RECORDAÇÃO

Memória: a trajetória interrompida da fotógrafa carioca Valda Nogueira

Vítima de atropelamento na última sexta (4), Valda era fotógrafa formada pela Escola de Fotógrafos Populares da Maré

Brasil de Fato | Rio de Janeiro (RJ)

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Valda Nogueira sendo fotografada pelas lentes de Ripper durante trabalho fotográfico no norte de Minas Gerais / João Roberto Ripper

Com uma trajetória promissora, a fotógrafa e artista visual carioca Valda Nogueira, 34 anos, teve a vida interrompida após ser atropelada por um ônibus enquanto andava de bicicleta, no bairro da Tijuca, zona norte do Rio de Janeiro, na última sexta-feira (4). Valda chegou a ser socorrida com vida até o hospital, porém, não resistiu aos ferimentos e faleceu. A fotógrafa foi mais uma vítima fatal da violência do trânsito. Dados da 3ª edição do Dossiê do Trânsito feito pelo Instituto de Segurança Pública (ISP) em parceria com a Coordenadoria de Estatística e Acidentologia do Detran-RJ, revelaram que mais de um terço das mortes no trânsito, o mesmo que 35,2%, foram provocadas por atropelamento.

A Polícia Civil informou ao Brasil de Fato que a 19ª DP (Tijuca) está investigando o caso e aguarda as imagens das câmeras de seguranças instaladas na região.

Formada pela Escola de Fotógrafos Populares, no Complexo da Maré, em 2012, Valda tinha no fotógrafo e documentarista João Roberto Ripper uma inspiração para desenvolver os trabalhos visuais. De acordo com Ripper, os dois realizaram mais de 10 viagens pelo interior do país para retratar populações tradicionais. A aproximação começou durante a formação de Valda na Escola de Fotógrafos e não parou mais. Em uma das coberturas, os dois viajaram juntos para o norte de Minas Gerais onde documentaram a relação de quilombolas e vazanteiros com o Rio São Francisco. Para Ripper, Valda trazia uma força única em suas fotos que só era possível a partir da relação construída entre a profissional por trás da câmera e o fotografado.

Para Ripper, Valda construía relação única entre a profissional por traz da câmera e o fotografado (Foto: João Roberto Ripper)

“Ela foi cada vez mais se envolvendo com as populações que ela fotografava, se envolvendo não só politicamente, mas afetivamente. A Valda fotografando vazanteiros e quilombolas no norte de Minas era uma criança brincando com as outras jovens dentro do Rio São Francisco, se pintando toda de barro, mergulhando e rindo. Ela tinha muito as pessoas cativadas por ela e ela pelas pessoas. Isso era muito especial no trabalho dela”, conta o fotógrafo, que recebeu diversas mensagens de lideranças das comunidades tradicionais nos últimos dias lamentando a morte precoce de Valda.

Desde 2012, Valda Nogueira retratou comunidades tradicionais pelo Brasil (Foto: Valda Nogueira)

A mulher negra e a câmera

Valda estudava Artes Visuais na Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj), integrava o coletivo Farpa, as plataformas de mulheres fotojornalistas Women Photograph, Diversify.Photo e MFON Women. O reconhecimento internacional do seu trabalho visibilizou ainda mais a sua atuação em defesa dos direitos humanos e também pela maior participação da mulher negra na fotografia.

No último sábado (5), Valda participaria de um debate no Sesc Madureira sobre a perspectiva de fotógrafas negras a respeito de territórios e tradições. O evento com curadoria de Thais Rocha, amiga pessoal de Valda, foi mantido em homenagem a documentarista.

Thais dedicou um capítulo da sua dissertação de mestrado em Artes Visuais na Uerj cujo tema foi “Mulheres Negras na Fotografia Contemporânea [Ana Lira e Valda Nogueira]” para tratar do trabalho desenvolvido por Valda. Além de toda a potência estética visível na fotografia documental humanista da artista, Rocha relata que uma das marcas principais de Valda estava na generosidade. 

“O que me marca na Valda é que ela era muito generosa. Eu fui aos Estados Unidos uma vez e falei: ‘tô viajando, se quiser que eu compre alguma coisa para você de equipamento, me fale’. Ela comprou bateria de câmera fotográfica porque ela queria dar de presente para uma menina que ela estava incentivando a fotografar lá no (Complexo) Alemão. Ela estava sempre chamando outras mulheres para não esmorecerem”, conta Rocha.

No ano passado Valda foi convidada para integrar o coletivo Farpa, um projeto que busca fotografar histórias de maneira humana extraindo a beleza a partir da simplicidade. Erick Dau, fotógrafo do coletivo, conta que de início, o grupo, composto de cinco fotógrafos homens, achou que Valda não aceitaria o convite, mas em fevereiro de 2018 ela topou e entrou para o Farpa. Para Dau, Valda deixa um legado que está muito além da técnica de fotografar.

“Valda é um exemplo irretocável de como fazer fotografia, se todos os fotógrafos se portassem como a Valda quando ela estava fotografando a gente teria uma qualidade de trabalhos muito grande. O diferencial é justamente o respeito, o carinho que ela tratava as pessoas que ela fotografava”, afirma. 

Valda fotografou a relação de quilombolas e vazanteiros com o Rio São Francisco no norte de Minas Gerais (Foto: Valda Nogueira)

Protesto

O coletivo de cicloativistas "Massa Crítica", do Rio de Janeiro, marcou uma manifestação para esta quinta-feira (10) em protesto ao atropelamento da fotógrafa. Os ciclistas se reunirão na praça da Cinelândia, no centro do Rio, às 19h, e seguirão em direção à praça Saens Peña, na Tijuca.

*Atualizada em 10/10/2019 às 14h32

Edição: Mariana Pitasse