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Brasil em escalada autoritária III: empresários no país das maravilhas

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03 de Setembro de 2019 às 09:00

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O presidente dos empresários no país das maravilhas virou um porco. Resta saber se o empresariado vai se mover. / Zeca Ribeiro / Câmara dos deputados
Bolsonaro, ao que parece, chegou a um limite perigoso para os negócio

Desde o início do atual governo, grandes empresas foram coniventes e avalizaram a escalada autoritária em curso no Brasil. Sob a justificativa de apoio às “reformas”, empresários de diversos setores foram atraídos para o bolsonarismo, assim como moscas são atraídas por melões apodrecendo ao sol. 

Ao apoiar um governo que corrói a democracia, parcela substancial do empresariado assumiu uma aposta de alto risco. Em nome das reformas, fecharam os olhos para o apologista da tortura. Fecharam os olhos para os ataques contra homossexuais, indígenas, negros e mulheres. E fizeram cara de paisagem diante do desmonte da área ambiental. 

Mas a fatura chegou. É alta. Há risco de sanções comerciais. As florestas estão em chamas e o país se encontra em gravíssima sinuca internacional. 

Bolsonaro, ao que parece, chegou a um limite perigoso para os negócios. Aí reside uma importante fragilidade. Com a popularidade em queda livre, talvez algo esteja a acontecer: um desembarque de parte do empresariado. 

Há indicadores desse movimento. Um deles é a entrevista de um dos gurus do establishment, o economista Armínio Fraga, ex-presidente do Banco Central. Fraga disse ao jornal O Globo que é visível o retrocesso na democracia brasileira e que há um sério risco de agravamento. O economista dá a entender, na entrevista, que Bolsonaro precisa ser contido, diante da possibilidade de levar o país ao naufrágio. 

Fraga é um sujeito sempre ouvido pela high society conservadora que decide os rumos do rebanho empresarial. Tem voz junto aos empresários. Exceto quando os empresários não querem ouvir o que ele tem a dizer. Sim, é um paradoxo. Ao falar, Fraga estimularia o ouvinte a não ouvir. Também acontece entre alguns empresários, diante do medo de cair na real. 

O Brasil está assim desde a onda de polarização. Mas as coisas começam a se mover. 

O paradoxo do empresariado é o mesmo de Alice diante do Gato de Cheshire.

Ao ver o bebê transformado em um porco, Alice foge da casa da Duquesa. 

Perdida na floresta, encontra o gato e pergunta:  

___ Você poderia me dizer, por favor, qual o caminho para sair daqui?

___ Depende muito de onde você quer chegar – responde o gato. 

___ Não me importa onde chegar, desde que eu possa sair daqui – disse Alice.

___ Nesse caso, não faz diferença por qual caminho você vá, desde que não fique ai parada. 

Você conhece a história, Alice se moveu e foi em frente. Mas aqui, na nossa bad trip alucinógena, tudo ainda está parado. 

Mas a metamorfose já ocorreu. A popularidade do protoditador caiu. O presidente dos empresários no país das maravilhas virou um porco. Resta saber se o empresariado vai se mover. Os próximos dias prometem fortes emoções.

Edição: Daniela Stefano