FLUP 2019 traz a potência da produção literária negra das periferias

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Mosaico Cultural

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A poeta Elisângela Rita nascida em Luanda, Angola fará parte do elenco de slammers internacionais no Slam da FLUP / Fluprj | Reprodução
O poeta e ensaísta Solano Trindade, é o autor homenageado desta edição

A FLUP é a Festa Literária Internacional das Periferias que tem como essência celebrar a produção periférica dos moradores da cidade do Rio de Janeiro, em territórios que tradicionalmente são excluídos dos programas literários.

Essa ano, a festa, que acontece entre os dias 16 e 20 de outubro, chega à sua 8º edição. Desta vez, as atividades vão se concentrar no centro da cidade, por conta do surto de violência que a capital têm sofrido.

O local escolhido é o MAR, o  Museu de Arte do Rio, que fica próximo ao Cais do Valongo, o maior porto escravagista da história mundial, batizado de “Pequena África” pelo sambista carioca Heitor dos Prazeres.

O produtor cultural, escritor e co-fundador da Festa Literária das Periferias, Julio Ludemir conta que além da programação, a FLUP precede um processo de formação,  que já resultou na publicação de 20 livros de escritores das favelas cariocas. Ele fala da importância de se pautar a literatura periférica no Brasil.

“A principal diferença da FLUP para os demais festivais literários é o compromisso de procurar novas vozes para a literatura brasileira que revela e escuta uma produção periférica, não apenas no sentido territorial mas que passa pelo feminismo negro, pela interseccionalidade, que reconhece, detecta e dialoga com uma produção trans e que vai, desde quem é surdo e fala com o próprio corpo a algo que passe pela potência de uma produção literária negra no Brasil, que foi ignorada ao longo da história”, explica.

O homenageado desta edição será o poeta, ensaísta e folclorista pernambucano, Solano Trindade, falecido nos anos 70, que usou suas poesias afiadas para denunciar as desigualdades sociais brasileiras.

Durante a festa, será encenado o espetáculo teatral o “Vento Forte Africano”, de Solano Trindade, com dramaturgia de Elisa Lucinda e Geovana Pires.

Além disso, a programação contará com batalha de poesias e mesas de debates sobre sexismo, racismo, discriminação de idade, homofobia e gordofobia. Além da presença de escritoras e especialistas nacionais e internacionais.

A cantora e atriz Natielly Castro, que prefere ser chamada de poeta, ao invés de poetisa,  integra o grupo “Poetas Vivos” e o “Slam das Minas”, no estado do Acre.

Ela é uma das convidadas para participar da batalha de poesias, o Slam da FLUP,  junto com mulheres de todo o Brasil, da Angola, da África do Sul, Alemanha, entre outros países.

Natielly fala da importância de transmitir a poesia que está à margem de uma sociedade, que apenas valoriza e reconhece uma literatura europeia e que vislumbra um ideal romântico, racista e sexista.

“Nós somos marginalizados a todo tempo na sociedade enquanto pessoas faveladas. Então, quando a gente pega a nomenclatura marginal e leva para dentro da poesia de uma forma positiva, a gente acaba fazendo um contraponto a essa sociedade racista. Eu faço poesia de gente preta, eu produzo literatura negra e o que diferencia isso da poesia regular é que a poesia regular é europeia e embranquecida, que só fala de amor e flores. A poesia regular diz que eu sou poetisa e não poeta. Poetisa escreve sobre amor, eu também, mas nem de longe essa é minha pauta principal”, aponta Natielly.

Natielly explica que esta edição da FLUP marca um momento histórico e político  para a literatura brasileira, em que a poesia é produzida e apresentada por artistas negros, das favelas  que questionam e afrontam a sociedade.

Edição: Michele Carvalho