Cultura

Outro mundo é possível: a sensibilidade e criatividade de João das Neves

Exposição homenageia e resgata trajetória de um dos maiores nomes do teatro brasileiro

Brasil de Fato | Belo Horizonte (MG)

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Na mostra "Outro mundo é possível", os visitantes vão poder passear por algumas peças que marcaram carreira do dramaturgo / Foto: Guto Cortês

Há um ano, em agosto de 2018 João das Neves deixava os palcos da vida. No legado, mais de seis décadas de dramaturgia, escritos, narrativas e questionamentos. O ator, diretor, escritor e roteirista foi um dos fundadores do Grupo Opinião, que articulava protestos, estudos e difundia a dramaturgia nacional. Por ele passaram Zé Kéti, João do Vale, Maria Bethânia, Paulo Autran, Nara Leão e os diretores Augusto Boal e Flávio Rangel, entre outros. João das Neves também foi peça fundamental na construção do Partido Comunista e do Centro Popular de Cultura (CPC) da União Nacional dos Estudantes UNE.

Na exposição "Outro mundo é possível", os visitantes vão poder passear por algumas peças que marcaram essa trajetória. No primeiro momento da mostra, intitulado “Anos de Chumbo” o espetáculo "O último carro", premiado nacional e internacionalmente, marca a veia artística política de João. O enredo da peça trata de uma viagem onde os passageiros só descobrem a ausência do motorista após o veículo já estar em movimento. À época a peça foi considerada uma analogia aos tempos vividos pelos brasileiros.

No segundo momento da mostra os visitantes vão ser imersos nas passagens de João das Neves por diversos territórios do Brasil. Intitulada “Deslocamentos”, aborda o vanguardismo do artista em abandonar os palcos convencionais do teatro e produzir suas peças em parques, prédios, nas ruas, túneis e até em uma pedreira. O trecho também conta com uma instalação que retrata cenários como o sertão e a floresta amazônica, numa narrativa sobre as vivências de João das Neves com diversas comunidades tradicionais brasileiras.

Em “Camaradas” a exposição traz as cenas mais recentes interpretadas pelo artista, abordando conflitos atuais na sociedade, como, por exemplo, as novas configurações familiares. No último espaço, os visitantes vão poder conhecer um pouco mais sobre a vida íntima de João das Neves, com objetos pessoais e também uma instalação inspirada na biblioteca do artista, que colecionava mais de sete mil livros. Toda a exposição também conta com vídeos de trechos de cenas, áudios do artista, textos e fotos.

João das Neves: atual e necessário

Titane, que por muitos anos foi companheira de vida, luta e de palcos de João das Neves, ressalta que o artista passou por momentos históricos que marcaram a sociedade brasileira e isto se reflete em seu legado. Pela trajetória e o olhar sobre a sociedade, as obras de João são extremamente atuais para o momento vivido pelos brasileiros. “Ele nunca ignorou o lado cruel do ser humano e das sociedades que esse ser humano pode desenvolver, mas o João, mesmo tendo muita consciência dessa complexidade, nunca abriu mão de pensar em uma saída para o povo e isso é muito claro no trabalho dele”, afirma a cantora.

Lazarillo de Tormes volta aos palcos

Além da exposição, a curadoria também está organizando aulas temáticas que se entrelaçam com a trajetória de João das Neves. As datas serão divulgadas em breve, mas nomes como o escritor João Silvério Trevisan, os atores Laura Castro e Rodrigo Jerônimo e os músicos Titane e Rufo Herrera estão entre os palestrantes.

Outro fruto da exposição é a retomada da peça "Lazarillo de Tormes", última trama encenada pelo artista. Em 2017 o ator retornou aos palcos e a peça ganhou trejeitos de circo e um texto em cordel, poesia típica do Nordeste. A peça estará em cartaz na Funarte entre os dias 03 e 6 de outubro, de quinta a sábado às 20h e no domingo às 19h.

SERVIÇO:

Exposição:  "Outro Mundo é Possível" - dedicada ao dramaturgo, escritor e diretor João das Neves

Visitação: Academia Mineira de Letras, rua da Bahia, 1466, Lourdes -Belo Horizonte de terça a sexta-feira - 11h às 21h30 | Sábados e domingos - 10h às 16h

Entrada gratuita - exposição acessível para surdos, cegos e dispõe de serviço de visitas guiadas.

Edição: Elis Almeida