Coluna

Viveremos a volta dos homens-gabiru?

Imagem de perfil do Colunista
04 de Outubro de 2019 às 09:58
Podemos estar imersos agora em uma política que termine por trazer novamente esta realidade de muita miséria e sofrimento para o nosso povo / EBC
Depois de cair fora do mapa da fome mundial, estamos voltando

É possível encontrar na literatura nacional vários termos que buscam associar a figura do homem a outros animais numa tentativa de melhor definir um determinado status sócio-econômico-cultural. Com exemplos posso transmitir melhor a idéia: Josué de Castro, médico e geógrafo recifense, cunhou a metáfora homem-caranguejo, ainda na década de 1940, para definir uma “espécie” de homem que habitava os mangues do Recife, que nada mais eram que o resultado de um conjunto de fatores sociais e econômicos que o empurravam para uma situação de miséria e muita fome.

Poderia escrever parágrafos aqui discutindo metáforas semelhantes, como, para trazer mais um exemplo, está presente na poesia de Manuel Bandeira quando escreveu sobre um bicho “na imundice do pátio”, “catando comida entre os detritos” e que no fim das contas, tal “bicho, meu Deus, era um homem”. Mas neste momento quero me prender a uma outra associação: os homens-gabiru. Esta é uma expressão que aparece no início da década de 1990, em um livro chamado Homem-gabiru: catalogação de uma espécie. Tal “espécie”, é uma referência aos gabirus, uma espécie de rato gigante que vive nos lixos. Na música, Chico Science trouxe a uma junção, quando de forma brilhante compôs: “O sol queimou, queimou a lama do rio / Eu ví um chié andando devagar / E um aratu pra lá e pra cá / E um caranguejo andando pro sul / Saiu do mangue, virou gabiru”

Para dar uma boa resumida, tais homens-gabiru, que vão aparecer em um tanto de outras produções jornalísticas na década de 1990, são caracterizados muitas vezes como pessoas que se perpetuaram com baixa estatura não por uma questão genética, mas essencialmente por conta da fome. Homens e mulheres que se tornaram agressivos, furtivos e que iam em busca de restos alimentares nas ruas. Que perderam suas cidadanias, o respeito próprio e se animalizaram, como escreveu o geografo Manuel Correia de Andrade no prefácio do livro que citei sobre o Homem-Gabiru.

Mas por que estou retomando a figura dos homens-gabiru neste momento? Talvez ainda seja cedo para fazer apontamentos mais concretos, mas não consigo parar de pensar sobre a possibilidade de volta de uma realidade da qual novas gerações, e eu me incluo nisso, não tenhamos sequer lembranças. Se vivenciamos nos últimos 20 anos políticas sociais que possibilitaram a saída de dezenas de milhões de pessoas da miséria em nosso país e tiraram a metáfora do homem animalizado de nosso vocabulário, podemos estar imersos agora em uma política que termine por trazer novamente esta realidade de muita miséria e sofrimento para o nosso povo.

Desemprego crescente associado a um forte boicote aos estados nordestinos, governados essencialmente por partidos de oposição ao bolsonarismo, podem reforçar uma concentração econômica no sul e sudeste do país, o que pode culminar com um aceleramento deste cenário de desastre para o nosso povo.

Se por um lado parece catastrófico, por outro, já temos vários sinais do que está acontecendo. Depois de cair fora do mapa da fome mundial, estamos voltando, como apontam alguns pesquisadores. Posso citar também a mortalidade infantil, importante indicador de saúde, que voltou a crescer, depois de tanto também de avanços.

Como não é segredo para ninguém, a nossa situação é difícil. Esta aliança entre neoliberais e a extrema-direita representada pela família de Bolsonaro leva nosso país cada vez mais para o fundo de um poço que parece não ter fim. Mas é preciso resistir para sobreviver. De forma inteligente, planejada, mas definitivamente firmes e solidários. Não queremos a volta dos homens-gabiru. Este retrocesso de décadas precisa ser evitado.

Esta reflexão só foi possível graças à lembrança do termo em uma conversa com meu pai a quem sempre agradeço pelos ensinamentos de sempre.

Edição: Monyse Ravenna