Coluna

Veremos as raízes encontrarem umas às outras

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09 de Setembro de 2019 às 11:47
O Desacordo, 2014 / John Pule
Oceanos subirão o suficiente para desalojar mais de 250 milhões de pessoas

Na semana passada, a Agence France Presse pôs as mãos em um relatório preliminar da ONU chamado Relatório Especial sobre o Oceano e a Criosfera na Mudança Climática. Esse documento de 900 páginas é um estudo dos oceanos do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC), o órgão da ONU que ganhou o Prêmio Nobel da Paz em 2007. Os trechos disponíveis nos expõem a uma leitura arrepiante. “Os mesmos oceanos que nutriram a evolução humana”, diz o documento, “estão prontos para desencadear a miséria em escala global, a menos que a poluição de carbono que desestabiliza o ambiente marinho na Terra diminua drasticamente”.

A menos que haja cortes profundos nas emissões de carbono geradas pelos seres humanos, pelo menos 30% do pergelissolo (terra, gelo e rochas permanentemente congelados) de superfície do hemisfério norte poderão derreter nas próximas oito décadas. Isso significaria que em 2050 os oceanos subirão e os “eventos extremos relacionados ao nível do mar” destruirão ilhas e cidades baixas. Poucos cientistas estão convencidos de que o aquecimento pode ser controlado no limite de 1,5 °C; eles acreditam em 2 ºC. Com esse aumento, os oceanos subirão o suficiente para desalojar mais de 250 milhões de pessoas, o equivalente à população inteira do Brasil e da Argentina juntas.

O relatório especial final sobre o oceano será divulgado em 25 de setembro, dois dias após uma cúpula especial de ação climática organizada pelo secretário-geral da ONU, Antonio Guterres, em Nova York. No final de agosto, Guterres falou na Conferência Internacional de Tóquio sobre o Desenvolvimento Africano, onde observou que poucas coisas prejudicam tanto o desenvolvimento como desastres ambientais Ele tinha em mente o terrível ciclone Idai que atingiu Moçambique, destruindo 90% da área em torno da cidade de Beira. Assistir a essa filmagem feita por drones, da Federação Internacional da Cruz Vermelha e da Sociedade do Crescente Vermelho, é arrepiante:

Imagens do drone da IFRC do ciclone Idai em Beira, Moçambique, 2019



Esses desastres não são difíceis de encontrar. O furacão Dorian varreu o Caribe com ferocidade. Guterres mencionou os incêndios na Amazônia, um crime contra a humanidade – como colocou a organização camponesa Via Campesina. É perturbador assistir a esse pequeno vídeo – Brasil em Chamas – feito pelo Brasil de Fato:

Brasil de Fato, Brasil em Chamas, 2019

“Décadas de ganhos em desenvolvimento sustentável podem ser eliminadas da noite para o dia”, disse Guterres sobre esses desastres em cascata. E haverá mais acontecimentos desse tipo. “Estamos no caminho certo para que 2015-2019 sejam os cinco anos mais quentes já registrados”, ironizou Guterres. A Organização Meteorológica Mundial (OMM) diz que agora temos a maior concentração de CO² na atmosfera da história. No que diz respeito aos oceanos, a OMM mostra que a temperatura das águas nos 700 e 2000 metros superiores, em 2018, foram “as mais altas ou as segundas mais altas que se tem registro”.

As responsabilidades estão em diferentes níveis. Moçambique e Brasil enfrentam o impacto deletério da catástrofe climática. No caso brasileiro, também há culpados mais próximos – as empresas madeireiras e mineradoras. Quando se trata de apontar dedos, nem duas mãos são suficientes. Os dedos devem ir em direção aos conglomerados financeiros e energéticos que ganham dinheiro com carbono. Eles também apontam vigorosamente os países do G-7 e a Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) que se recusam a negociar de boa fé as questões climáticas.

Os dedos seriam negligentes se não apontassem com ferocidade especial o comportamento ambivalente dos países desenvolvidos. O professor T. Jayaraman, do Instituto Tata de Ciências Sociais (Mumbai), disse ao Correio da Unesco que as conversas sobre impostos e comércio de carbono é uma cortina de fumaça. Por que esses governos simplesmente “não exigem determinadas metas a serem alcançadas por certos setores? Devem haver regulamentos mais rígidos. Caso contrário, devem ser penalizados”.

“Acreditar que você pode convencer as empresas a agirem corretamente ou assustá-las para que tomem as medidas certas me parece um pouco absurdo”, disse Jayaraman. Os países desenvolvidos, disse ele, precisam “fazer a conversão para tecnologias verdes rapidamente”, o que não significa apenas mudar de combustível fóssil (carvão para gás), mas adotar energias renováveis. Por outro lado, os países em desenvolvimento devem também mostrar avanços, mas de maneira sensata. O transporte público na cidade chinesa de Shenzhen, por exemplo, é totalmente elétrico – com o plano de fazer com que todo o transporte na cidade siga o exemplo:

South China Morning Post, Shenzen: o pioneiro mundial em veículos elétricos, 2018

A prevaricação no tratamento do tema da catástrofe climática é a mesma com a qual o capitalismo enfrenta as questões morais da fome, da falta de moradia e da desigualdade. Existem teorias encantadoras que permitem à classe capitalista continuar se apropriando de quase toda a riqueza social, enquanto os trabalhadores e camponeses vivem à beira da sobrevivência.

Não é a falta de iniciativa para enfrentar o problema da catástrofe climática; mas a ganância, as profundas raízes culturais do capitalismo, que impedem uma solução para a catástrofe social e climática.

As respostas são dadas para os sintomas, não para as causas deles. Conforme as águas sobem, Jacarta, capital da Indonésia, constrói um paredão de 24 metros de altura, mesmo que 40% da cidade já esteja abaixo do nível do mar. O presidente da Indonésia, Joko Widodo, sabe que essa não é a solução. Ele anunciou que o quarto maior país do mundo mudará sua capital para a ilha de Bornéu.

Enquanto isso, a ONU realizou uma discussão preliminar sobre um novo acordo sobre a Convenção das Nações Unidas sobre as Leis do Mar para conservar e sustentar a diversidade biológica marinha. Tudo parece tímido – o Fundo Voluntário serve apenas para oferecer recursos para que esses pequenos Estados insulares possam participar dessas reuniões. Nada mais está sobre a mesa. Não existe um compromisso real para combater a subida do mar ou a acidificação do oceano. Fakasoa Tealei, de Tuvalu, disse que as estruturas existentes são “ineficazes” e mesmo toda a discussão pode não agregar “qualquer valor prático” ao problema. A honestidade de Tealei e a rendição de Widodo ao mar são canários desapontadores em um poço de carvão sem fim.

Agung Mangu Putra, Abstraki Ikan, 2001

Tonga, o arquipélago ao sul de Tuvalu, no Oceano Pacífico, está vulnerável às águas que estão subindo. As principais ilhas de Tonga construíram paredes marítimas, mas seus moradores podem olhar as águas e ver suas ilhas menores deslizando para o oceano. Para onde iriam os 100 mil tonganeses se as águas subirem? Konai Helu Thaman, um dos grandes poetas de Tonga, escreveu décadas atrás sobre seu sonho de outro mundo.


Nós não conseguimos ver

lá longe na distância 

nem podemos ver

o que costumava estar lá

mas hoje podemos ver árvores

separadas pelo vento e pelo ar

e se ousarmos olhar

sob o solo

vamos achar raízes 

tentando se encontrar

e em seu silencioso entrelaçamento

criam a paisagem escondida 

do futuro.




Ivana Kurniawati, Nós não somos macacos, 2019

A nordeste da ilha de Tonga fica a Papua Ocidental, a metade da ilha de Papua Nova Guiné que é mantida pela Indonésia. Fortes sentimentos de independência despertam mais uma vez na Papua Ocidental, depois que os estudantes foram tratados de forma vergonhosa pelos nacionalistas indonésios, na cidade de Surabaya. Chamados de “macacos” por esses nacionalistas, os radicais papuanos reverteram a ordem das coisas: Papua merdeka, itu yang monyet inginkan (Papua livre, é isso que os macacos querem). Um dos líderes da luta – Surya Anta – foi preso. A situação é muito incerta e a internet em Papua Ocidental está cortada. Em uma carta semanal futura, faremos uma entrevista com Benny Wenda, do Movimento de Libertação Unido da Papua Ocidental.

Um dos resíduos remanescentes das lutas pela independência na América do Sul tem sido a questão da integração continental. Elas ocorrem regularmente, mais recentemente durante a guinada à esquerda no continente. A questão da integração surgiu como parte da luta de classes regional – os termos da integração deveriam apenas beneficiar a oligarquia e as empresas multinacionais ou a integração é um meio para o desenvolvimento socialista?

Na semana passada, no Rio de Janeiro, como parte de uma série co-organizada pelo Instituto Tricontinental de Pesquisa Social, Monica Bruckmann e Beatriz Bisso, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, juntaram-se a Mariana Vazquez, da Universidade de Buenos Aires, e Olivia Carolino, do Tricontinental, em uma sala lotada de acadêmicos, estudantes e militantes para discutir esses temas. A ideia de integração é premente, mas não uma integração sem um papel claro de seu caráter de classe. A globalização é uma forma de integração capitalista; a integração de países em um programa da classe trabalhadora e o campesinato é uma questão totalmente diferente. Como fazer isso quando o equilíbrio de forças é adverso? Essa é a pergunta sobre a mesa. Essas apresentações irão compor um livro nosso.

Há dez anos, Hugo Chávez, da Venezuela, discursava na conferência climática em Copenhague. Chávez evocou o regionalismo da América Latina – principalmente a Aliança Bolivariana para as América (Alba). Seus comentários mais afiados ocorreram quando ele apontou o dedo para os indivíduos e países mais ricos do mundo cuja atitude “mostra alta insensibilidade e falta de solidariedade com os pobres, os famintos e os mais vulneráveis a doenças e desastres naturais”. Chávez disse que os mais ricos devem fazer duas coisas: primeiro, “estabelecer compromissos vinculativos, claros e concretos para a redução substancial de suas emissões”; segundo, “assumir obrigações de assistência financeira e tecnológica aos países pobres para lidar com os perigos destrutivos das mudanças climáticas”. Simples.

Chávez viu as raízes se entrelaçando. Mas essa não é uma perspectiva compartilhada pelo G7 e pela OCDE. Eles só vêem os frutos que querem colher e comer sozinhos. Essa é a atitude deles. É a atitude do saqueador, não do ser humano.

Edição: Daniela Stefano