Rio Grande do Sul

Coluna

Felipe Neto e a ingenuidade da esquerda sobre a guerra híbrida

Imagem de perfil do Colunistaesd
"Não sendo compreendidas, [as redes sociais] podem nos destruir por dentro"
"Não sendo compreendidas, [as redes sociais] podem nos destruir por dentro" - Ilustração: Juan Chirioca
A guerra híbrida está muito bem descrita no documentário 'Privacidade Hackeada'

A esquerda tem uma dificuldade enorme de compreender que a comunicação é a principal arma das guerras modernas. As Redes Sociais, capazes de universalizar o individual e individualizar o universal de acordo com o perfil de que cada individuo, são o instrumento a municiar diuturnamente nossas mentes com balas que, não sendo compreendidas, podem nos destruir por dentro. As Revoluções Coloridas no mundo árabe, que destruíram nações inteiras, transformando-as em amontoados de gangs, tribos e milícias são demonstração disto. A descrição do horror das Guerras Híbridas está muito bem descrito no documentário “Privacidade Hackeada” no Netflix. “Nada é o que Parece”, diz uma das protagonistas do documentário a certo ponto.

Não me alongarei sobre o tema geral, mas falo aqui do tema específico. Felipe Neto é um dos Youtubers mais seguidos do Brasil. Ele granjeou boa parte de seus seguidores entre crianças e adolescentes, vendendo produtos e pautas neoliberais inalcançáveis aos pobres, mas formadoras de uma cultura e um caldo super-individualista, da meritocracia de classe dos que tem, etc. Politicamente, sempre foi um feroz opositor ao PT, não escondia seu ódio ao partido. Ódio de classe, aquele ódio empedernido da classe média, que criticava Lula por ter transformado “aeroportos em rodoviárias cheias de pobres”.

Felipe Neto era isto antes da eleição de 2018 e nunca escondeu. No 1º turno da eleição fez campanha para o PSDB, é claro. No 2º turno, há quem diga, ele teria dito que votaria em Haddad, mas tapando o nariz. Depois seguiram os ataques ao PT. Pra ele, “Bolsonaro, Olavo de Carvalho e o PT tem total simetria.”

Reprodução: Twitter 

Notem que o tuíte é de agosto de 2019. Diferente do período de disseminação de ódio ao PT do qual participou, Felipe Neto agora propaga a mesma posição divisionista propalada por tucanos: a polarização que supostamente o PT também promoveria não seria o caminho, e sim um outro, de rejeitar o bolsonarismo e o PT como dois lados de uma mesma moeda. E posições como estas vêm no entremeio de outras, recheadas de identitarismo que parece soar como luta por direitos, mas que têm por único objetivo a divisão dos que precisariam estar mais unidos do que nunca pra combater a classe dominante.

Ele continua atacando ideologicamente o PT porque ele e quem o paga são neoliberais do capital financeiro internacional. Mas por que até hoje o PT não constituiu um grupo de inteligência para lidar com o tema das redes sociais? Até poderosas lideranças do PT e da esquerda abrem caminho para que gente como Felipe Neto seja introduzido em nossa bolha, para no momento conveniente, a eles é claro, explodi-la. A “Revolução Colorida” calçada no identitarismo é usada como instrumento de divisão da classes, sob os auspícios da ingenuidade militante de uma esquerda que anda apartada da classe que deveria não só representar, mas servir de luzeiro para a permanente Luta de Classes.

A seguir, publico o desabafo de um militante petista que escreveu ao senador Humberto Costa. Não declinarei o autor. Mas ao publicá-lo aqui, assino em baixo:

Caro Müller, segue o comentário que Mandei pro sen. Humberto:

Nossa bolha está sendo invadida por centenas de digital influencers comprometidos com a direita, ou Ciro Gomes, o que dá no mesmo. Recentemente desmascaramos o Bruno Sartori, @brunnosarttori, que ficou conhecido pelas Deep Fakes do Bolsonaro. O cara era adorado pelos petistas, fez uma vaquinha para comprar ‘equipamento’, não divulgou o valor arrecadado. Mas começou debochar da prisão do Lula na TL, alguns seguidores se revoltaram e me avisaram que ele era filiado no PTB. Localizei a ficha do cara, denunciei na TL. Fui atacado por centenas de perfis, a maioria fakes com a rosinha do PDT no perfil. Ou seja, o rapaz é um cabo eleitoral do Ciro que foi introduzido na TL petista. Tem diversos prints onde o rapaz debocha da condição de Lula como prisioneiro e faz elogios rasgados ao Ciro. Nós da militância do PT tentamos desmascarar o cabo eleitoral do Ciro e tivemos relativo sucesso. Num dia o cara perdeu quase mil seguidores. Infelizmente ele voltou a ter cartaz no meio dos petistas, graças aos caras que administram o perfil do Lula. Hoje o moleque estava se gabando pra todo mundo que o Lula está seguindo ele. Até achei que era mentira, mas infelizmente era verdade. Diante disso fica difícil alegar que o cara está a serviço do adversário. Felipe Neto é o mesmo caso, só que em grande proporção. O rapaz é um vigarista, foi condenado por propaganda enganosa voltada contra criança no Conar. Ele e o irmão exploram propaganda subliminar contra crianças. Esse cara é um grande cabo eleitoral do Ciro, e está tomando conta da bolha virtual da esquerda. Esse cara é um dos principais difamadores do PT nas redes. Há pouco mais de um ano, postou um vido pedindo cadeia pra Lula e Dilma, chamando Chico Buarque de imbecil, chamou a jornalista Cynara de filha da puta e mandou seus seguidores atacarem a jornalista. O moleque tem dezenas de vídeos homofóbicos, mas agora virou protetor dos gays graças a jogada de marketing em cima da proibição do Crivela. O Lindberg, Maria do Rosário e a própria Glesi bajularam o moleque nas redes. Sem falar na Jandira e Manuela do PC do B. Eles não percebem que para a militância isso é uma espécie de aval?

Edição: Marcelo Ferreira