bolsonaro por Orijit Sen, 2019 | Bolsonaro diz: Vamos queimar a selva ali mesmo (um eco de um slogan de direita na Índia, vamos construir o templo ali mesmo, em cima de uma mesquita).

Bolsonaro, que atualmente está com raiva de Emmanuel Macron por suas críticas aos incêndios na Amazônia, teria adorado estar lá. O Brasil está ansioso por fazer parte da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), o grupo de elite de 36 países que afirmam ser os mais desenvolvidos e, portanto, capazes de atrair investimentos. É provável que a OCDE não leve mais a sério as pretensões do Brasil, pois agora existem dúvidas sobre o compromisso do país com os padrões ambientais da organização.

Macron não convidou Bolsonaro, mas chamou o indiano Narendra Modi. Poucos dias antes do G7, os dois homens se reuniram e discutiram os acordos de armas corruptos que unem a Índia e a França – 36 jatos Rafale chegarão em breve à Índia a um custo de 7 bilhões de euros. O recém-lançado Global Hunger Index coloca a Índia na 103ª posição entre 116 países (o Brasil, graças ao Fome Zero, do ex-presidente Lula, está em 31º). A medida da modernidade não é mais o fim da fome, mas uma força aérea melhor.

Macron abordou a questão da Caxemira – onde sete milhões de caxemires estão presos. Na semana passada, doze políticos indianos da oposição entraram na capital da Caxemira – Srinagar. Eles foram convidados a vir pelo governador para observar a situação, que o governo afirmou ser normal. Os líderes políticos foram detidos no aeroporto e depois enviados de volta para Déli. Essa é a segunda vez que os líderes dos partidos comunistas (Sitaram Yechury e D. Raja) são impedidos de entrar na Caxemira (para saber mais sobre Caxemira, veja nosso Alerta Vermelho nº1). Modi não disse nada. A Caxemira continua sufocada.

Shadi Ghadirian, Uma Solidão muito Alta, 2015

Um poeta grego – Jazra Khaleed – canta a necessidade de uma nova língua nestes tempos feios, dias de austeridade e perplexidade. “Precisa-se de um novo idioma, não de cafetão”, diz ele.

Estou esperando uma revolução me inventar.

Famintos pela língua da luta de classes

Uma linguagem que tenha experimentado a insurgência.

Impossível permanecer dentro das linhas traçadas pelos poderosos, aceitar a conversa sobre bombas nucleares disparadas contra furacões e a realidade de sete milhões de caxemires silenciados. A cumplicidade é inaceitável, impensável.

Luis Ferreira da Costa e outros, uma vigília pelo acampamento, agora um monumento à sua tenacidade

Algumas semanas atrás, passei o dia no acampamento Marielle Vive nos arredores de Valinhos (São Paulo). O Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) organizou mil famílias para viver nessa terra batizada em homenagem à parlamentar socialista assassinada. Esses homens e mulheres trabalham duro para sustentar um mundo que beneficia apenas alguns poucos. No entanto, não conseguem sequer um lugar para morar. O problema deles é a falta de terra e de dignidade, para as quais parece não haver solução. Então, eles se tornaram sua própria solução. No acampamento, conheci duas meninas – Ketley Júlia e Fernanda Fernandes. Elas estavam muito felizes em me contar que todo domingo elas se reúnem na escola do acampamento e estudam inglês. “Quando você escrever seu artigo sobre o nosso acampamento”, elas disseram, “vamos traduzi-lo para o português”. Meu artigo no acampamento delas pode ser lido aqui.

Ketley e Fernanda sabem que esse acampamento é a casa delas. Uma juíza local deu ordem de despejo. Este é o mundo em que vivemos, um mundo onde pessoas comuns se estabelecem em terras pertencentes a um especulador imobiliário, constroem uma comunidade naquela terra, planejam fazer agricultura agroecológica e, ainda assim, é essa comunidade que deve ser desfeita. A dignidade deles não é relevante.

Em seus ossos, Ketley e Fernanda sabem como é ser palestina ou caxemire, ou ser qualquer uma daquelas pessoas que são retiradas de suas terras para que os especuladores possam construir um estacionamento ou um shopping. Elas podem ouvir a língua que experimentou a insurgência. Elas ouvem a língua da luta de classes que sai da boca da elite: o tom abafado do veredicto da juíza, o rugido da escavadeira, o som angustiante da bomba guiada a laser. Como será a língua delas da luta de classes?

Edição: Daniela Stefano