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Jornada de lutas é nossa resposta ao Future-se e autoritarismo nas universidades

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04 de Setembro de 2019 às 08:00

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Manifestação de estudantes na esplanada dos ministérios contra a reforma da previdência e cortes na educação em 12/07/2019 / Lula Marques
No próximo sábado (7) estaremos nas ruas para resistir e defender a educação

As universidades públicas brasileiras têm sido um importante palco de resistência às medidas retrógradas do governo Bolsonaro. O conjunto dos setores da educação vem protagonizando um movimento amplo de luta pela educação nas ruas. 

Porém, a resposta do governo a esse amplo movimento de resistência tem sido ataques ainda mais duros contra a educação. 

Após as jornadas de luta que mobilizaram milhares em diversas cidades do país, o governo anunciou um novo corte de 348 milhões no orçamento da educação e apresentou o “Future-se”. 

O programa, que foi apresentado como uma proposta de “modernização” das universidades, tem sido duramente criticado no meio acadêmico por ameaçar a autonomia universitária, tornando o conhecimento e a produção científica refém de interesses do mercado. A autonomia universitária é fundamental para que a produção acadêmica seja livre da ingerência de quaisquer governos, assim como dos interesses empresariais que queiram “pagar a banda, e escolher o som”.

Além da crítica ao conteúdo, também é questionável a forma, pois a proposta foi apresentada sem debater com aqueles que tem maior domínio técnico e conhecimento da situação das universidades.

Contraditoriamente, esse programa tenta propor uma alternativa à crise orçamentária das universidades, que foi gestada pelo próprio governo, através dos consecutivos cortes no recurso destinado à educação. Vale lembrar da Emenda Constitucional 95, que quando aprovada contou com o voto do atual presidente da república ainda enquanto parlamentar federal. 

Além disso, o governo sempre justificou os cortes com o argumento de que o problema das universidades era má gestão de recursos. Agora apresenta uma proposta desresponsabilizando o Estado de seu dever estabelecido pela constituição pelo orçamento da educação, e responsabilizando as instituições pela captação de recursos através da venda de serviços educacionais e de pesquisa, transformando a universidade num verdadeiro balcão de negócios.

Não bastasse a luta pela sobrevivência das universidades, que estão passando por dificuldades para manter seu funcionamento diante dessa crise orçamentária, a comunidade acadêmica também tem lutado contra o autoritarismo. Em diversas universidades, o governo tem nomeado interventores, desrespeitando o processo democrático de eleição dos reitores das instituições federais, substituindo, desta forma, o voto e opinião dos milhares que compõem a comunidade acadêmica pelo voto único de Bolsonaro. 

Com tudo isso, dá para entender que o governo não tem pretensões de recuar no seu programa de desmonte da educação como um pilar fundamental do desenvolvimento nacional e da construção de um país democrático e soberano. Para construir as condições de uma resistência capaz de impor alguma derrota nessa acelerada empreitada do governo é fundamental que haja uma combinação nas ações entre os setores da educação, com o objetivo de consolidar uma hegemonia na opinião dentro e fora das universidades. 

Por isso, é fundamental resistir através de uma campanha em defesa da educação que tenha a capacidade de envolver amplos setores, que dispute a opinião e consolide uma hegemonia nesse tema.

Além disso, o processo de unidade entre estudantes, docentes e técnicos deve desembocar na construção de um projeto de reforma da universidade voltada para os interesses nacionais e populares. 

É necessário resistir ao Future-se, mas é necessário, sobretudo, apresentar uma proposição construída pelas mãos de quem entende verdadeiramente dos dilemas da educação brasileira.

No próximo sábado (7) estaremos nas ruas novamente para resistir aos ataques, com a responsabilidade de seguir enfrentando esse governo e defendendo a educação em tempos difíceis para alcançar conquistas.

Edição: Daniela Stefano