Coluna

Pisante novo

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"É preciso pisar de outro jeito e olhar com outro olhar os lugares onde se põe o pé e a vida"
"É preciso pisar de outro jeito e olhar com outro olhar os lugares onde se põe o pé e a vida" - Foto: Marcus Perez/CUT-RS
Mais um milagre na vila Santo Operário!!! Ou, melhor, solidariedade pura.

Tem momentos na vida que são especiais. Às vezes, improváveis, imprevisíveis e absolutamente inesperados. E que ficam gravados na memória pelo resto da vida. Ou da eternidade.

A caminhada do Grito das Excluídas e dos Excluídos seguia pelas vilas Santo Operário, União dos Operários e comunidades vizinhas em Canoas no 7 de setembro da Independência e da soberania. De repente, sinto um desconforto. Algo está errado. Problemas num dos pisantes, meu sapato velho que usei de novo porque estava ameaçando chuva.

Alguém tinha tropeçado e pisado no calcanhar do meu sapato, inadvertidamente, no meio das centenas de participantes, paradas aqui e ali, celebração, encenações, falas sobre os diversos temas do Grito de 2019: “Esse Sistema não Vale! Não vale feminicídio, intolerância, guerra, desunião, violência, corrupção, preconceito, ódio, miséria, latifúndio, injustiça, racismo. Lutamos por Justiça, Direitos e Liberdade, com saúde, terra, aposentadoria digna, educação: VIDA EM PRIMEIRO LUGAR.” Acho que foi o Müller, da Rede Soberania, sempre correndo para cima e para baixo, e fazendo competente cobertura via celular e redes sociais de todas as mobilizações populares em todos os lugares possíveis e necessários onde o povo está.

Meu sapato estava se abrindo todo. Impossível continuar. Ainda faltavam quilômetros para o fim da caminhada. Qual a solução naquela altura do campeonato? Cortar pela metade um dos cadarços, amarrá-lo em torno do pisante em frangalhos e tentar continuar, pé firme no chão. Nenhum romeiro e militante deixa pelo meio uma caminhada, uma Romaria, um Grito das Excluídas e dos Excluídos, ainda mais na vila Santo Operário, que em 2019 celebra 40 anos de ocupação.

Paro, mostro para as pessoas o que aconteceu, acho um muro baixo na frente de uma casa, peço uma tesoura para a dona da casa que veio ver o que está acontecendo. Alguns dos romeiros a conhecem e cumprimentam. Ela busca a tesoura e diz: “Meu filho tem uns tênis que não usa mais.” – “Mas ele não vai precisar deles?”- “Não, ele não precisa deles. Vou te dar os tênis.”- “Mas como e quando vou poder devolvê-los?” – “Não te preocupa com isso. Ele não os usa mais.” E já me alcança os tênis, ainda em bom estado.

Ponho o novo pisante no pé ante os aplausos de quem está ao redor. Todo feliz, vou contando para todo mundo o que aconteceu. Milagre! Mais um milagre na vila Santo Operário!!! Ou, melhor, solidariedade, solidariedade pura. Desde então uso os tênis recebidos de presente em tudo que é lugar, e estou sendo elogiado: “Tá todo jovem, de acordo com o tempo, elegante!!!”

De vez em quando na vida é preciso abandonar sapatos velhos e calçar pisantes novos. Novos horizontes se abrem. É preciso pisar de outro jeito e olhar com outro olhar os lugares onde se põe o pé e a vida.

É lição de solidariedade que não dá para esquecer. Os ocupantes de 1979 que buscaram um lugar para morar e ter uma vida mais digna continuam com seu olhar de ajudar os outros e solidários com seus problemas, por menores ou maiores que sejam. Ainda mais nestes tempos difíceis, de muito ódio, intolerância, individualismo.

Diz o Papa Francisco, em vésperas do Sínodo da Amazônia, que vai acontecer em outubro: ‘Tudo está interligado, como se fôssemos um. Tudo está interligado em nossa Casa Comum’.

E o Papa Francisco faz um anúncio e uma convocação: “Desejo promover no dia 14 de maio de 2020 um Encontro mundial que terá como tema ‘Reconstruir o pacto educativo global’: um Encontro para reavivar o compromisso em prol e com as gerações jovens, renovando a paixão por uma educação mais aberta e inclusiva, capaz de escuta paciente, diálogo construtivo e mútua compreensão. É necessário construir uma ‘aldeia da educação’, onde, na diversidade, se partilhe o compromisso de gerar uma rede de relações humanas e abertas.

Num percurso de ecologia integral, coloca-se no centro o valor próprio de cada criatura, com relação com as regras e com a realidade que a rodeia, e propõe-se um estilo de vida que rejeite a cultura do descarte. Juntos, procuremos encontrar soluções, iniciar sem medo processos de transformação e olhar o futuro com esperança. Convido a cada um e cada uma para serem protagonistas desta aliança, assumindo compromisso pessoal e comunitário de cultivar, juntos, o sonho de um humanismo solidário, que corresponda às expectativas do homem e do desígnio de Deus. Papa Francisco, 12.09.2019.”

Estas palavras e este chamamento do Papa Francisco dialogam com o gesto da senhora que me deu pisantes novos de humanismo solidário, de responsabilidade e compromisso com a Casa Comum.

Edição: Marcelo Ferreira